Cultura
A Lua era do povo: documentos e artistas questionam registro de canção histórica do folclore cuiabano
Música cantada há décadas em rodas de Siriri, Cururu e rasqueado aparece em documentos antigos como domínio popular. Registros posteriores em nome de Pescuma e Henrique, porém, provocaram questionamentos de músicos
Uma investigação de quatro meses do Página 12 reuniu documentos históricos, registros fonográficos, depoimentos de artistas e manifestações dos próprios envolvidos para reconstruir a trajetória de uma das canções mais conhecidas da cultura popular mato-grossense.
Durante décadas, ninguém perguntava quem era o autor de "A Lua".
A música era cantada em rodas de Siriri, festas religiosas, encontros familiares, apresentações folclóricas e festivais culturais espalhados por Mato Grosso.
Seus versos atravessaram gerações.
Pais ensinaram aos filhos.
Avós ensinaram aos netos.
Cururueiros, violeiros, rasqueadores e grupos tradicionais incorporaram a canção ao repertório popular.
Para muitos, ela simplesmente pertencia ao povo.
Mas uma descoberta feita por músicos mato-grossenses reacendeu uma discussão que parecia improvável.
Como uma música tratada durante décadas como domínio popular passou a aparecer vinculada a autores específicos?
Essa pergunta levou o Página 12 a uma investigação que durou quatro meses e reuniu documentos históricos, LPs antigos, registros autorais, publicações musicais, materiais pedagógicos e depoimentos de artistas que ajudaram a construir a identidade cultural de Mato Grosso.
No centro da controvérsia está "A Lua", uma das canções mais conhecidas do repertório popular mato-grossense.
Uma música que, segundo os entrevistados, já era cantada muito antes dos registros atualmente existentes.
Uma canção mais antiga que os registros
Nenhum dos artistas ouvidos pelo Página 12 soube apontar quem compôs originalmente a música.
Mas praticamente todos afirmam que ela já fazia parte da cultura popular quando ainda eram crianças.
O cantor Daniel de Paula resume essa percepção.
"Há muito tempo, inclusive no Pantanal, o avô, o pai do avô, já cantavam essa música. E nem se sabe de onde surgiu essa música. Por isso que a gente fala que é domínio popular."
Daniel afirma que sempre conheceu a obra como pertencente ao folclore popular.
"Desde criança eu ouço essa música e eu tenho ela como domínio popular."
Foi justamente ele quem voltou a levantar a discussão após enfrentar dificuldades para gravar a canção em um projeto cultural.
"A única que deu problema foi exatamente A Lua."
Segundo o artista, a música aparecia vinculada a autores específicos.
"Ela apareceu no Ecad como tendo autoria."
O episódio despertou uma inquietação que acabaria alcançando outros músicos e pesquisadores da cultura regional.
A memória dos bairros antigos de Cuiabá
Entre os depoimentos colhidos pela reportagem, um dos mais emblemáticos é o do cantor e compositor Dilson Oliveira.
Nascido e criado em Cuiabá, Dilson afirma que a música fazia parte da rotina das famílias cuiabanas muito antes da popularização do rasqueado nos palcos.
"Meu pai sempre tocou rasqueado. Quando tocava rasqueado lá em casa, tocava essa música A Lua sempre."
Ele conta que aprendeu a música ouvindo os mais velhos.
"Eu aprendi ouvindo as pessoas cantarem essa música."
Ao recordar a infância no tradicional bairro Lixeira, relembra:
"Meu pai sempre cantava rasqueado e cantava essa música."
Segundo Dilson, jamais ouviu falar em autoria definida.
"Nunca tive conhecimento que tinha autoria essa música e sempre aprendi que era domínio popular."
Para ele, a música foi transmitida oralmente de geração em geração.
"É uma música que foi passada de geração por geração."
E complementa:
"Os amigos, os cururueiros, todos cantavam essa música."
Dilson afirma ter incluído essa informação em suas próprias publicações sobre música regional.
"Eu fiz três livros chamados Limpa Banco e nos meus livros está colocado lá que é domínio popular."
Ao comentar o registro posterior da obra, demonstra inconformismo.
"Muitas pessoas já gravaram essa música, inclusive Henrique e Claudinho, e nunca teve autores."
Para ele, a discussão possui uma dimensão cultural muito maior.
"É um retrocesso."
E conclui com uma frase que ajuda a dimensionar a antiguidade da canção.
"Comecei em 79 e quando iniciei já existia a música A Lua. Não existia energia elétrica e chão batido. Já era cantada a música A Lua."
A guardiã do Siriri
Poucas pessoas possuem autoridade para falar sobre cultura popular mato-grossense como Domingas Leonor da Silva.
