Vison, alvo da indústria de peles, é o novo possível vetor de coronavírus para humanos


Estudo aponta semelhança genética do vírus achado no animal e em homem infectado numa fazenda nos Países Baixos. Cientistas dizem que conclusão é prematura e não eleva preocupação sobre transmissão da covid-19 por bichos


PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PAÍS

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Foto: ANIMAL RIGHTS

Um funcionário de uma fazenda de visons dos Países Baixos pode ter sido infectado pela covid-19 ao estar em contato com esses animais, criados para a indústria de peles. A conclusão é de cientistas que hoje analisam o surto no interior de quatro fazendas, na província de Brabante. Eles acham que o mais plausível é a transmissão do animal ao humano, porque a sequência do genoma do vírus de ambos é muito semelhante. É a primeira vez no mundo que se reporta uma possível transmissão de um animal ao ser humano, mas o Ministério da Agricultura afirmou ao Congresso que o perigo de contágio generalizado entre a população é mínimo, porque o vírus não aparece no ar analisado fora das instalações.

 

O surto de coronavírus detectado nas fazendas de visons também é o primeiro do mundo de sua classe, e o funcionário em questão entrou saudável para trabalhar quando a infecção já havia sido constatada nas fazendas. Ficou doente depois, com sintomas leves, e agora já está curado. “Provavelmente, nesse caso concreto, se trata do contágio do animal à pessoa, porque as sequências do genoma do vírus de ambos são quase idênticas”, diz Wim van der Poel, pesquisador chefe da área de Vírus Emergentes e Zoonoses do Centro de Pesquisa Bioveterinária da Universidade de Wageningen (WBVR, na sigla em inglês). “Para estar completamente seguros, teríamos que fazer o mesmo, sequenciar o código genético do vírus, com amostras extraídas de todas as pessoas que trabalham e têm relação com a fazenda e tiveram a doença. Mas acho que há poucas possibilidades de encontrar outro parecido com esse. Em outros casos, o contágio mais provável foi da pessoa, já com sintomas, ao vison”, diz Van der Poel. Ele efetuou as análises com sua equipe, que continua estudando a prevalência do vírus nas fazendas.

 

“Foram observadas mutações em visons que parecem indicar a adaptação do vírus a esse novo hóspede”, acrescenta Van der Poel em conversa com o EL PAÍS. Por enquanto, Carola Schouten, ministra da Agricultura, afirmou que os funcionários das fazendas de visons “utilizam equipamento de proteção e as visitas foram proibidas”. A equipe científica de Wageningen também constatou a presença do coronavírus nos gatos das fazendas, de modo que o ministério ampliou as análises a outros locais, em particular as de criação de porcos. “Não há porcos infectados, mas queremos averiguar as maneiras de contágio entre animais e humanos”, frisou Schouten.

 

Com 140 fazendas de visons nos Países Baixos, que têm aproximadamente 800.000 fêmeas férteis, de acordo com a Federação de Criadores de Animais à Peleteria, a ministra prefere “explorar por enquanto outras opções que não sejam o sacrifício” dos mustelídeos. A Federação, por sua vez, afirma que está “duplamente alerta” e estão coletando amostras em todas as fazendas do país. A indústria deve desaparecer até 2024, pelo repúdio ético e social que produz, de acordo com uma sentença de 2016 do Supremo Tribunal.

 

Dos animais selvagens às fazendas

 

Alguns especialistas, como o zoólogo norte-americano Peter Daszak, colocaram desde o começo a hipótese de que o novo coronavírus saltasse dos morcegos a uma fazenda de animais e de lá ao mercado de Wuhan. A organização presidida por Daszak, a EcoHealth Alliance, que pesquisa as doenças emergentes que brotam da fauna selvagem, já descobriu em 2018 um coronavírus que saltou dos morcegos aos porcos, provocando um surto de diarreia que matou quase 25.000 leitões em quatro fazendas da província chinesa de Guangdong. O vírus, batizado de SADS-CoV, não passou dos porcos aos humanos.

