Política
Pivetta vira alvo de Natasha e Wellington em debate marcado por incentivos fiscais, ataques e troca de acusações
Governador enfrentou fogo cruzado sobre incentivos fiscais e episódio envolvendo ex-mulher; confronto também deixou perguntas pouco exploradas sobre atividade empresarial de Natasha e alianças políticas de Wellington
A poucos dias das eleições, o debate entre os candidatos ao Governo de Mato Grosso colocou Otaviano Pivetta (Republicanos) no centro de uma noite de forte pressão política.
Dra. Natasha (PSD) e Wellington Fagundes (PL) direcionaram alguns dos ataques mais contundentes ao atual governador, principalmente sobre dois assuntos potencialmente explosivos: incentivos fiscais concedidos pelo Estado e um episódio envolvendo a ex-mulher de Pivetta.
Pivetta reagiu, apresentou números, defendeu sua administração e tentou devolver parte dos ataques. Em suas considerações finais, afirmou que os dois adversários teriam formado um “consórcio” para atacá-lo.
Mas o debate também deixou outra impressão: enquanto Pivetta precisou responder sucessivamente às pautas levantadas pelos adversários, algumas perguntas potencialmente incômodas para Natasha e Wellington ficaram praticamente fora do confronto.
R$ 500 milhões colocam incentivos no centro do ringue
Natasha levou para o debate uma das acusações mais duras da noite.
A candidata afirmou que empresa ligada a Pivetta teria recebido incentivos fiscais e citou cerca de R$ 500 milhões que, segundo sua argumentação, teriam deixado de entrar nos cofres públicos.
Pivetta respondeu que os programas de incentivos obedecem à legislação e são conduzidos tecnicamente por servidores de carreira da Secretaria de Fazenda.
Também defendeu que a política de benefícios fiscais ajudou Mato Grosso a industrializar sua produção, gerar empregos e aumentar a arrecadação.
Como exemplo, citou a indústria do etanol de milho e afirmou que o setor proporcionou mais de R$ 4 bilhões em arrecadação de ICMS.
O embate colocou uma discussão complexa no centro da campanha: incentivo fiscal representa perda de receita ou investimento capaz de gerar desenvolvimento, empregos e arrecadação futura?
Wellington ataca — e Pivetta devolve com incentivos
Wellington também utilizou os incentivos fiscais para atacar Pivetta.
O governador, porém, tentou devolver a cobrança levantando benefícios concedidos a empresa ligada à família do senador.
O episódio mostrou que a discussão sobre renúncia fiscal não necessariamente termina em Pivetta.
A questão que permanece é objetiva: quais empresas receberam incentivos em Mato Grosso, quanto receberam e qual retorno econômico e social proporcionaram ao Estado? Esse é um debate que ultrapassa o período eleitoral e merece transparência.
Natasha leva ex-mulher de Pivetta para o debate
A temperatura aumentou ainda mais quando Natasha levou para o confronto um episódio envolvendo a ex-mulher de Pivetta.
A candidata questionou diretamente o governador.
Pivetta afirmou que foi inocentado e criticou a utilização eleitoral do episódio.
Natasha insistiu, afirmando que, como única mulher candidata ao Governo, considerava necessário discutir o assunto.
Pivetta voltou a responder e procurou deslocar o debate para as políticas públicas de proteção às mulheres, citando Patrulhas Maria da Penha, delegacias especializadas e medidas protetivas.
O assunto ainda reapareceria nas considerações finais de Wellington.
Era evidente que violência contra a mulher havia se transformado em uma das principais linhas de pressão contra Pivetta naquela noite.
Natasha é servidora e empresária: o que diz a lei 8.112?
Foi justamente no momento em que Natasha apresentou sua trajetória profissional que surgiu um ponto que poderia ter provocado outro debate.
A candidata possui trajetória no serviço público federal e também atuação relacionada à iniciativa privada.
Isso, por si só, não caracteriza crime, improbidade administrativa ou irregularidade funcional.
Mas existe uma questão jurídica que poderia ter sido esclarecida.
O artigo 117, inciso X, da Lei Federal 8.112/90 estabelece restrições para que servidor público federal participe da gerência ou administração de sociedade privada ou exerça comércio.
A própria legislação, entretanto, permite que o servidor participe de empresa como acionista, cotista ou comanditário.
Portanto, a pergunta juridicamente correta não seria acusar Natasha de ilegalidade.
Seria perguntar: Qual é exatamente a participação da candidata em empresas privadas? Ela é apenas sócia ou cotista, situação permitida pela legislação, ou exerce alguma função de gerência ou administração? E qual é a compatibilidade dessas atividades com seu vínculo funcional?
Uma pergunta objetiva, passível de resposta documental e que poderia ter levado Natasha a explicar ao eleitor sua situação funcional e empresarial.
VLT volta ao debate — mas e a história do projeto?
