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Cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano entra em vigor
O Hezbollah, apoiado pelo Irã, disse que vai cumprir o acordo — com condições —, mas continuou trocando ataques com as forças israelenses no período que antecedeu a trégua
Um cessar-fogo de 10 dias entre Israel e Líbano, anunciado mais cedo pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em vigor às 18h (horário de Brasília) desta quinta-feira (16/4).
O presidente libanês, Joseph Aoun, elogiou o acordo, enquanto o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou como uma oportunidade "histórica" para a paz.
O Hezbollah, apoiado pelo Irã, disse que vai cumprir o acordo — com condições —, mas continuou trocando ataques com as forças israelenses no período que antecedeu a trégua.
No Líbano, a população comemorou o anúncio com alívio. Libaneses saíram às ruas para celebrar, enquanto grandes grupos seguiram em comboios de veículos rumo às suas casas na região sul do país, fortemente bombardeada por Israel no último mês.
Durante a noite, Trump publicou uma mensagem nas redes sociais pressionando o Hezbollah a respeitar o cessar-fogo.
"Espero que o Hezbollah se comporte bem e de forma responsável durante este período importante", escreveu o presidente na rede Truth Social.
"Será um GRANDE momento para eles se fizerem isso. Chega de mortes. Precisamos finalmente de PAZ!"
Um funcionário israelense disse à CBS News, parceira da BBC nos EUA, que Israel só responderá militarmente durante o cessar-fogo a "ameaças iminentes do Hezbollah".
Já o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que um acordo de paz mais duradouro exigirá que o grupo apoiado pelo Irã seja desarmado.
Em uma declaração publicada no Telegram, o porta-voz do Parlamento Iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, disse que o Líbano faz parte de um cessar-fogo abrangente com os Estados Unidos e terá "um papel importante no avanço de uma paz duradoura na região".
As declarações foram feitas após uma reunião com um oficial militar do Paquistão.
"A criação de um cessar-fogo abrangente em todas as áreas de conflito é uma das cláusulas do acordo inicial entre Irã e Estados Unidos, mediado pelo Paquistão", diz a mensagem.

Crédito,Reuters
O acordo de cessar-fogo havia sido antecipado por Trump durante a tarde, em uma publicação na rede Truth Social. Ele afirmoy que a trégua começaria às 17h no horário da Costa Leste dos EUA (18h no horário de Brasília).
Na mensagem, o presidente americano disse que conversou tanto com o presidente do Líbano, Joseph Aoun, quanto com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
"Determinei ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Rubio, juntamente com o chefe do Estado-Maior Conjunto, Dan 'Razin' Caine, que trabalhem com Israel e o Líbano para alcançar uma PAZ duradoura", escreveu.
Após o anúncio de Trump, o primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, elogiou o acordo. Ele também disse esperar que o cessar-fogo permita que pessoas deslocadas pelo conflito possam voltar para suas casas.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também elogiou o cessar-fogo. "Isso traz alívio, já que este conflito já custou vidas demais", escreveu no X (antigo Twitter).
Ela afirmou que agora é necessário um caminho para uma "paz permanente", e não "apenas uma paz temporária", e que a Europa vai continuar a defender o "pleno respeito à soberania do Líbano".
Na publicação de Trump, não há menção ao Hezbollah — grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano, com o qual Israel tem trocado ataques.

Crédito,REUTERS/Kevin Lamarque
Na terça-feira (14/4), embaixadores do Líbano e Israel se reuniram pela primeira vez em 34 anos em Washington, com a presença do secretário de Estado americano, Marco Rubio. A reunião marcou as primeiras conversas diretas entre os governos desde 1993.
O vice-porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Tommy Pigott, afirmou que a reunião foi "histórica" e que esperava que o novo engajamento levesse a um acordo de paz de longo prazo, mediado por Washington.
Israel e Líbano concordaram em trabalhar para reduzir a influência do Hezbollah, disse Pigott, e o governo libanês "planeja restabelecer o monopólio da força e pôr fim à influência excessiva do Irã".
A embaixadora do Líbano nos Estados Unidos, Nada Hamadeh Moawad, afirmou que as conversas foram "produtivas".
Em comunicado na terça, ela disse ter defendido a "necessidade urgente de plena implementação" do acordo de cessação das hostilidades firmado em novembro de 2024, que foi alcançado após 13 meses de confrontos entre Israel e o Hezbollah.
Ele previa que o grupo apoiado pelo Irã encerrasse sua presença armada no sul do Líbano em até 60 dias.
Moawad acrescentou que também pediu um cessar-fogo e o retorno das pessoas deslocadas às suas casas. Ela afirmou ter enfatizado a "plena soberania do Líbano sobre todo o seu território" e pediu medidas para aliviar a "grave crise humanitária" causada pelo conflito.
O início do conflito

