Política

Por que Lula proibiu o assessor de Trump que queria visitar Bolsonaro de entrar no Brasil

De acordo com o Itamaraty, o cancelamento do visto aconteceu por suposta omissão de informações relevantes e alegações falsas

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 13/03/2026
Por que Lula proibiu o assessor de Trump que queria visitar Bolsonaro de entrar no Brasil
Darren Beattie é conselheiro sênior para política brasileira no Departamento de Estado dos EUA | Governo Americano

O Ministério das Relações Exteriores (MRE) revogou o visto concedido ao conselheiro sênior do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o Brasil, Darren Beattie, nesta sexta-feira (13/3).

A revogação foi confirmada pelo órgão à BBC News Brasil. De acordo com o Itamaraty, o cancelamento do visto aconteceu por suposta omissão de informações relevantes e alegações falsas, como a de que Beattie teria agenda diplomática com oficiais do governo brasileiro, o que só teria sido tentado após questionamento feito pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que a revogação do visto de Beattie ocorreu como resposta ao cancelamento do visto da família de Alexandre Padilha, ministro da Saúde, em agosto do ano passado, em meio a sanções de Donald Trump sobre o Brasil.

"Aquele cara americano que disse que vinha para cá para visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que está bloqueado", afirmou Lula, em um evento no Hospital Federal do Andaraí, no Rio de Janeiro.

O cancelamento do visto de Beattie aconteceu após a tentativa dele de visitar Jair Bolsonaro (PL) no presídio onde o ex-presidente cumpre pena, em Brasília.

O pedido chegou a ser autorizado pelo ministro do STF, Alexandre de Moraes, na terça-feira (10/3), a pedido dos advogados de Bolsonaro.

Mas na quarta-feira, após um novo pedido da defesa sobre o horário da visita, Moraes solicitou esclarecimentos ao MRE sobre a agenda de Beattie no Brasil. Na resposta, o Itamaraty disse que, no pedido de visto de Beattie, não foi informado que ele visitaria Bolsonaro e que essa visita poderia representar uma "ingerência política" em assuntos internos do Brasil em meio a um ano eleitoral.

"Cumpre observar, por oportuno, que a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-Presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro", diz um trecho do ofício do Itamaraty.

Com base nessa resposta, Moraes revogou a autorização para a visita.

O ofício enviado pelo Itamaraty diz que a visita de Beattie ao Brasil havia sido comunicada oficialmente pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília citando apenas a sua participação em uma conferência sobre minerais críticos e reuniões com representantes do governo brasileiro.

De acordo com o Itamaraty, não havia menções a encontros com Bolsonaro ou a outras atividades fora desse escopo. O ministério afirmou ainda que a solicitação para visitar o ex-presidente partiu diretamente da defesa de Bolsonaro e não foi comunicada previamente ao governo brasileiro.

"[Tal pedido jamais] tramitou pelo Ministério das Relações Exteriores ou foi sequer objeto de comunicação destinada a este Ministério", escreveu Vieira. O chanceler acrescentou que, até 11 de março, não havia sequer agenda diplomática formalmente registrada no Itamaraty envolvendo Beattie.

Beattie é ligado ao secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, e em 2025, ganhou notoriedade junto a aliados do ex-presidente Bolsonaro por conta de críticas que ele fez publicamente ao ministro Alexandre de Moraes.

Na época, ele ocupava o cargo de sub-secretário para Diplomacia Pública dos Estados Unidos. Usando a conta oficial do cargo no X (antigo Twitter), Beattie criticou o julgamento de Bolsonaro e as ações de Moraes.

"O ministro Moraes é o coração pulsante da perseguição e do complexo de censura contra Jair Bolsonaro", diz um trecho de uma de suas postagens sobre o assunto.

'Fiquei indignado'

No dia 15 de agosto do ano passado, Trump revogou o visto de entrada nos Estados Unidos da esposa e da filha de Padilha

O ministro não foi afetado diretamente, porque seu visto americano venceu em 2024. Mas ele ficou impedido de entrar nos Estados Unidos.

A divulgação da medida ocorreu dois dias após a gestão Trump anunciar a revogação de vistos de brasileiros envolvidos na criação do programa Mais Médicos, quando cubanos atuaram no Brasil para suprir a falta de atendimento em áreas remotas ou periféricas do país.

Padilha também era ministro da Saúde quando o programa foi implementado, em 2013, durante o governo da presidente Dilma Rousseff (PT).

A medida foi divulgada pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como parte da retomada da "política de restrição de vistos relacionada a Cuba", e incluía outros dois servidores do governo, um deles, do ministério da Saúde.

O texto afirmava que os dois teriam atuado no "esquema de exportação de trabalho forçado do regime cubano", em referência à participação de médicos cubanos no programa entre 2013 e 2018.

O Departamento de Estado dos EUA acusa os envolvidos de enriquecer o "corrupto regime cubano" e de privar o povo da ilha de atendimento médico.

Além disso, o comunicado apontava que a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) teria atuado como intermediária para implementar o programa sem seguir os requisitos constitucionais brasileiros, driblando sanções dos EUA a Cuba. A Opas, vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não se manifestou sobre o caso.

"Fiquei indignado", afirmou Padilha em entrevista à BBC News Brasil em outubro. "Tem um ataque à minha família. Tenho uma filha de 10 anos de idade. Quero saber qual é o risco que minha filha gera para o governo dos Estados Unidos", disse.