Outro momento que poderia ter produzido um confronto diferente ocorreu quando VLT e BRT entraram em cena.
Natasha e Wellington cobraram Pivetta pelos transtornos, custos e demora das obras do BRT.
São questionamentos legítimos sobre a administração atual.
Mas faltou uma segunda pergunta: Como Mato Grosso chegou até aqui?
O VLT nasceu politicamente durante o governo Silval Barbosa.
Documentos históricos da Assembleia Legislativa mostram a defesa enfática do modal pelo então presidente da Casa, José Riva. Registros daquele período também mostram a participação do Legislativo nas autorizações necessárias para o financiamento do projeto.
O VLT acabou não sendo entregue para a Copa de 2014 e se transformou em uma das maiores controvérsias da infraestrutura recente de Mato Grosso.
Wellington, Janaína e a discussão sobre a herança política
Esse passado ganhou novo significado na eleição de 2026 porque Wellington disputa o Governo em uma coligação que inclui o MDB, enquanto Janaína Riva, filha de José Riva, integra o mesmo campo eleitoral na disputa pelo Senado.
Isso não significa atribuir a Wellington ou Janaína responsabilidade por eventuais irregularidades cometidas no projeto do VLT, nem permite transferir automaticamente para eles responsabilidades de terceiros.
Mas permite um questionamento político e histórico sobre alianças.
A própria campanha de Pivetta já utilizou essa linha ao associar o grupo adversário à chamada “velha política”, aos Riva e ao MDB do período de Silval.
A coligação de Wellington tentou retirar uma dessas propagandas do ar. Em decisão liminar recente, porém, a Justiça Eleitoral não identificou fundamento suficiente para suspender a peça naquele momento, destacando que a propaganda fazia uma crítica política à composição partidária sem afirmar que Wellington tivesse cometido crimes ou mantivesse acordo pessoal com Silval ou José Riva.
Portanto, quando Wellington e Natasha colocaram o VLT e o BRT na mesa, Pivetta tinha diante de si uma possibilidade de ampliar a discussão: Quem defendeu politicamente a implantação do VLT? Quem autorizou os financiamentos? Quanto Mato Grosso gastou? Por que o modal nunca transportou um único passageiro? E quais grupos políticos participaram das decisões tomadas naquela época?
São perguntas históricas que continuam relevantes porque Cuiabá e Várzea Grande ainda convivem com as consequências das decisões tomadas há mais de uma década.
Ataques previsíveis e contra-ataques que poderiam ter sido explorados
O debate deixou uma constatação.
Os principais ataques contra Pivetta eram previsíveis.
Incentivos fiscais, o episódio envolvendo sua ex-mulher, BRT, servidores públicos e saúde já faziam parte da disputa eleitoral.
Pivetta respondeu e contra-atacou em diferentes momentos, mas passou parte relevante da noite reagindo a assuntos escolhidos pelos adversários.
Ao mesmo tempo, Natasha e Wellington também apresentaram pontos que poderiam ter sido submetidos a questionamentos mais incisivos.
No caso de Natasha, sua relação entre serviço público e atividade empresarial poderia ter sido esclarecida à luz da Lei 8.112.
No caso de Wellington, a entrada do VLT no debate poderia ter aberto uma discussão sobre a origem do projeto, o governo Silval, a atuação política de José Riva naquele período e a composição das alianças eleitorais atuais.
Saúde, servidores e BRT completam a noite de confronto
Além dos ataques pessoais e políticos, os candidatos discutiram saúde, segurança, habitação, servidores e infraestrutura.
Pivetta defendeu investimentos realizados pelo Governo do Estado e destacou hospitais, infraestrutura e equilíbrio fiscal.
Natasha prometeu concursos públicos, convocação de aprovados, negociação permanente com servidores e ampliação das políticas de saúde e proteção às mulheres.
Wellington prometeu valorização dos servidores, pagamento do RGA, descentralização da saúde e conclusão das obras de mobilidade.
O material do debate mostra que os três também confrontaram posições sobre sistema prisional, habitação, ferrovia estadual e BRT.
Reta final pega fogo
O debate mostrou que a disputa pelo Palácio Paiaguás entrou definitivamente em sua fase mais tensa.
Pivetta foi colocado sob pressão.
Natasha apostou em questionamentos sobre a gestão e em um tema pessoal de grande repercussão.
Wellington concentrou críticas nos incentivos fiscais, servidores, infraestrutura e administração estadual.
Pivetta respondeu apresentando resultados, números e questionando as relações políticas dos adversários.
Mas a noite também deixou perguntas que não foram feitas.
E, numa eleição decidida não apenas pelas respostas, mas também pela capacidade de colocar o adversário diante de suas próprias contradições, as perguntas que ficaram fora do debate podem ganhar tanto peso quanto aquelas que foram feitas diante das câmeras.
A cinco dias das urnas, o confronto acabou no estúdio.
A guerra política pelo Governo de Mato Grosso, não.