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A descoberta da Argolândia, continente que desapareceu há 155 milhões de anos

Os cientistas sabiam da existência da Argolândia há muito tempo porque encontraram vestígios da sua separação da Austrália

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 10/11/2023
A descoberta da Argolândia, continente que desapareceu há 155 milhões de anos
O continente se separou da Austrália há 155 milhões de anos | Getty Imagens

Uma das maiores incógnitas da geologia agora foi resolvida: geólogos da Universidade de Utrecht, na Holanda, anunciaram que conseguiram encontrar o “continente perdido” da Argolândia, que se formou há 155 milhões e depois desapareceu.

Era um enorme pedaço de terra, de cerca de 5 mil km de extensão, que se separou do oeste da Austrália, quando o país fazia parte - juntamente com a América do Sul, África, Índia e Antártica - do antigo supercontinente de Gondwana.

Os cientistas sabiam da existência da Argolândia há muito tempo porque encontraram vestígios da sua separação da Austrália.

Além de fósseis, cadeias de montanhas e rochas (onde geralmente há vestígios de divisões continentais), a evidência mais clara era o enorme buraco deixado pela peça que se separou: uma bacia localizada nas profundezas do oceano, a oeste da Austrália, chamada Planície Abissal de Argo (daí o nome com que foi batizado o continente desaparecido).

Embora seja fácil entender como ocorreu a separação de outros continentes que antes estavam unidos em Gondwana - por exemplo, se você olhar para a África e a América do Sul você vê que eles se encaixariam perfeitamente - a Argolândia não era visível. Cientistas então procuravam o enorme pedaço de terra que “encaixaria” na costa da Austrália.

Os geólogos holandeses, liderados por Eldert Advokaat, resolveram o mistério: não existe mais uma grande massa de terra chamada Argolândia porque esse continente, depois de se separar, se fragmentou, tornando-se um arquipélago.

Uma parte afundou e hoje está sob o Sudeste Asiático, na forma de placas oceânicas. Mas também existem pedaços deste continente indescritível “sob as selvas verdes de grande parte da Indonésia e de Mianmar”, de acordo com a pesquisa publicada na revista científica Gondwana Research.

Como o continente foi encontrado

A equipe de cientistas testou diferentes modelos de computador durante sete anos para encontrar a localização da Argolândia.

“Estávamos literalmente lidando com ilhas de informação, e é por isso que a nossa pesquisa demorou tanto”, explicou Advokaat em um comunicado à imprensa.

"A Argolândia foi dividida em muitos fragmentos diferentes. Isso obstruiu a nossa visão da viagem do continente."

Depois de compreenderem que a Argolândia não tinha sido preservada como uma massa única, mas sim transformada numa série de microcontinentes separados pelo oceano, Advokaat e o seu colega geólogo da Universidade de Utrecht, Douwe van Hinsbergen, iniciaram a tarefa árdua de identificar cada setor.

Eles também cunharam um novo nome que define com mais precisão a geologia atual do continente: “argopélago”.

Mapa da Indonésia

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Legenda da foto,

O continente se fragmentou e alguns pedaços se juntaram às ilhas do sudeste asiático

Linha de Wallace

Montar o quebra-cabeça deste continente perdido também poderia ajudar a explicar outro mistério que intriga os cientistas - biólogos, no caso.

É a chamada "linha Wallace", uma barreira invisível que separa a fauna do sudeste asiático da da Austrália.

Os biólogos notaram que os animais dos dois lados desta linha, que atravessa o sul do arquipélago indonésio (país formado por mais de dez mil ilhas), são muito diferentes entre si e não se misturam.

A oeste da linha estão os mamíferos placentários, como macacos, tigres e elefantes, que estão quase completamente ausentes a leste, onde podem ser encontrados marsupiais e cacatuas, animais tipicamente associados à Austrália.

“Enquanto a península malaia e as ilhas de Sumatra, Java e Bornéu (na Indonésia) são o lar de animais ‘eurasiáticos’, a ilha de Sulawesi (também conhecida como Celebes), na Indonésia é o lar de animais ‘australásicos’, uma mistura entre animais eurasianos e australianos”, explicou Advokaat à BBC Mundo.

"Esta mistura é explicada pelo fato de a parte ocidental 'eurasiática' de Sulawesi ter entrado em contato com a parte sudeste 'australiana' da ilha entre 28 e 3,5 milhões de anos atrás, como mostramos na nossa reconstrução", acrescentou.

Segundo os “descobridores” da Argolândia, isso pode ter acontecido porque o continente levou consigo sua própria vida selvagem quando se separou da Austrália e se juntou ao sudeste asiático.

Essa divisão curiosa não é vista apenas em mamíferos e aves. Foram encontradas até evidências de que a primeira espécie humana que habitou as ilhas do Sudeste Asiático também respeitou esta barreira invisível.

“Estas reconstruções são vitais para a nossa compreensão de processos como a evolução da biodiversidade e do clima, ou para encontrar matérias-primas”, destacou van Hinsbergen.