Política

Advogado aciona Justiça em defesa de servidores sufocados por dívidas impagáveis

Baseado na Lei do Superendividamento, Fernando Bettini move ações inéditas em Mato Grosso para frear descontos abusivos nos contracheques de servidores públicos estaduais e municipais

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA 11/11/2025
Advogado aciona Justiça em defesa de servidores sufocados por dívidas impagáveis
O advogado afirma que já há decisões favoráveis em Mato Grosso, determinando que bancos suspendam descontos e apresentem planos de pagamento razoáveis | Página 12

O advogado Fernando Bettini está à frente de uma série de ações judiciais que prometem mexer com a realidade de milhares de servidores públicos de Mato Grosso. Com base na Lei do Superendividamento (Lei nº 14.181/2021), Bettini tem recorrido à Justiça para conter descontos excessivos em folha de pagamento e renegociar dívidas que vêm consumindo quase toda a renda mensal de servidores estaduais e municipais.

“A situação é desumana”, afirma o advogado em entrevista exclusiva ao Página 12. “Há professores, policiais, enfermeiros e técnicos administrativos que chegam a receber menos de 5% do salário líquido depois dos descontos automáticos. O servidor fica sem condições de pagar aluguel, comprar comida ou remédio. Isso é escravidão financeira patrocinada por bancos e instituições de crédito.”

Segundo Bettini, a maioria dos casos envolve empréstimos consignados, cartões de crédito com desconto em folha e refinanciamentos sucessivos. O resultado é o colapso financeiro de milhares de famílias que dependem de salários públicos.

“A cada mês, o servidor se afunda mais. Ele tenta quitar uma dívida e acaba fazendo outra. O sistema bancário age com total desequilíbrio, sem considerar a capacidade real de pagamento. É aí que entra a Lei do Superendividamento — ela devolve dignidade a quem trabalha e foi empurrado ao limite da sobrevivência”, explica.

As ações movidas por Bettini têm como base o artigo 54-A do Código de Defesa do Consumidor, alterado pela Lei 14.181/21, que garante ao consumidor o direito de renegociar suas dívidas de forma global, evitando o colapso financeiro pessoal.

O advogado afirma que já há decisões favoráveis em Mato Grosso, determinando que bancos suspendam descontos e apresentem planos de pagamento razoáveis. “É uma nova era na defesa dos servidores públicos. Não se trata de calote, mas de reequilíbrio. O servidor quer pagar, mas dentro de condições humanas.”

O movimento começa a ganhar força em várias cidades do Estado. Sindicatos de professores, servidores administrativos e profissionais da saúde já procuram orientação jurídica para ingressar com ações coletivas.

Bettini diz que os bancos abusam da vulnerabilidade emocional e financeira dos trabalhadores. “As instituições oferecem crédito fácil, empurram refinanciamentos e escondem taxas absurdas. O servidor só percebe o buraco quando o salário desaparece.”

Para o advogado, a luta é mais do que jurídica — é moral.
“Estamos falando de pais e mães de família que dedicaram a vida ao serviço público e agora vivem sob humilhação. O Estado precisa garantir proteção contra esse tipo de violência financeira”, conclui.