Política

Impedido de falar com Mendes, Fábio Garcia abandona vice e força Pivetta a refazer chapa

Deputado confirma saída da majoritária e volta à disputa pela Câmara Federal; efeitos da Operação Heritage atingem em cheio o grupo governista e colocam Gisela Simona, Rogério Gallo e Alessandra Ferreira no radar para a vice

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA 11/08/2026
Impedido de falar com Mendes, Fábio Garcia abandona vice e força Pivetta a refazer chapa
O deputado federal Fábio Garcia (União) confirmou nesta terça-feira (11) que desistiu de disputar a vice-governadoria na chapa do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) | Arquivo Página 12

A Operação Heritage atravessou definitivamente a fronteira dos tribunais e entrou com força na eleição de Mato Grosso.

O deputado federal Fábio Garcia (União) confirmou nesta terça-feira (11) que desistiu de disputar a vice-governadoria na chapa do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) e voltará a concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados.

A decisão obriga Pivetta a reconstruir sua chapa majoritária em plena campanha e representa, até agora, uma das consequências políticas mais contundentes das medidas cautelares determinadas pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da Operação Heritage.

Fábio Garcia afirmou publicamente que a restrição de comunicação envolvendo integrantes do grupo político criou dificuldades para a condução da campanha.

Entre os atingidos pela proibição de contato estão personagens que ocupavam posições centrais na articulação política.

Na prática, Fábio e o ex-governador Mauro Mendes (União), um dos principais líderes do grupo governista, ficaram impedidos de manter comunicação nos termos estabelecidos pela decisão judicial.

E uma campanha eleitoral construída justamente sobre articulação, reuniões, decisões conjuntas e estratégias políticas passou a enfrentar uma barreira difícil de contornar.

Fábio saiu.

“Não podemos nos comunicar”

Ao anunciar sua decisão durante coletiva na Assembleia Legislativa, Fábio Garcia deixou claro o peso da cautelar sobre o funcionamento político do grupo.

“Todos vocês acompanharam a decisão do ministro Flávio Dino, essa decisão que impõe a todos nós, nosso grupo político, uma restrição. Isso fez o governador Mauro Mendes, pela decisão do ministro, não podemos nos comunicar, portanto não podemos estar no mesmo local, e isso impõe a todos nós uma dificuldade de poder tocar a campanha”, afirmou.

A declaração transforma aquilo que poderia ser tratado apenas como uma substituição eleitoral em algo politicamente muito maior.

A decisão judicial passou a interferir, ainda que como consequência prática das cautelares impostas na investigação, na capacidade de organização de um dos principais grupos políticos de Mato Grosso.

Não se trata de o STF escolher ou retirar candidatos.

Trata-se do efeito concreto de uma medida judicial sobre uma campanha formada por pessoas alcançadas pelas restrições de contato.

Partidos pediram a saída

Fábio revelou ainda que presidentes de partidos integrantes da coligação pediram que ele reconsiderasse sua candidatura a vice e retornasse à disputa proporcional.

O deputado aceitou.

“Eu recebi, portanto, o pedido dos presidentes do partido da nossa coligação para que eu reavaliasse a candidatura a vice-governador e voltasse à candidatura a deputado federal. E entendendo, portanto, que nós precisamos tocar para frente o projeto, eu vou voltar a ser candidato a deputado federal, essa é a definição”, declarou.

Está encerrada, portanto, a participação de Fábio Garcia na chapa majoritária.

E começa imediatamente outra disputa: quem será o novo vice de Pivetta?

Heritage muda o tabuleiro

A saída de Fábio ocorre poucos dias depois da deflagração da Operação Heritage pela Polícia Federal.

A investigação apura suspeitas relacionadas a um acordo envolvendo o Estado de Mato Grosso e a empresa de telefonia Oi, com apuração sobre suposto desvio de centenas de milhões de reais e movimentações financeiras que estão sob investigação.

A operação alcançou personagens politicamente relevantes e provocou a imposição de medidas cautelares pelo Supremo.

