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Super El Niño: os gráficos que mostram por que ele pode ser o fenômeno mais extremo em décadas (e quais seriam seus efeitos)

Em abril, o El Niño estava claramente no horizonte. As temperaturas na região principal de monitoramento estavam subindo e aquelas águas continuaram se aquecendo desde então

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 06/06/2026
Super El Niño: os gráficos que mostram por que ele pode ser o fenômeno mais extremo em décadas (e quais seriam seus efeitos)
O El Niño se forma quando uma mudança dos padrões do vento permite que águas mais quentes se espalhem pela região tropical do oceano Pacífico | BBC

Em dezembro, estas águas (exibidas aqui em azul) estavam mais frias que a média, sem a presença do El Niño

Mas, três meses depois, o panorama mudou.

A temperatura da região central do Pacífico (exibida aqui em laranja) ficou mais alta, com águas muito quentes atingindo a superfície no litoral da América do Sul.

Em abril, o El Niño estava claramente no horizonte. As temperaturas na região principal de monitoramento estavam subindo e aquelas águas continuaram se aquecendo desde então.

O El Niño se forma quando uma mudança dos padrões do vento permite que águas mais quentes se espalhem pela região tropical do oceano Pacífico.

O evento El Niño já estava previsto, mas muitos cientistas acreditam que este poderá ser mais forte que o normal.

"Temos bastante certeza de que um grande evento está por vir", segundo o professor Adam Scaife, chefe de previsões de médio e longo prazo do Serviço Nacional de Meteorologia do Reino Unido. "Pode até ser um evento recorde."

Gráfico de barras com barras cinza que se estendem acima e abaixo de uma linha intermediária marcada com zero grau. O eixo y mostra as mudanças em relação àquela média, com menos dois na extremidade inferior e acima de mais dois na extremidade superior. O eixo x mostra todos os meses entre janeiro de 1950 e março de 2026.

As temperaturas da superfície do mar na região de monitoramento no oceano Pacífico flutuam naturalmente acima e abaixo da média.

O gráfico de barras mostra agora certos segmentos de barras em cores. Acima de mais 0,5, as barras são vermelhas e assinaladas como El Niño. Abaixo de menos 0,5, as barras são azuis e assinaladas como La Niña. As barras mais altas acima de mais dois são destacadas como eventos "El Niño muito forte", que ocorreram apenas seis vezes desde 1950. O mais forte aconteceu em 1982 e o mais recente, em 2015.

Quando elas se aquecem ou resfriam mais de meio grau em relação à média por um período mais extenso, surgem as condições para o El Niño ou sua irmã mais fria, La Niña.

Já o aquecimento acima de dois graus indica um fenômeno "muito forte", o chamado "super" El Niño.

Poucos casos como estes ocorreram desde 1950. As previsões indicam que este novo El Niño pode igualar os picos do passado ou até ultrapassá-los.

Parte dos motivos que levam os cientistas a esperar um forte El Niño ficam muito abaixo da superfície do oceano.

Dados de satélites, boias e flutuadores oceânicos indicam uma onda enorme e incomum de água quente, mais de 6 ºC acima da média em alguns lugares. Ela vem atravessando o Pacífico para o leste, a centenas de metros de profundidade.

O calor dessas águas "se compara com alguns dos eventos El Niño mais fortes já observados", afirma a cientista Michelle L’Heureux, do Centro de Previsões Climáticas da Agência Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA).

O aquecimento em águas profundas, muitas vezes, é um precursor de águas mais quentes na superfície, que aquecem o ar acima dela, prejudicando os padrões climáticos em todo o mundo.

“As condições causadas pelo El Niño colocarão lenha na fogueira de um mundo em aquecimento", declarou o secretário-geral da ONU, António Guterres. "Os impactos serão sentidos com mais força, a distâncias ainda maiores, e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora.”

Não há dois eventos El Niño iguais e lugares diferentes podem ser atingidos em diferentes épocas do ano.

