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Como a América ficou viciada em fentanil

A droga, responsável pelo número recorde de mortes por overdose no país, penetrou em meados da década passada e explodiu com a pandemia. “Os traficantes não sabem como usar para não matar seus clientes”, diz Sam Quinones, grande cronista da crise dos opio

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PAÍS 21/05/2023

A história de como a América ficou viciada em fentanil é uma história econômica clássica de criação de oferta e demanda. Tudo começou em meados da década de 1990, quando empresas farmacêuticas como a Purdue derrubaram agressivamente as regras do marketing médico para inundar consultórios médicos e armários de remédios em todo o país com pílulas revolucionárias chamadas Oxycontin. Eles não apenas vieram para acabar com a dor de uma vez por todas, mas também não se envolveram, disseram.

Quando caiu aquela oferta sensacional, um exército de viciados saiu às ruas com uma demanda que parecia ultrapassada: buscavam heroína, mais barata e também mais perigosa. Em meados da década passada, a epidemia de opioides já era uma crise sem precedentes quando a história deu outro rumo inesperado com a entrada em cena de uma droga fortíssima que poucos fora do centro cirúrgico tinham ouvido falar até então. Fentanyl varreu todos os hábitos anteriores; em 2022, causou cerca de três quartos das mortes por overdose, o que, conforme anunciado pelas autoridades norte-americanas esta semana e na ausência de uma contagem final, deverá estabelecer um novo recorde, com cerca de 110 mil vítimas. Ou seja: mais de 2.000 por semana.