Política
Sacola de dinheiro assombra DAE-VG e explicação de Rogerinho deixa pergunta no ar: de onde vieram os maços?
Um dia após vídeo mostrar presidente da autarquia guardando dinheiro no bolso e recebendo sacola com mais notas, caso deixa de ser apenas uma imagem constrangedora e passa a exigir respostas objetivas; combate à corrupção começa pela transparência
O vídeo divulgado nesta segunda-feira (10), mostrando o presidente do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG), Rogério de França Martins, o Rogerinho Dakar, recebendo maços de dinheiro em espécie, não pode simplesmente desaparecer no turbilhão das redes sociais.
Passado o impacto inicial das imagens, nesta terça-feira (11) surge uma questão ainda mais importante: onde estão as explicações objetivas sobre o dinheiro?
Rogerinho já se manifestou. Disse que foi “pego de surpresa”, lembrou sua trajetória como empresário, mencionou a realização de transações comerciais particulares e afirmou trabalhar com seriedade e transparência à frente do DAE.
Também colocou suas contas bancárias e as de familiares à disposição e convidou órgãos fiscalizadores a acompanharem a gestão da autarquia.
É uma manifestação importante.
Mas, diante da força das imagens, talvez não seja suficiente.
O que a sociedade precisa agora não é de especulação — é de esclarecimento.
Maço no bolso, dinheiro na sacola
A gravação é desconfortável para qualquer agente público.
Rogerinho aparece diante de outro homem, recebe um maço de dinheiro e coloca as notas no bolso.
Depois, outros maços são reunidos e colocados dentro de uma sacola rosa.
A sacola é entregue ao atual presidente do DAE-VG, que posteriormente deixa o local levando os valores.
Não se sabe publicamente quanto dinheiro havia ali.
Não se sabe quem entregou os valores.
Não foi esclarecido quando exatamente o vídeo foi gravado.
Também permanece sem esclarecimento público qual negócio teria originado a entrega e se a gravação ocorreu antes ou depois de Rogerinho assumir o comando da autarquia.
E é justamente nesse vazio de informações que cresce a necessidade de transparência.
Não basta dizer que era negócio particular
Se a movimentação registrada no vídeo decorreu de uma transação empresarial perfeitamente legal, existe uma maneira relativamente simples de encerrar as dúvidas: demonstrar documentalmente a operação.
Qual foi o negócio?
Quem pagou?
Quanto foi pago?
Por que o pagamento ocorreu em dinheiro vivo?
Existe contrato, recibo, nota fiscal, declaração contábil ou algum outro documento relacionado à operação?
São perguntas legítimas diante de uma autoridade que ocupa o comando de uma autarquia responsável por um dos serviços públicos mais importantes de Várzea Grande.
Fazer essas perguntas não significa condenar antecipadamente Rogerinho.
Significa exatamente o contrário: impedir que acusações sejam construídas apenas sobre imagens, permitindo que fatos e documentos estabeleçam a verdade.
Dinheiro vivo não é prova de crime
É necessário fazer uma distinção fundamental.
Receber dinheiro em espécie não constitui, por si só, prova de corrupção, propina, peculato ou qualquer outro crime.
O vídeo também não demonstra, isoladamente, qualquer ligação entre os valores entregues e contratos, fornecedores ou recursos do DAE-VG.
Qualquer conclusão nesse sentido, neste momento, seria precipitada.
Mas existe uma diferença enorme entre afirmar que alguém cometeu um crime e defender que uma situação envolvendo uma autoridade pública seja devidamente esclarecida.
É exatamente aí que entra o princípio da transparência.
Quem ocupa cargo público deve explicações maiores
Rogerinho não é hoje apenas um empresário realizando negócios particulares.
Ele preside o Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande.
Isso muda completamente o peso político e institucional das imagens.
Quem administra uma estrutura pública precisa conviver com um nível de fiscalização muito superior ao enfrentado pelo cidadão comum.
Não basta ser honesto.
A administração pública também precisa transmitir confiança, permitir fiscalização e afastar dúvidas razoáveis sobre a conduta de seus dirigentes.
Por isso, diante de imagens tão fortes, a resposta institucional mais adequada não é atacar quem pergunta nem reduzir o episódio a uma disputa eleitoral.
É abrir informações.
É apresentar documentos.
É permitir fiscalização.
Combate à corrupção não pode ter lado
Existe ainda uma questão maior que Rogerinho e o próprio DAE.
Mato Grosso e Várzea Grande precisam consolidar uma cultura na qual suspeitas envolvendo dinheiro e agentes públicos sejam tratadas com o mesmo rigor, independentemente de quem esteja no poder.
Combate à corrupção não pode depender de partido político, amizade, grupo eleitoral ou conveniência.
Se há indícios concretos de irregularidade, que sejam investigados.
Se não há irregularidade, que isso seja demonstrado.
E se tudo não passou de uma transação privada absolutamente legal, a apresentação de documentos poderá ser justamente o caminho mais rápido para retirar qualquer sombra sobre o episódio.
O que não interessa à sociedade é deixar perguntas sem resposta.
Uma sacola que virou problema político
Rogerinho pode ter sido “pego de surpresa” pela divulgação.
A população também foi.
E uma imagem de um presidente de autarquia recebendo maços de dinheiro, colocando parte das notas no bolso e levando o restante em uma sacola inevitavelmente produz repercussão.
Agora, a discussão precisa avançar das imagens para os fatos.
A pergunta deixou de ser apenas “o que aparece no vídeo?”.
A pergunta que Várzea Grande precisa ver respondida é outra:
de quem era o dinheiro, quanto havia na sacola, qual negócio justificou a entrega e quais documentos comprovam a origem e a legalidade da transação?
Se tudo é lícito, a transparência protege o próprio presidente do DAE.
Se houver alguma irregularidade, cabe aos órgãos competentes apurá-la.
Porque dinheiro em espécie não é sinônimo de corrupção.
Mas, quando maços de dinheiro aparecem nas mãos de quem ocupa um cargo público relevante, transparência não deveria ser opção. Deveria ser obrigação.