Política

SANGRIA NO PALANQUE: DR. João abandona Wellington e declara apoio a Pivetta — estratégia do senador entra em zona de perigo

Mudança de lado em Tangará da Serra expõe fissuras na aliança de Wellington Fagundes e fortalece Pivetta no interior de Mato Grosso

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA 21/08/2026
SANGRIA NO PALANQUE: DR. João abandona Wellington e declara apoio a Pivetta — estratégia do senador entra em zona de perigo
O deputado estadual Dr. João (MDB) decidiu abandonar o palanque de Wellington e declarar apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos) | Divulgação

A eleição para o Governo de Mato Grosso ganhou um novo capítulo — e desta vez o golpe veio de dentro da própria estrutura política que deveria sustentar a candidatura de Wellington Fagundes (PL).

O deputado estadual Dr. João (MDB) decidiu abandonar o palanque de Wellington e declarar apoio à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos). O movimento foi oficializado nesta quinta-feira (20), em Tangará da Serra, principal reduto eleitoral do parlamentar.

Pode parecer apenas mais uma adesão em uma campanha de 45 dias. Politicamente, porém, o episódio pode representar algo muito maior: a percepção de que a candidatura de Wellington começa a perder sustentação justamente onde uma disputa majoritária precisa ser mais forte — nos municípios e entre as lideranças locais.

O golpe veio de onde Wellington menos podia esperar

Dr. João não é uma liderança periférica.

Médico, deputado estadual em segundo mandato e atual primeiro-secretário da Assembleia Legislativa, o parlamentar construiu sua principal força política em Tangará da Serra e região. Foi eleito em 2018 e reeleito em 2022 com 24.957 votos.

Sua decisão, portanto, não deve ser lida apenas como uma troca de palanque.

É um sinal político.

E sinais desse tipo, quando aparecem em sequência, podem alterar o equilíbrio de uma eleição.

O próprio Dr. João já havia feito críticas públicas à capacidade de Wellington de manter sua base unida. Em julho, chamou atenção para prefeitos ligados ao PL que passaram a demonstrar simpatia por Pivetta.

Agora, ele próprio atravessa a ponte.

A “sangria” começa a aparecer no mapa

O caso de Dr. João se soma a outros movimentos que atingem diretamente a candidatura de Wellington.

Prefeitos filiados ao próprio PL — partido do senador — já manifestaram apoio a Pivetta, entre eles Cláudio Ferreira, de Rondonópolis; Edilson Piaia, de Campo Novo do Parecis; e Sérgio Machnic, de Primavera do Leste.

Para uma candidatura ao governo, esse tipo de movimento é particularmente sensível.

Prefeito não leva apenas um voto.

Leva estrutura, grupo político, vereadores, lideranças comunitárias, capacidade de mobilização e, principalmente, presença territorial.

É justamente por isso que uma sucessão de adesões pode produzir um efeito dominó.

133 prefeitos: o número que assusta a oposição

O cenário ganhou ainda mais força nesta semana.

133 dos 142 prefeitos de Mato Grosso assinaram uma carta em apoio à reeleição de Pivetta.

O dado representa aproximadamente 94% dos prefeitos do Estado.

E o mais significativo está na composição política desse movimento: o apoio aparece inclusive em partidos que possuem ligação com a candidatura de Wellington, como PL e MDB, além de União Brasil e Podemos.

Em uma eleição majoritária, isso é um fenômeno que merece atenção.

Porque existe uma diferença enorme entre ter apoio formal de uma sigla e ter prefeitos, deputados e lideranças municipais trabalhando efetivamente por uma candidatura.

A eleição pode estar mudando de eixo

A grande questão agora é saber se Wellington conseguirá interromper essa sequência.

Pivetta tenta transformar cada adesão em demonstração de força.

Wellington precisa impedir que cada nova adesão seja interpretada como sinal de fraqueza.

Essa disputa não acontece apenas nas pesquisas.

Acontece nos municípios.

Acontece nos grupos políticos.

Acontece nas alianças.

E acontece, sobretudo, na percepção de quem está ganhando e de quem está perdendo.

De Tangará para o restante de Mato Grosso

A declaração de Dr. João tem ainda um peso simbólico.

Tangará da Serra é uma das principais forças políticas do interior mato-grossense. Quando uma liderança daquele tamanho muda de lado e faz isso publicamente ao lado da candidata a vice de Pivetta, a mensagem ultrapassa as fronteiras do município.

O discurso de Gisela Simona reforçou a estratégia.

Segundo ela, lideranças têm manifestado apoio a Pivetta por considerá-lo um administrador experiente e confiável e por defenderem a continuidade do projeto de governo.

É exatamente essa narrativa que o grupo de Pivetta tenta consolidar: transformar a eleição em uma escolha entre continuidade administrativa e mudança política.

Wellington, por sua vez, precisa apresentar uma resposta capaz de recuperar o protagonismo.

Bancarrota política? ainda não — mas o alerta está aceso

Seria precipitado decretar a derrota de Wellington.

Ele continua sendo um nome de enorme peso político, possui mandato de senador, estrutura partidária e uma trajetória eleitoral consolidada.

Mas também seria um erro subestimar o que está acontecendo.

Uma candidatura majoritária raramente quebra de uma vez. Ela começa a rachar.

Primeiro aparecem as dúvidas.

Depois, as adesões silenciosas.

Em seguida, os prefeitos mudam de lado.

Deputados começam a se posicionar.

E, quando a percepção de vitória muda, o movimento pode ganhar velocidade.

É justamente esse o risco que Wellington enfrenta agora.

A história das eleições mostra: percepção de força pesa

Campanhas majoritárias não são decididas apenas por números de pesquisa.

São decididas também pela capacidade de convencer aliados de que existe um caminho viável para a vitória.

Quando prefeitos, deputados e lideranças percebem que determinado candidato pode vencer, a tendência é que a estrutura política se aproxime dele.

É o chamado efeito de convergência.

Pivetta tenta construir exatamente isso.

Wellington precisa quebrar esse movimento.

O jogo ainda está aberto — mas o tempo é curto

Com apenas 45 dias de campanha, cada movimento ganha peso.

A pergunta que começa a circular nos bastidores não é mais apenas quem tem mais votos hoje.

É outra:

quem conseguirá chegar ao fim da campanha com a maior estrutura política ao seu lado?

A saída de Dr. João é mais uma peça desse tabuleiro.

E, se novas lideranças seguirem o mesmo caminho, o que hoje parece apenas uma sequência de adesões poderá se transformar em uma verdadeira crise de sustentação da candidatura de Wellington Fagundes.

Por enquanto, não há bancarrota.

Mas há sangria.

E, em uma eleição curta, sangria política é algo que nenhum candidato pode ignorar.