 

“As pessoas da Europa e dos EUA que compram preciosos casacos de inverno com costuras de peles podem estar contribuindo para isso. Grande parte das peles baratas utilizadas no mercado da moda vêm de fazendas de cães-mapache e animais semelhantes no sudeste asiático. É preciso verificar as etiquetas e evitar as peles autênticas para reduzir o risco de pandemias”, declarou Daszak em 26 de abril, após se conhecer os primeiros casos de visons infectados com o novo coronavírus nos Países Baixos.

 

A descoberta de um vírus semelhante em 91% ao SARS-CoV-2 nos pangolins alimentou a hipótese de que o novo coronavírus saltou dos morcegos aos humanos através dessa espécie usada na medicina tradicional chinesa, mas muitos especialistas preferem outra teoria. Os cães-mapache são carnívoros noturnos, do tamanho de uma raposa, criados aos milhões nas fazendas de pele da China. O vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) —outro coronavírus que apareceu na China em 2002 e matou quase 800 pessoas— foi detectado em um mercado de animais de Guangdong na civeta-das-palmeiras, um pequeno carnívoro do sul da Ásia, mas também em cães-mapache.

 

“Parece uma hipótese digna de ser explorada, mas acho que é extremamente prematuro afirmar que a origem da pandemia está nas fazendas de pele da China”, diz Julio Álvarez, pesquisador do Centro de Vigilância Sanitária (Visavet) da Universidade Complutense de Madri. Ele acredita que encontrar o vírus no hospedeiro intermediário entre os morcegos e o os humanos será “como encontrar uma agulha no palheiro”.

 

O diretor do Instituto de Virologia do Hospital Charité de Berlim, Christian Drosten, apontou diretamente aos criadouros chineses. “Os cães-mapache são uma enorme indústria na China, onde são criados em fazendas e capturados na natureza por suas peles. Se alguém me desse algumas centenas de milhares de dólares e liberdade de movimentos na China para encontrar a fonte do vírus, procuraria nos locais em que os cães-mapache são criados”, afirmou há quase um mês em uma entrevista ao jornal britânico The Guardian.

 

A veterinária Elisa Pérez Ramírez, especialista em vírus emergentes, é cautelosa pela falta de confirmação definitiva de que o funcionário da fazenda tenha se infectado por um vison e não por outra pessoa. “Fico surpresa de que estejam tão convencidos de que a infecção tenha sido do animal ao humano”, diz a cientista do Centro de Pesquisa em Saúde Animal, no município madrilenho de Valdeolmos. A veterinária também acha que é “um pouco prematuro” dar como certo de que a pandemia tenha se originado em uma fazenda de peles chinesa.

 

O centro de Pérez já realizou 10.000 testes PCR em funcionários dos serviços essenciais da Prefeitura de Madri, como policiais, bombeiros e trabalhadores do sistema de saúde. A pesquisadora pede calma sobre os possíveis saltos de animais a humanos. “São casos totalmente irrelevantes. Há milhões de pessoas infectadas no mundo e somente se conhecem oito casos de transmissão do vírus de humanos a seus gatos e outros três casos de humanos a cachorros”, tranquiliza. “A transmissão de humano a animal pode acontecer, mas são casos muito excepcionais. E em relação à infecção no sentido contrário, de animais domésticos a humanos, não acho que devemos nos preocupar. Outra questão são esses visons que estão em densidades altíssimas nas fazendas”, alerta Pérez.

 

O veterinário Julio Álvarez tem a mesma opinião de sua colega: “Não é impossível que os gatos sejam uma fonte de infecção às pessoas. Não podemos descartar, mas hoje não há evidências que sugiram que os gatos têm um papel importante. Epidemiologicamente, sua contribuição, no momento, parece insignificante”, afirma.

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