Política

CERCO MILIONÁRIO NA SEAF: ex-assessor de Janaína integrou cúpula da pasta antes de investigação sobre R$ 28 milhões

Operação Suserano colocou sob investigação repasses milionários para kits agrícolas; ex-secretário e ex-assessor parlamentar ligado a Janaína integraram a cúpula da Seaf

DA REPORTAGEM 30/09/2026
CERCO MILIONÁRIO NA SEAF: ex-assessor de Janaína integrou cúpula da pasta antes de investigação sobre R$ 28 milhões
À frente da Seaf estava Luiz Artur de Oliveira Ribeiro, o Luluca Ribeiro, do MDB, apontado em publicações da época como indicação política ligada à deputada estadual e atual candidata ao Senado | Arquivo Página 12

A investigação sobre supostas irregularidades milionárias envolvendo a Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf) lança luz sobre a composição política da cúpula que comandava a pasta em 2024, período em que foram realizados repasses e celebrados termos de fomento que posteriormente entraram na mira dos órgãos de controle e da Polícia Civil.

À frente da Seaf estava Luiz Artur de Oliveira Ribeiro, o Luluca Ribeiro, do MDB, apontado em publicações da época como indicação política ligada à deputada estadual e atual candidata ao Senado Janaína Riva (MDB). Outro nome que passou pela estrutura da secretaria tinha ligação funcional direta e documental com a parlamentar: Talvany Neiverth havia ocupado o cargo de assessor parlamentar lotado no gabinete de Janaína na Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

O vínculo de Talvany consta de documento oficial da própria Assembleia. O Ato nº 2.695/2023 registra sua exoneração do cargo de assessor parlamentar, matrícula 21130, lotado no gabinete de Janaína Riva, com efeitos a partir de 1º de setembro de 2023.

Em julho de 2024, uma mudança atingiu a cúpula da Seaf. Deixaram a estrutura Luluca Ribeiro, Clóvis Figueiredo Cardoso, Talvany Neiverth, Aline Emanuelle Rosendo e Ricardo Antônio de Lamonica Israfel Pereira.

Dois meses depois, em 24 de setembro daquele ano, a situação ganhou dimensão policial. A Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor) deflagrou a Operação Suserano para investigar supostas irregularidades na execução de recursos provenientes de emendas parlamentares destinados à aquisição de kits de ferramentas para a agricultura familiar.

Luluca Ribeiro figurou entre os principais alvos da operação.

Segundo informações da investigação divulgadas à época, o Instituto de Natureza e Turismo (Pronatur) recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares por meio de instrumentos celebrados com a Seaf. A investigação apurava repasses superiores a R$ 28 milhões e suspeitas de sobrepreço na aquisição dos equipamentos.

Conforme informações extraídas da decisão judicial que autorizou a operação e divulgadas pela imprensa, Luluca, na condição de secretário e gestor da pasta, teria autorizado repasses dos recursos ao Pronatur. A Polícia Civil e os órgãos de controle passaram a investigar possíveis irregularidades na execução dos instrumentos, inclusive suspeitas de sobrepreço que, em determinados itens, poderiam chegar a 80%.

Essas informações integram investigação e não representam condenação definitiva dos envolvidos.

O próprio Página 12 revelou os desdobramentos da Operação Suserano em setembro de 2024, quando noticiou que policiais civis cumpriram mais de 50 ordens judiciais, entre elas 11 mandados de busca e apreensão, além de medidas de bloqueio de bens e valores.

Outro fato documentado chama atenção dentro do contexto da política estadual para agricultura familiar naquele mesmo período. Janaína Riva também destinou uma emenda de R$ 1.876.000,38 para aquisição de kits agrícolas.

Em 13 de junho de 2024, pouco antes da mudança na cúpula da Seaf e cerca de três meses antes da deflagração da Operação Suserano, foram entregues 80 kits agrícolas a 69 associações de pequenos produtores de 46 municípios de Mato Grosso, dentro do projeto Campo Sustentável.

Segundo a Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM), os equipamentos foram adquiridos com recursos da emenda parlamentar de Janaína. Cada kit era composto por roçadeira, motocultivador, adubadeira costal e perfurador de solo.

A existência da emenda de R$ 1,876 milhão e a entrega dos 80 kits são fatos documentados. Contudo, os elementos consultados pelo Página 12 até esta publicação não permitem afirmar que esses recursos específicos de Janaína tenham financiado os termos Seaf-Pronatur atingidos pela Operação Suserano ou pelos procedimentos administrativos posteriores.

A distinção é importante porque a existência de uma emenda destinada pela parlamentar à mesma área de política pública não permite, isoladamente, atribuir a ela participação nas irregularidades investigadas.

A Operação Suserano não encerrou o caso. Procedimentos administrativos continuaram avançando sobre Termos de Fomento celebrados entre a Seaf e o Pronatur.

Em setembro de 2026, a Comissão de Tomada de Contas Especial da Secretaria de Agricultura Familiar notificou formalmente Wilker Weslley Arruda e Silva e o Instituto de Natureza e Turismo (Pronatur) para apresentarem defesa relacionada a uma série de Termos de Fomento.

O edital estabelece prazo de dez dias e relaciona instrumentos destinados ao fomento da agricultura familiar por meio da aquisição de ferramentas como carrinho de mão, enxada, foice, pá, cavadeira, pulverizador, machado, picareta, facão e outros equipamentos utilizados no campo. Outro termo mencionado tinha como objeto a aquisição de barracas.

O documento registra expressamente que esses instrumentos foram celebrados entre a Seaf e o Pronatur e que integram a Tomada de Contas Especial instaurada pela Portaria nº 222/2025/GAB/SEAF.

A sequência cronológica chama atenção: nomes politicamente relacionados a Janaína passaram pela estrutura da Seaf; um ex-assessor de seu gabinete ocupou função na pasta; a própria parlamentar destinou R$ 1,876 milhão para outro projeto de kits agrícolas; integrantes da cúpula deixaram a secretaria em julho de 2024; dois meses depois, Luluca tornou-se alvo da Operação Suserano; e procedimentos administrativos relacionados aos termos Seaf-Pronatur continuaram produzindo desdobramentos até 2026.

Essa sequência, entretanto, não constitui prova de participação de Janaína Riva nas irregularidades investigadas.

Até esta publicação, os documentos consultados pelo Página 12 não apontam Janaína como investigada na Operação Suserano nem atribuem à parlamentar participação no suposto esquema. Também não foi localizada documentação demonstrando que sua emenda de R$ 1.876.000,38 tenha financiado especificamente os termos Seaf-Pronatur questionados pelos órgãos de controle.

Da mesma forma, os elementos analisados não permitem afirmar que Janaína tivesse conhecimento de eventuais irregularidades praticadas por integrantes da gestão. Eventuais responsabilidades devem ser individualizadas e comprovadas pelas autoridades competentes, observados o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

O que está documentalmente estabelecido é que pessoas com vínculos políticos ou funcionais com Janaína ocuparam posições na estrutura da Seaf, que a parlamentar destinou recursos para aquisição de kits agrícolas naquele período e que outros instrumentos da pasta envolvendo kits e ferramentas agrícolas acabaram submetidos a investigação policial e procedimentos dos órgãos de controle.

O Página 12 deixa espaço aberto para manifestação de Janaína Riva, Luluca Ribeiro, Pronatur e dos demais mencionados. Eventuais esclarecimentos serão incorporados à reportagem.