Política
ILDE NO COMANDO: ABILIO NEGA SER REFÉM E GOVERNABILIDADE ENTRA EM TESTE NA CÂMARA
Presidente eleito não pertence ao grupo político do prefeito, mas promete independência sem oposição sistemática; resultado da eleição muda correlação de forças e coloca capacidade de articulação do Palácio Alencastro no centro dos próximos dois anos
A eleição de Ilde Taques (Podemos) para a presidência da Câmara Municipal de Cuiabá abriu um novo capítulo na relação entre o Legislativo e o prefeito Abilio Brunini (PL). Eleito por unanimidade na manhã desta terça-feira (6), com os votos dos 27 vereadores, Ilde comandará a Casa no biênio 2027/2028 sem integrar o grupo político do prefeito, uma mudança importante na correlação de forças da Capital.
Abilio, entretanto, rejeita a interpretação de que ficará “refém” da Câmara nos próximos dois anos. A questão que surge depois da eleição é outra: sem um aliado político comandando o Legislativo, qual será o tamanho da maioria que o prefeito conseguirá construir para aprovar os projetos de sua administração?
O placar de 27 a 0 pode transmitir a impressão de que não houve disputa, mas a unanimidade foi o resultado final de uma intensa articulação ocorrida antes da votação. Ilde conseguiu formar um grupo suficientemente forte para consolidar sua candidatura, enquanto projetos alternativos foram perdendo espaço. Quando ficou evidente que o vereador do Podemos reunia os votos necessários para vencer, uma composição foi construída e a eleição terminou sem confronto no plenário. O resultado permitiu a Ilde sair da disputa com algo politicamente importante: não apenas a presidência, mas o voto de todos os vereadores da Capital.
Isso, contudo, não significa que os 27 parlamentares tenham se transformado em integrantes de um mesmo bloco. A unanimidade serviu para definir o comando administrativo e político da Câmara. A partir de agora, cada votação poderá apresentar uma correlação de forças diferente, especialmente quando estiverem em discussão projetos considerados estratégicos pelo Palácio Alencastro.
É justamente nesse ponto que a declaração de Abilio de que não será “refém” ganha importância. O prefeito procura separar duas situações completamente diferentes: não controlar politicamente a presidência da Câmara e não possuir governabilidade. Uma coisa não significa necessariamente a outra. O presidente do Legislativo tem influência sobre a condução dos trabalhos da Casa, mas não determina sozinho os votos dos vereadores. Para aprovar suas propostas, Abilio continuará precisando construir maioria entre os 27 parlamentares, independentemente de quem esteja sentado na cadeira de presidente.
A diferença é que o cenário político mudou. Com Ilde no comando, o Executivo não terá na presidência alguém pertencente ao núcleo político do prefeito. Isso tende a aumentar a importância da negociação direta entre o Palácio Alencastro e os vereadores. Projetos relevantes, alterações administrativas, matérias tributárias, orçamento e outras propostas de interesse da Prefeitura poderão exigir uma articulação permanente dentro da Câmara.
A composição da própria Mesa Diretora demonstra, porém, que a eleição não pode ser interpretada simplesmente como uma divisão entre governo e oposição. Eduardo Magalhães (Republicanos), considerado próximo de Abilio, foi escolhido 1º vice-presidente. Maria Avallone (PSDB) ocupará a 2ª vice-presidência, Adevair Cabral (Solidariedade) será o 1º secretário e Michelly Alencar (União Brasil) ficará com a 2ª Secretaria. A chapa reúne vereadores de diferentes partidos e grupos políticos.
Ilde também procura afastar a ideia de que sua vitória transformará a Câmara numa trincheira contra a Prefeitura. O presidente eleito tem defendido independência entre os Poderes, mas sinalizado que não pretende estabelecer uma oposição sistemática ao Executivo. Essa posição será fundamental para determinar como funcionará a relação institucional a partir de janeiro de 2027.
Abilio, por sua vez, já deixou claro que espera uma convivência baseada em negociação. Depois da eleição, chegou a provocar Ilde ao afirmar que existem “dois Ildes”, um “do microfone” e outro “dos bastidores”, ao mesmo tempo em que reconheceu sua capacidade de articulação e disse não acreditar que o futuro presidente adotará uma estratégia de confronto permanente com a Prefeitura.
As declarações dos dois lados indicam que nenhum deles demonstra interesse, pelo menos neste momento, em iniciar 2027 com uma guerra declarada. Ilde precisa administrar uma Câmara formada por 27 vereadores com interesses e posições diferentes. Abilio precisa desses mesmos vereadores para transformar projetos do Executivo em leis. A relação, portanto, será de dependência institucional mútua.
Mas existe uma mudança política impossível de ignorar. A eleição mostrou que os vereadores conseguiram construir uma maioria em torno de um nome que não era o projeto original do grupo do prefeito. Isso significa que a Câmara demonstrou capacidade de organização independente do Executivo. Para Abilio, o desafio será provar que essa autonomia não impedirá a Prefeitura de formar maioria quando precisar aprovar suas propostas.
O prefeito pode não ser “refém” da Câmara, como sustenta, mas também não terá necessariamente um caminho automático para aprovar tudo o que enviar ao Legislativo. A segunda metade de seu mandato poderá exigir mais conversa, mais articulação e mais negociação política.
É aí que estará o verdadeiro teste.
O resultado desta terça-feira definiu quem comandará a Câmara, mas não definiu quem comandará os votos dentro dela. Ilde conquistou a presidência e demonstrou capacidade para formar uma ampla composição. Abilio continua com o poder político e institucional do Executivo e mantém vereadores próximos dentro da própria Mesa Diretora. Entre os dois estarão os demais parlamentares, que poderão assumir papel decisivo nas principais votações de 2027 e 2028.
Por isso, o verdadeiro termômetro da relação entre Prefeitura e Câmara não será o 27 a 0 que elegeu Ilde Taques. Ele aparecerá quando chegar ao plenário um projeto em que os interesses do Executivo e de parte dos vereadores estejam em lados diferentes.
Abilio diz que não será refém. Ilde afirma que comandará uma Câmara independente, mas sem transformar divergências em perseguição política. Os dois discursos poderão coexistir enquanto houver consenso. Quando surgir a primeira grande queda de braço, Cuiabá descobrirá quem consegue construir maioria dentro da nova Câmara.