É fundamental registrar que investigação e imposição de medidas cautelares não representam condenação e não significam reconhecimento antecipado de culpa. Eventuais responsabilidades criminais somente poderão ser estabelecidas ao final dos procedimentos legais, com direito ao contraditório e à ampla defesa.

No campo político, entretanto, existe um efeito que já não é hipótese.

Fábio Garcia deixou de ser candidato a vice.

Pivetta precisa remontar a chapa

A saída resolve um problema imediato para Otaviano Pivetta, mas cria outro igualmente delicado.

O governador precisa escolher um novo nome para ocupar a vice justamente quando a campanha deveria estar concentrada em conquistar votos, e não em reconstruir sua própria composição.

Nos bastidores, Pivetta vinha defendendo uma mudança, enquanto Mauro Mendes resistia à retirada de Fábio.

A queda de braço expôs divergências dentro de um grupo que, até pouco tempo atrás, buscava transmitir uma imagem de unidade.

Agora, o governador ganha maior liberdade para procurar uma alternativa.

E três nomes aparecem entre os cotados.

Gisela, Gallo e Alessandra entram no radar

A deputada federal Gisela Simona (União) surge como uma das possibilidades para substituir Fábio.

Sua escolha permitiria preservar espaço do União na majoritária e, ao mesmo tempo, acrescentaria uma mulher à chapa.

Outro nome mencionado nas articulações é o do ex-secretário estadual de Fazenda Rogério Gallo, que possui forte identificação com a administração estadual e experiência na estrutura do Executivo.

Também aparece no radar a primeira-dama de Rondonópolis, Alessandra Ferreira (Podemos), alternativa que poderia agregar um novo componente regional e partidário à composição.

Até uma definição oficial, porém, os três devem ser tratados como cotados, e não como escolhas fechadas.

Mauro Carvalho também sai

A crise também alcançou outro personagem importante do núcleo político.

O chefe da Casa Civil, Mauro Carvalho, deixa o cargo em meio à reorganização desencadeada após os últimos acontecimentos.

Com isso, o governo enfrenta simultaneamente mudanças na chapa eleitoral e em uma das posições mais estratégicas do Palácio Paiaguás.

Não é uma simples troca de nomes.

É uma reorganização do núcleo político em pleno processo eleitoral.

O peso sobre Mauro Mendes

Para Mauro Mendes, o episódio também representa um revés político.

Fábio Garcia é um dos nomes mais próximos ao ex-governador e integrava a chapa como representante de um arranjo político construído pelo grupo.

Agora, está fora.

E sua saída acontece justamente depois de uma operação federal atingir integrantes desse mesmo núcleo e uma decisão do STF impor restrições que dificultam a comunicação entre personagens importantes da campanha.

O cenário coloca Mendes diante de uma situação incomum: continuar exercendo influência política sobre uma campanha enquanto precisa observar rigorosamente as limitações estabelecidas judicialmente.

Da Polícia Federal para a urna

A Heritage ainda está em fase de investigação e muita coisa precisa ser esclarecida.

Mas seu impacto eleitoral já pode ser medido.

Antes da operação, Fábio Garcia estava na chapa de Pivetta.

Depois das cautelares e da crise política subsequente, Fábio anunciou que não será mais candidato a vice.

Isso não significa antecipar qualquer conclusão criminal sobre os investigados.

Significa reconhecer uma realidade política objetiva:

a eleição mudou.

Pivetta precisa reconstruir sua chapa.

Fábio tenta preservar seu futuro eleitoral retornando à disputa pela Câmara.

Mauro Mendes vê um aliado estratégico abandonar a majoritária.

E os partidos da coligação precisam reorganizar uma campanha que entrou em turbulência justamente quando deveria acelerar rumo às urnas.

A pergunta agora não é mais se Fábio Garcia continuará como vice.

Essa resposta já foi dada.

A pergunta que sacode os bastidores do poder em Mato Grosso é quem Pivetta escolherá para ocupar uma cadeira que, depois da Heritage, se transformou no posto mais disputado — e mais delicado — da chapa governista.