Mas um El Niño forte tipicamente causa clima quente e seco em partes da América do Sul, sudeste asiático e Austrália, aumentando a possibilidade de secas e incêndios florestais.

O evento pode também enfraquecer as monções na Índia e trazer condições mais secas para a região norte do chifre da África. E a maior quantidade de chuvas pode aumentar o risco de enchentes no sul dos Estados Unidos.

O El Niño pode até aumentar a possibilidade de que o inverno britânico comece de forma moderada e termine com frio, mas sua relação com o clima do noroeste da Europa não é tão forte.

Mapa-múndi com trechos coloridos para indicar os possíveis impactos sobre os padrões de precipitação em todo o mundo. As áreas pontilhadas em verde, como o sul dos Estados Unidos, o chifre da África e o leste asiático, provavelmente serão mais úmidas que o normal. Já as áreas pontilhadas em marrom, como a Austrália, a Índia e a Amazônia, provavelmente serão mais secas que o normal.

Os eventos passados foram relacionados a altas dos preços dos alimentos e prejuízos de centenas de bilhões ou até trilhões de dólares em todo o mundo, com quedas da produção agrícola e interrupções do comércio atingindo a economia de diversos países e suas cadeias de abastecimento.

Como o pico do El Niño normalmente ocorre perto do Natal, é impossível saber ao certo, com tantos meses de antecedência, se ele irá estabelecer novos recordes.

O El Niño é muito sensível, por exemplo, aos padrões dos ventos, que são "o maior cartão de visita" do El Niño, segundo L'Heureux. E é muito difícil prevê-los com tanta antecipação.

Mas, mesmo que não se trate de um "super" El Niño, ainda poderá haver consequências extremas.

Isso ocorre porque nunca vivenciamos o El Niño em um planeta já tão aquecido pelas mudanças climáticas, causadas pela atividade humana.

Estas são as temperaturas globais mensais da atmosfera, em comparação com o final do século 19.

As temperaturas normalmente disparam durante os anos de El Niño, talvez em até 0,2 ºC, no caso

E as temperaturas normalmente caem durante La Niña.

Acrescenta-se uma linha de tendência ao gráfico de linhas totalmente colorido para enfatizar o aumento das temperaturas.

Mas estes altos e baixos são apenas temporários. A tendência de aquecimento a longo prazo é a mudança climática.

O ano de "2027, muito provavelmente neste momento, será o ano mais quente já registrado", afirma o climatologista Zeke Hausfather, do grupo americano Berkeley Earth.

Em 1998, o mundo teve um "evento El Niño incrivelmente forte e um ano incrivelmente quente na época", destaca ele. "Se isso acontecesse hoje, seria um ano incrivelmente frio, em comparação com as duas últimas décadas."

"Isso serve para mostrar o tamanho do impacto causado pelos seres humanos ao clima" do planeta.

Mapas da temperatura do mar

Fonte dos dados: ERA5 C3S/ECMWF. As temperaturas da superfície do mar são comparadas com a média de 1991-2020.

Gráfico de temperaturas do El Niño

Fonte dos dados: dados históricos do Índice Niño Oceânico Relativo da NOAA até março de 2026. O Índice Niño Oceânico Relativo tenta retirar a influência do aquecimento global, para exibir apenas as variações da potência do El Niño e La Niña. Fonte do intervalo projetado futuro para novembro de 2026: Zeke Hausfather. A previsão mostra a potência estimada do El Niño, com base em seis modelos climáticos da CanSIPS, Nasa, NCAR e CFS. O intervalo representa os 50% intermediários das previsões dos modelos.

Mapa de impacto sobre a precipitação

Fonte dos dados: Lenssen, Goddard e Mason, 2020.

Gráfico de temperaturas globais

Fonte dos dados: ERA5 C3S/ECMWF, Índice Niño Oceânico Relativo da NOAA, dados até março de 2026. A média pré-industrial refere-se ao período 1850-1900. A linha da tendência regressiva é apenas indicativa.