Conhecida como Dona Domingas, ela é fundadora do Grupo Flor Ribeirinha, referência nacional na preservação do Siriri e das tradições culturais de São Gonçalo Beira Rio.
Ao Página 12, ela afirmou conhecer a música desde criança.
"Eu ouço essa música há mais de 60 anos. Desde criança eu já ouvia essa música nas festas e nas apresentações culturais aqui em São Gonçalo."

Segundo Dona Domingas, a canção sempre esteve ligada às manifestações culturais da comunidade.
"Essa música fazia parte das cantorias do nosso povo. Sempre esteve presente."
Questionada sobre autoria, foi direta.
"Para nós sempre foi domínio popular."
E acrescenta:
"Os mais velhos cantavam, depois nós aprendemos e continuamos cantando. É uma música antiga do nosso povo."
Seu depoimento possui peso histórico especial.
São Gonçalo Beira Rio é considerado um dos principais berços do Siriri e do Cururu em Mato Grosso.
Ali, durante décadas, canções foram transmitidas oralmente muito antes da existência de registros fonográficos.
O neto do maestro
Outro depoimento relevante veio do cantor Gilmar Fonseca.
Neto do maestro João Marinho da Fonseca — autor do tradicional Hino de São Benedito e um dos maiores nomes da música mato-grossense — Gilmar afirma que a música sempre esteve presente em sua família.
"Meu avô sempre cantava essa música."

Segundo ele, jamais ouviu falar em autoria individual.
"A Lua sempre foi de domínio popular."
A lembrança ganha relevância justamente por partir de uma família ligada diretamente à história musical do Estado.
Ao mencionar que o próprio João Marinho da Fonseca já cantava a música, Gilmar acrescenta mais uma peça ao mosaico histórico reconstruído pela reportagem.
O homem que produziu o disco histórico
Se Dona Domingas representa a memória oral da cultura popular, Roberto Lucialdo representa a memória documental.
Cantor, compositor e produtor musical, ele foi responsável pela produção do LP "Cuiabá, Cuiabá", lançado por Henrique e Claudinho em 1989.
Seu depoimento é um dos mais importantes da investigação.
"Quando gravei Henrique e Claudinho em 1989, eles gravaram a música A Lua e colocaram como domínio popular."
Segundo Lucialdo, a canção já fazia parte do repertório tradicional cuiabano muito antes da gravação.
"Quando eles chegaram em Cuiabá, a música A Lua já existia."
Ele afirma ter aprendido a música ainda na infância.
"Eu aprendi com papai, no Distrito do Coxipó do Ouro."
E complementa:
"Meu avô já cantava junto com a Banda de Inácio. Essa música é muito antiga."
Ao comentar o registro posterior da obra, faz uma observação que sintetiza o sentimento de muitos artistas entrevistados.
"Eu não sei por que A Lua passa a ser composição deles."
Para Lucialdo, a discussão extrapola o universo artístico.
"O descontentamento não é só dos artistas. É do povo cuiabano. Faz parte da história e da cultura cuiabana."
E conclui:
"Essa música continua do povo cuiabano e ninguém tira."
O LP DE 1989 CLASSIFICA A MÚSICA COMO DOMÍNIO POPULAR. DÉCADAS DEPOIS, A OBRA APARECE VINCULADA A REGISTROS AUTORAIS. É NESSA CONTRADIÇÃO QUE NASCE A CONTROVÉRSIA.
O compositor que ajudou a construir o rasqueado
Autor de clássicos como Pixé e Furrundu, Moisés Martins também foi ouvido pela reportagem.
Para ele, a origem da música nunca esteve em discussão.
"A Lua é domínio público. É cultura popular."
Questionado sobre o registro posterior da obra, respondeu:
"Até onde sei, sempre foi de domínio público."
E acrescentou:
"Eu nunca registrei e não vou registrar uma coisa que não seja minha."
O homem que comprou o LP
O cantor e compositor Juscelino Diniz afirma que adquiriu o LP "Cuiabá, Cuiabá" quando foi lançado.
E lembra de um detalhe que nunca esqueceu.
"Eu gostava de ver a ficha técnica. E vi, na época, que estava escrito domínio popular."
Segundo ele, a música já fazia parte da cultura regional.
"Conheci a música A Lua na boca do povo."
O documento que levantou questionamentos
Ao longo da investigação, o Página 12 encontrou documentos históricos, depoimentos de artistas e registros que ajudam a reconstruir a trajetória da música "A Lua".
Entre todos os elementos analisados, um deles chama atenção de forma especial.
O LP "Cuiabá, Cuiabá", lançado por Henrique e Claudinho em 1989, identifica a canção como "Domínio Popular".
A classificação é relevante porque não se trata de um documento produzido por terceiros.
