Cotidiano

Com colapso em outros biomas, Pantanal pode secar ainda mais nos próximos anos, alerta cientista

Esta sexta-feira (12) é o dia do Pantanal. Dados mostram que o bioma já sofre com a seca.

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 12/11/2021
Com colapso em outros biomas, Pantanal pode secar ainda mais nos próximos anos, alerta cientista
Foto: eClyce

No dia do Pantanal, esta sexta-feira (12), cientistas que atuam de forma extensiva no bioma opinaram para entender qual o futuro que se pode esperar para a maior planície alagável do mundo. Para os cientistas, se o planeta aquecer mais, o desmatamento na Amazônia continuar de forma desenfreada e o Cerrado continuar a ser explorado da maneira atual, o futuro do Pantanal será de seca.

O atual cenário do Pantanal, mesmo com o verde brotando, mostra: chuvas concentradas em apenas um momento, períodos de seca mais extensos, fauna e flora comprometidas, além de avanço no desmatamento.

O coordenador técnico do MapBiomas, Marcos Rosa, explica que a sobrevivência do Pantanal depende diretamente de outros biomas: Amazônico e Cerrado.

José Marengo, climatologista, meteorologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), comenta que em um cenário mais extremo, com o aumento de 4°C na temperatura do Planeta, a seca do Pantanal será mais que iminente. "Realmente se a situação que apresentarmos com um planeta mais quente, teremos uma situação de seca no Pantanal".

Porém, a população já amarga cenários extremos, de acordo com Marengo. As nuvens de poeira, fogo intenso e períodos de chuva dispersos aumentam os alertas climáticos e ambientais. "Os cenários extremos estão acontecendo. O risco deste aquecimento compromete o Pantanal".

Interdependência

Mais seco, Pantanal deve sofrer ainda mais com falta de chuva.  — Foto: Luiz Felipe Pereira/Arquivo pessoal

Mais seco, Pantanal deve sofrer ainda mais com falta de chuva. — Foto: Luiz Felipe Pereira/Arquivo pessoal

A cheia do Pantanal é ligada de forma direta à conservação dos outros biomas. Marengo explica que o papel da Amazônia na manutenção de chuvas no bioma que cobre parte de Mato Grosso do Sul é fundamental. O especialista comentou que os rios voadores - aqueles que se transportam em longas distâncias - saem do bioma Amazônico e chegam ao Pantanal.

Já a conservação do Cerrado é fundamental para a sobrevivência dos rios pantaneiros. Integralmente, os rios que banham o Pantanal não nascem no próprio bioma, mas sim, em grande parte, no Cerrado, e outra parcela na Amazônia, é o que contextualiza o climatologista.

Rosa, coordenador técnico do MapBiomas, destaca a atenção para a necessidade de conservação das cabeceiras, onde nascem os rios. Em vinte anos o Pantanal teve um aumento de 556 mil hectares nas áreas de pastagem. O especialista diz que grande parte desta pastagem está na área das cabeceiras, o que coloca em perigo os fluxos das bacias hidrográficas.

"O regime de enchente no Pantanal depende muito das cabeceiras que estão na área do Cerrado e na área da Amazônia, essas áreas foram muito degradadas. Neste local você tem ocupações, por exemplo, de soja, de pastagem que vai até a beira do rio. Quando chove, esse sedimento vai para o rio e desce pro Pantanal , isso muda o ciclo dos rios, os ciclos de alagamento, esses rios ficam mais rasos eles mudam de percurso e dai as áreas que alagam com frequência não alagam mais, essas áreas estão sendo limpas, removidas as vegetações e feita as pastagens exóticas".

Mais sobre o futuro do Pantanal

Com falta de chuvas, peixes agonizam por vida em resto de bacía no Pantanal.  — Foto: Luiz Felipe Pereira/Reprodução

Com falta de chuvas, peixes agonizam por vida em resto de bacía no Pantanal. — Foto: Luiz Felipe Pereira/Reprodução

Com a transformação na paisagem pantaneira, Rosa vê que o equilíbrio entre mata nativa e o plantio exótico pode colocar o futuro do bioma em perigo.

"A vegetação nativa está sempre ali em equilíbrio, mesmo que você use o boi nessa vegetação nativa ele mantém esse equilíbrio. Agora quando você remove tudo e faz o plantio da exótica você está perdendo esse equilíbrio natural e o pessoal está usando muito essa dinâmica, essa seca do Pantanal. O Pantanal é regulado por esse fluxo de meses de cheia e meses de seca e nesses últimos anos as cheias são sempre muito menores e com um tempo menor também, então o pessoal aproveita essa seca para fazer a conversão das áreas de pasto nativo para esses pastos exóticos com uma vegetação de flora exótica plantada e isso realmente desequilibra não só a conservação de toda biodiversidade mas também toda a mudança da relação de umidade no Pantanal", comenta Rosa.

Outro especialista do MapBiomas que acredita no poder do equilíbrio no Pantanal é Eduardo Reis Rosa. Com menos chuva, a terra fica mais exposta, assim levando a uma maior suscetibilidade ao fogo, como Eduardo frisa.

As mudanças que o Pantanal vem sofrendo podem demonstrar um futuro não otimista para o bioma. Entre os cientistas escutados, há uma unanimidade: o poder de conservação. "Eu acho que o mais preocupante é a seca. Com a seca temos a grande possibilidade de grandes cheias. Talvez tenha uma enchente não tão renovadora. Vejo um pouco da possibilidade do retorno de nascentes, temos que conservar", detalha Eduardo.

Perda de identidade

Seca no Pantanal de MT registrado por fotógrafo carioca — Foto: Marcelo Oliveira

Seca no Pantanal de MT registrado por fotógrafo carioca — Foto: Marcelo Oliveira

O coordenador de projetos da WWF Brasil, Cássio Bernadino, aponta que o Pantanal tem risco de perder aquilo que o caracteriza: a água.

Especialistas apontam e os números comprovam que o sistema hídrico do Pantanal tem sido alterado. Para o representante da WWF Brasil, o caminho que está sendo trilhado em relação ao bioma "é que o Pantanal seja cada vez mais seco e pior".

"Isso tudo afeta a vida dos pantaneiros e na nossa população. Aquilo que faz o Pantanal ser Pantanal está deixando que ele exista. Ao pensar a paisagem desta forma, a água que caracteriza o Pantanal. Temos que ter uma visão integrada dos manejos dos recursos. Se o Pantanal não está inundando quanto antes, há mais matéria orgânica que pode gerar fogo", denuncia Bernadino.