Brasil

Cana, maquininha, fintech: veja caminho usado pelo PCC para lavar dinheiro no esquema bilionário, segundo investigação

Facção criminosa usou usinas de álcool, rede de postos de combustível, maquininhas de cartão, fintechs e fundos de investimento para lavar bilhões de reais. Receita aponta patrimônio de R$ 30 bilhões em fundos controlados pelo PCC

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 29/08/2025
Cana, maquininha, fintech: veja caminho usado pelo PCC para lavar dinheiro no esquema bilionário, segundo investigação
Os investigadores apontam que a facção chegou a controlar 40 fundos de investimento, com patrimônio superior a R$ 30 bilhões, | G1

O caminho do dinheiro do esquema bilionário comandado pelo grupo criminoso Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis passava por toda a cadeia produtiva, começando no campo e indo até o coração do mercado financeiro em São Paulo. As informações foram reveladas durante a maior operação contra o crime organizado do Brasil, que ocorreu na quinta-feira (28).

Os investigadores apontam que a facção chegou a controlar 40 fundos de investimento, com patrimônio superior a R$ 30 bilhões, usados para lavar dinheiro, blindar patrimônio e financiar a compra de ativos estratégicos, como quatro usinas de álcool, 1.600 caminhões de transporte e mais de cem imóveis de alto valor.

As investigações foram conduzidas por uma força-tarefa nacional envolvendo diversos órgãos, com destaque para a atuação conjunta do Ministério Público (MP), da Polícia Federal (PF) e da Receita Federal. A força-tarefa nacional contou com cerca de 1.400 agentes e mirou 350 alvos.

Os estados envolvidos são: São Paulo, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins.

Infográfico - Caminho do dinheiro no esquema do PCC — Foto: Arte/g1

Infográfico - Caminho do dinheiro no esquema do PCC — Foto: Arte/g1

Produção de cana

  • Usinas sucroalcooleiras: fazendeiros e donos de usinas foram coagidos a vender suas propriedades para o PCC, com suspeita de incêndios criminosos como tática de intimidação. Sobrepreço na aquisição de cana.
  • Distribuidoras de combustíveis: fundamentais para o desvio e transporte clandestino de metanol. Utilizadas na prática de fraudes fiscais e lavagem de capital. Faziam pedidos de ressarcimento indevido de PIS/Confins, enquanto pagavam percentual ínfimo de tributo em relação ao faturamento. Simulavam aquisição de combustíveis para emitir notas fiscais e ocultar a movimentação dos valores ilícitos. Alto fluxo de depósitos em espécie.
  • Transportadoras: desviavam clandestinamente o metanol que devia ser entregue a empresas químicas legítimas para adulteração de combustível. Usavam notas fiscais quentes, que simulavam álcool ou gasolina, para esconder o transporte do metanol.
  • Fabricação e refino: Copape (formuladora) e Aster (distribuidora) atuavam em conjunto na fraude fiscal, fraude contábil e lavagem de capital. PCC inflava os preços dos insumos nas transições entre as empresas para sonegar impostos e obter créditos tributários indevidos.
  • Armazenagem: os terminais de armazenamento são usados para ocultar origem e destino dos recursos ilícitos.

Totalmente atípico, diz delegado da PF sobre maioria dos alvos de operação contra PCC não ter sido

Totalmente atípico, diz delegado da PF sobre maioria dos alvos de operação contra PCC não ter sido

Postos e maquininhas de cartão

  • Redes de postos de combustíveis: muitos postos tinham o papel de receber dinheiro em espécie ou via maquininhas de cartão e transitar recursos do crime para a organização criminosa por meio de suas contas bancárias, como parte do esquema de lavagem de dinheiro.
  • Combustível adulterado: nos últimos 4 anos, esses postos movimentaram R$ 52 bilhões. Vendiam combustíveis adulterados e colocavam menos combustível do que o volume indicado no painel. Também recebiam dinheiro em espécie ou maquininha para mandar para o PCC por meio de suas contas bancárias.
  • Compras simuladas: cerca de 140 postos, sem qualquer movimentação no período, foram destinatários de mais de R$ 2 bilhões em notas fiscais de combustíveis. A suspeita é que essas compras simuladas serviram para ocultar o trânsito de valores ilícitos depositados nas distribuidoras vinculadas à organização criminosa.
  • Sonegação de tributos: impostos recolhidos eram muito menores do que o volume real, não correspondiam à escala das atividades econômicas declaradas pela organização criminosa. As autoridades calculam que o esquema sonegou pelo menos R$ 7,6 bilhões em impostos federais, estaduais e municipais. Só na esfera federal, a perda foi estimada em R$ 4 bilhões, dos quais cerca de R$ 1 bilhão já está inscrito em dívida ativa.
  • Conveniências e padarias: usadas na lavagem de dinheiro, muitas em nome de laranjas. Empresas duram apenas alguns meses e logo são substituídas por outras de nome similar, para camuflar a sucessão e dificultar a detecção das fraudes.
  • Setor portuário: importação e desvio de metanol ilícito, além da lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. O metanol chegava pelo Porto de Paranaguá (PR) e era desviado do destino legítimo

Sistema financeiro

🔍 Fintech é a abreviação de “financial technology” (tecnologia financeira, em inglês). São empresas que oferecem serviços bancários e financeiros digitais, como transferências, emissão de boletos, cartões, pagamentos por maquininha e até empréstimos. Diferentemente dos bancos tradicionais, costumam ter menos agências físicas e operar de forma mais ágil por aplicativos e plataformas online.

  • Recursos ocultos: no sistema financeiro, fintechs como o BK Bank funcionavam como um núcleo financeiro invisível da facção. Foram usadas para ocultar recursos em “contas-bolsão”, que são abertas pela própria fintech em um banco comercial, onde os recursos de todos os clientes ficam misturados, sem separação individual. Uma única fintech movimentou R$ 46 bilhões em recursos não rastreáveis.
  • Bancos paralelos: os mesmos operadores controlavam fintechs menores, criando uma segunda camada de ocultação. Segundo a Receita, todas essas empresas funcionavam como “bancos paralelos” da facção criminosa, permitindo a integração dos lucros ilegais ao mercado de capitais.
  • Sem fiscalização: fintechs ficam fora do sistema de gerenciamento de risco do governo. Após a revelação do esquema bilionário, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou que a Receita Federal vai passar a monitorar mais de perto as fintechs.
  • Blindagem de patrimônio: parte significativa dos recursos foi aplicada em fundos de investimento, com várias camadas de ocultação para esconder os verdadeiros beneficiários. A Receita identificou ao menos 40 fundos, com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pelo grupo criminoso. Muitos têm um único cotista. Entre os bens estão: um terminal portuário; quatro usinas de álcool (mais duas em parceria ou aquisição); 1.600 caminhões para transporte de combustíveis; mais de cem imóveis, incluindo seis fazendas no interior de SP (R$ 31 milhões) e uma casa em Trancoso (BA) no valor de R$ 13 milhões.

Viaturas da PF e da Receita em frente a prédio na Faria Lima durante megaoperação que investiga fraude do PCC em postos de combustíveis — Foto: Amanda Perobelli/Reuters

Operação do MP-SP com Receita e Polícia Federal — Foto: TV Globo

Operação do MP-SP com Receita e Polícia Federal — Foto: TV Globo