Trata-se de um registro fonográfico da própria dupla.
Décadas depois, porém, a obra passou a aparecer vinculada a registro autoral.
Foi justamente essa mudança que despertou os questionamentos de músicos, compositores e representantes da cultura popular ouvidos pela reportagem.
Se a música era domínio popular em 1989, conforme registro da própria dupla, e se hoje os próprios artistas afirmam que a canção não possui autor conhecido e integra o folclore cuiabano, a pergunta levantada pelos músicos entrevistados pelo Página 12 permanece sem resposta definitiva: O que justificou o registro posterior da obra?

Foi diante desses questionamentos que o Página 12 procurou os músicos Benedito Donizete de Morais, o Pescuma, e Henrique Martins de Oliveira Neto.
Ambos foram procurados pela reportagem, tiveram acesso aos questionamentos apresentados pelos artistas entrevistados e encaminharam manifestação formal expondo sua versão dos fatos.
A explicação de Pescuma e Henrique
Procurados pelo Página 12, Benedito Donizete de Morais, o Pescuma, e Henrique Martins de Oliveira Neto encaminharam resposta formal à reportagem.
No documento, os músicos afirmam que “A Lua” não tem autor conhecido e pertence ao domínio público do folclore cuiabano. Também sustentam que os registros realizados estariam ligados a adaptações da obra, e não à criação original da canção.
A explicação, no entanto, não encerra a controvérsia.
Pelo contrário.
Ela reforça uma pergunta central levantada por artistas e documentos analisados pelo Página 12: se a própria dupla reconhece que a música é de domínio público e do folclore cuiabano, por qual razão a obra passou a aparecer em registros autorais vinculada aos seus nomes?
A dúvida ganha peso porque Henrique já havia gravado “A Lua” em 1989, ao lado de Claudinho, no LP “Cuiabá, Cuiabá”, com a identificação de “Domínio Popular”. Ou seja, o próprio registro histórico da dupla apontava a canção como obra pertencente ao repertório popular, e não como composição autoral.
Outro ponto questionado pelos músicos entrevistados é o efeito prático desse registro. Daniel de Paula afirmou ao Página 12 que enfrentou dificuldade para gravar a música como domínio popular porque a obra aparecia vinculada a autores específicos.
Para artistas ouvidos pela reportagem, esse tipo de obstáculo contraria a própria natureza de uma canção tradicional, transmitida oralmente em comunidades cuiabanas há várias gerações.

A resposta de Pescuma e Henrique reconhece a origem folclórica da música. Mas os documentos históricos e os relatos colhidos pela reportagem mantêm aberta a questão mais incômoda: o que justificou transformar em registro autoral uma canção que os próprios envolvidos admitem pertencer ao domínio público do folclore cuiabano?
Uma canção maior que a controvérsia
Ao final de quatro meses de investigação, uma constatação parece unir todos os personagens desta história.
Nem Daniel de Paula.
Nem Dilson Oliveira.
Nem Dona Domingas.
Nem Gilmar Fonseca.
Nem Roberto Lucialdo.
Nem Moisés Martins.
Nem Juscelino Diniz.
Nem mesmo Pescuma e Henrique.
Ninguém questiona que "A Lua" faz parte do patrimônio cultural mato-grossense.
O debate gira em torno dos registros, das adaptações e dos caminhos percorridos pela obra ao longo do tempo.
Quase quatro décadas depois do lançamento do LP "Cuiabá, Cuiabá", os documentos reunidos pelo Página 12 mostram que a discussão sobre "A Lua" está longe de terminar.
Os artistas entrevistados sustentam que a canção já fazia parte do patrimônio cultural mato-grossense antes dos registros atuais.
Pescuma e Henrique afirmam que a obra pertence ao folclore cuiabano e que os registros referem-se a adaptações.
Entre uma versão e outra, permanece um fato incontestável.
Mais de 60 anos depois de ser cantada nas comunidades de São Gonçalo Beira Rio, nos bairros tradicionais de Cuiabá, nas rodas de Siriri e nos bailes de rasqueado, "A Lua" continua viva.
E justamente por permanecer viva é que sua história ainda desperta tantas perguntas.
Os documentos históricos apontam para uma tradição popular. Os artistas relatam ter conhecido a canção como domínio público. E os próprios envolvidos reconhecem sua origem folclórica.
A principal delas continua sem resposta definitiva:
Como uma canção que durante décadas foi apresentada como domínio popular passou a ocupar o centro de uma disputa sobre registros autorais em Mato Grosso?
E, sobretudo, por que uma obra que todos reconhecem como parte do folclore cuiabano passou a ser associada a registros autorais décadas depois de ter sido apresentada como patrimônio cultural do povo?