Política
ILDE VENCE GUERRA DE BASTIDORES, LEVA 27 VOTOS E ABILIO REAGE: “EXISTEM DOIS ILDES”
Eleição realizada na manhã desta terça-feira sacramentou por unanimidade uma disputa que começou muito antes da votação; Ilde Taques comandará a Câmara de Cuiabá a partir de 2027, enquanto Abilio Brunini reconhece a derrota política, provoca o presidente
A votação durou pouco. A batalha política, não. A eleição realizada na manhã desta terça-feira (6) para definir o próximo comando da Câmara Municipal de Cuiabá terminou com uma imagem de unidade: os 27 vereadores votaram em Ilde Taques (Podemos), elegendo-o por unanimidade presidente do Legislativo para o biênio 2027/2028. Mas por trás do placar de 27 a 0 existe uma disputa de bastidores que redesenhou as forças políticas dentro da Câmara e terminou com o prefeito Abilio Brunini (PL) obrigado a reconhecer uma composição construída fora de seu controle.
Ilde assumirá a presidência em 1º de janeiro de 2027, sucedendo Paula Calil (PL). A nova Mesa Diretora terá Eduardo Magalhães (Republicanos) como 1º vice-presidente, Maria Avallone (PSDB) na 2ª vice-presidência, Adevair Cabral (Solidariedade) como 1º secretário e Michelly Alencar (União Brasil) na 2ª secretaria.
O resultado oficial, porém, conta apenas a última página da história. A unanimidade registrada no plenário foi construída depois que Ilde conseguiu reunir força suficiente para inviabilizar projetos adversários e transformar sua candidatura no centro de uma composição envolvendo diferentes grupos e partidos.
É justamente aí que está o peso político da eleição.
Se o placar final mostra 27 vereadores juntos, os bastidores revelaram uma Câmara bem diferente daquela encontrada por Abilio no começo de sua administração. O prefeito, que iniciou o mandato cercado por uma ampla maioria parlamentar, enfrentou ao longo do período atritos, divergências e dificuldades em votações importantes. A disputa pelo comando da Câmara tornou-se, portanto, muito mais do que uma eleição administrativa: virou uma medição de forças.
E Ilde venceu essa medição.
A candidatura ganhou musculatura enquanto alternativas foram sendo desmontadas. As pretensões de Dilemário Alencar (União Brasil) e Kassio Coelho (Podemos) perderam espaço, enquanto o grupo ligado à atual presidente Paula Calil não conseguiu construir uma candidatura capaz de enfrentar a coalizão que se formava em torno de Ilde.
Quando chegou a manhã desta terça-feira,06, a guerra praticamente já havia terminado.
O que aconteceu no plenário foi a formalização do acordo.
Os 27 votos deram a Ilde algo ainda mais importante do que a presidência: legitimidade política para começar o próximo biênio sem uma Câmara oficialmente dividida entre vencedores e derrotados. O placar unânime também permitiu que vereadores inicialmente posicionados em outros projetos embarcassem na composição final sem prolongar publicamente a disputa.
A presença de Eduardo Magalhães na 1ª vice-presidência ajuda a explicar essa engenharia. Considerado próximo ao prefeito, ele integra uma Mesa que reúne forças distintas e pode funcionar como ponte entre o Palácio Alencastro e o Legislativo.
A composição, portanto, produz uma aparente contradição: Ilde venceu uma disputa de poder contra a articulação inicialmente desejada pelo grupo governista, mas terminou eleito com o voto de todos — inclusive dos vereadores próximos a Abilio.
Horas depois da eleição, o próprio prefeito foi à Câmara cumprimentar o presidente eleito. E foi nesse momento que a disputa ganhou um novo capítulo.
Abilio reconheceu a vitória, elogiou a capacidade de articulação de Ilde, mas não perdeu a oportunidade de lançar uma provocação.
“Existem dois Ilde: o do microfone e o dos bastidores”, afirmou.
Para o prefeito, o discurso adotado por Ilde durante a construção de sua candidatura teria sido necessário para conquistar apoio entre vereadores descontentes e integrantes da oposição, mas essa postura poderá mudar quando ele efetivamente assumir o comando da Casa.
Abilio foi além e lançou praticamente um desafio político ao futuro presidente.
“Eu duvido que, assumindo a presidência da Câmara, ele vá fazer um trabalho de oposição ao prefeito da Capital. Eu acho que essa não seria a estratégia inteligente para ele conduzir a Câmara Municipal”, declarou.
A frase revela o tamanho do jogo que começa agora.
De um lado, Ilde sustenta que pretende comandar uma Câmara independente, sem transformar o Legislativo em extensão da Prefeitura. De outro, Abilio sinaliza que espera uma relação institucional capaz de garantir governabilidade e permitir que projetos do Executivo avancem.
O prefeito também rejeitou a ideia de que uma boa relação entre os Poderes transforme a Câmara em “puxadinho” do Palácio Alencastro.
“As duas partes dependem. O Poder Executivo depende do Poder Legislativo para aprovar os seus projetos e o Poder Legislativo depende do Poder Executivo para entregar resultados. Não é puxadinho”, afirmou.
Ao mesmo tempo em que reconheceu a vitória adversária, Abilio fez uma defesa enfática de Paula Calil, afirmando ter orgulho de ter apoiado sua presidência e classificando sua administração como uma das melhores que já acompanhou na Câmara.
O movimento do prefeito mostra uma tentativa clara de virar a página. Sem votos suficientes para impor o projeto originalmente desejado, a estratégia passou a ser reconhecer a vitória de Ilde e preservar canais com a futura direção do Legislativo.
“Se uma chapa não consegue formalizar o número de votos suficiente para ganhar a eleição, se monta um projeto de composição, porque o Parlamento não pode ficar dividido”, afirmou Abilio.
A eleição também projeta seus efeitos para além dos limites de Cuiabá. Ilde pertence ao Podemos e sua vitória fortalece politicamente o partido dentro da Capital, colocando o comando do Legislativo cuiabano nas mãos de uma legenda que também ampliou sua presença no cenário estadual.
Nesse tabuleiro aparece ainda o presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi (Podemos), apontado como um dos principais aliados políticos de Ilde. Com isso, a presidência da Câmara da Capital passa a ter importância também nas articulações que começam a mirar 2028.
O grande teste, entretanto, será dentro da própria Câmara.
O placar de 27 a 0 registrado na manhã desta terça-feira é uma fotografia poderosa, mas não significa necessariamente que os 27 vereadores formarão um único bloco político pelos próximos dois anos. A unanimidade serviu para encerrar a eleição. A governabilidade será testada projeto por projeto.
E é justamente aí que a disputa poderá ficar ainda mais interessante.
Ilde conquistou todos os votos, venceu a batalha pela presidência e emergiu fortalecido. Abilio perdeu a queda de braço inicial, mas conseguiu colocar um aliado na Mesa e rapidamente abriu uma ponte com o vencedor.
A eleição acabou.
A disputa pelo verdadeiro comando político da relação entre a Câmara e o Palácio Alencastro está apenas começando.