Mundo
Diretor de combate ao terrorismo no governo dos EUA se demite e aconselha Trump a 'reverter curso' da guerra no Irã
Kent tem 45 anos e é veterano da CIA e das forças especiais dos Estados Unidos
A principal autoridade do governo Trump sobre contraterrorismo pediu demissão em função da guerra no Irã, aconselhando o presidente a "reverter o curso".
Em carta postada na sua conta no X, o diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent, declarou que o Irã "não representava ameaça iminente" aos Estados Unidos e que o governo "começou esta guerra devido à pressão de Israel e seu poderoso lobby americano".
Kent tem 45 anos e é veterano da CIA e das forças especiais dos Estados Unidos. Sua esposa, a técnica em criptologia da marinha americana Shannon Kent, foi morta em um bombardeio na Síria em 2019.
A Casa Branca criticou a carta, afirmando que Trump detinha "evidências convincentes" de que o Irã iria atacar os Estados Unidos em primeiro lugar.
No Salão Oval da Casa Branca nesta terça-feira (17/3), Trump declarou achar Kent um "bom rapaz", mas "fraco em questões de segurança".
O presidente americano afirmou que a carta de renúncia de Kent fez com que ele percebesse que "é bom que ele esteja fora" e discordou da avaliação do ex-funcionário sobre a ameaça iraniana.
Com sua saída, Kent se torna a figura de mais alto escalão do governo Trump a criticar publicamente a operação dos Estados Unidos e Israel no Irã.
Na carta endereçada a Trump, Kent afirmou que "altas autoridades israelenses" e influentes jornalistas americanos semearam "desinformação", levando o presidente a comprometer sua plataforma "América em Primeiro Lugar".
"Esta câmara de eco foi usada para induzir o presidente a acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente aos Estados Unidos", prossegue a carta. "Era uma mentira."
Kent é apoiador de Trump de longa data. Ele concorreu duas vezes ao Congresso americano, sem sucesso.
O presidente o nomeou no início do governo e ele foi confirmado no cargo por pequena margem. Muitos democratas criticaram suas ligações com grupos extremistas, incluindo membros do grupo Proud Boys.
Na audiência de confirmação, Kent também se recusou a retirar as afirmações de que agentes federais teriam fomentado o levante de 6 de janeiro no Capitólio e que Trump teria vencido as eleições presidenciais de 2020.
Leia também
ATAQUE AO IRÃ Irã inicia instalação de minas no Estreito de Ormuz, dizem fontes GUERRA NO ORIENTE MÉDIO Ações de Israel no Líbano deslocam 667 mil pessoas em uma semana ATAQUE AO IRÃ EUA destroem 16 navios lança-minas do Irã perto de Ormuz, dizem militares ATAQUE AO IRÃ A tentativa de 32 países de contornar bloqueio do Estreito de Ormuz com maior liberação de reservas de petróleo da história ATAQUE AO IRÃ Irã: Navios podem passar por Ormuz se coordenarem com sua Marinha ATAQUE AO IRÃ Hegseth diz que novo líder do Irã está "provavelmente desfigurado" ATAQUE AO IRÃ Bombardeio à escola no Irã: como ataque matou dezenas de crianças e jogou pressão sobre Trump e os EUA ATAQUE AO IRÃ Guerra no Irã se expande e atinge praticamente todos os países do Oriente Médio; veja quem são os envolvidos ATAQUE AO IRÃ Como a água se tornou arma de guerra na luta dos EUA e Israel contra o Irã ATAQUE AO IRÃ 'Esta guerra não é nossa': a divisão na base de Trump após decisão de atacar o Irã ATAQUE AO IRÃ Como cautela de aliados dos EUA mostra que não há solução rápida para crise com Irã aberta por Trump ATAQUE AO IRÃ Petroleiros "começam a passar" pelo Estreito de Ormuz, diz Casa BrancaNo Centro Nacional de Contraterrorismo, Kent se reportava à diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard. Ele supervisionava a análise e detecção de possíveis ameaças terroristas de todas as partes do mundo.
Antes de ocupar o cargo, Kent foi destacado 11 vezes para o exterior com as Forças Armadas americanas, incluindo com as forças especiais do Exército dos Estados Unidos no Iraque.
Ele se tornou oficial paramilitar da CIA, até deixar o serviço público após a morte da esposa.

Crédito,YURI GRIPAS/POOL/EPA/Shutterstock
Kent mencionou seu serviço militar e a morte da esposa na sua carta.
Ele afirmou "não suportar o envio da próxima geração para lutar e morrer em uma guerra que não traz benefícios para o povo dos Estados Unidos, nem justifica o custo de vidas americanas".
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que a indicação de que Trump teria "tomado a decisão com base na influência de terceiros, até de países estrangeiros, é ultrajante e hilária".
"Como o presidente Trump declarou de forma clara e explícita, ele tinha evidências fortes e convincentes de que o Irã iria atacar os Estados Unidos em primeiro lugar", destacou ela.
Em rápida entrevista ao jornal The New York Times, o comentarista conservador Tucker Carlson elogiou Kent, com quem mantém laços pessoais próximos.
"Joe é o homem mais corajoso que conheço e não pode ser descartado como sendo maluco", declarou Carlson.
"Ele está deixando um cargo que deu a ele acesso a inteligência relevante do mais alto nível. Os neoconservadores tentarão destruí-lo por isso."
"Ele sabe disso e fez assim mesmo", concluiu ele.
Diversas autoridades de alto escalão do governo Trump já se demitiram, como a diretora executiva da Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos, Margaret Ryan, e o presidente do Centro Kennedy, Ric Grenell.
Mas o segundo mandato do atual presidente apresenta muito menos rotatividade que sua primeira passagem pela Casa Branca, entre 2017 e 2021.