Crédito,Getty Images
O Hezbollah iniciou sua campanha no dia seguinte aos ataques do Hamas ao sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, alegando agir em solidariedade com os palestinos na Faixa de Gaza. A ação levou a combates localizados e ao deslocamento de cerca de 60 mil moradores no norte de Israel e quase 100 mil no Líbano.
O conflito se intensificou, levando a uma intensa campanha aérea israelense sobre o Líbano, ao assassinato de líderes seniores do Hezbollah e a uma incursão terrestre no sul do Líbano.
A ofensiva de 13 meses foi considerada a maior escalada de hostilidades entre Israel e o Hezbollah desde a Guerra do Líbano de 2006
Autoridades libanesas afirmaram que os ataques israelenses mataram cerca de 4 mil pessoas no país, incluindo civis, e provocaram o deslocamento de mais de 1,2 milhão de moradores. Já autoridades israelenses disseram que mais de 80 soldados e 47 civis morreram no conflito.
O objetivo declarado de Israel na guerra contra o Hezbollah foi permitir o retorno de cerca de 60 mil residentes que haviam sido deslocados de comunidades no norte do país devido aos ataques do grupo, e removê-lo das áreas ao longo da fronteira.
O conflito se intensificou com a explosões de pagers e walkie-talkies usados por membros do Hezbollah, em setembro de 2024, em uma ação atribuída a Israel. A ação deixou milhares de membros do Hezbollah mutilados, cegos ou mortos e foi seguida por uma ampla campanha aérea.
Naquele mesmo mês, ataques israelenses mataram, em Beirute, o líder histórico do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Já em outubro de 2024, Israel iniciou uma incursão terrestre "limitada e localizada" no sul do Líbano.
Embora um cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos tenha entrado em vigor em 27 de novembro de 2024, a trégua permaneceu instável.
Após o início da guerra entre Estados Unidos, Israel e o Irã em fevereiro de 2026, Israel lançou uma nova grande operação terrestre no sul do Líbano.
Os confrontos mais recentes entre os dois lados começaram em março, quando o Hezbollah lançou foguetes contra o norte de Israel após o assassinato do líder supremo do Irã. Israel respondeu com uma série de ataques aéreos em todo o país, incluindo na capital, Beirute.
Os ataques continuaram diante da incerteza sobre se o Líbano estava incluído no cessar-fogo entre EUA e Irã, firmado em 8 de abril. Israel afirmou que não.
Segundo o balanço mais recente do Ministério da Saúde do Líbano, o número de mortos desde 2 de março chegou a 2.196.
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O Hezbollah é um partido político xiita e um grupo armado com forte influência no Líbano, tanto no parlamento quanto no governo.
Controla a mais poderosa força militar do país. O grupo surgiu na década de 1980, em reação à ocupação israelense do sul do Líbano durante a guerra civil (1975-1990).
Com apoio militar e financeiro do Irã e alianças com a Síria de Bashar al-Assad, o Hezbollah já realizou ataques letais contra forças israelenses e americanas.
Após a retirada das tropas israelenses do Líbano em 2000, o Hezbollah assumiu o crédito pela vitória.
A guerra de 2006 entre Hezbollah e Israel, desencadeada por um ataque do grupo, resultou na morte de cerca de mil civis, mas o Hezbollah saiu fortalecido, expandindo suas capacidades militares.