Política
O que Lula e Trump falaram no primeiro telefonema após meses de crise
Os dois líderes discutiram o aumento dos preços, o combate ao crime organizado e a situação internacional
Os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e dos Estados Unidos, Donald Trump, conversaram nesta sexta-feira (21/8) por telefone após meses de estremecimento nas relações entre os dois governos.
Nas últimas semanas, o governo brasileiro chegou a acusar os EUA de ter interesse em "interferir" nas eleições presidenciais deste ano.
A BBC News Brasil entrou em contato com a Casa Branca, mas não obteve esclarecimentos do governo norte-americano sobre a conversa com Trump. O presidente dos EUA também não comentou o diálogo em suas redes sociais.
A reportagem da BBC apurou que a realização do telefonema vinha sendo negociada há algumas semanas. Ainda segundo as informações obtidas pela BBC junto a fontes da diplomacia, o fato de a conversa ter ocorrido reflete uma estratégia do governo brasileiro de poupar os canais de comunicação com Trump e centrar seus ataques em Marco Rubio, secretário de Estado.
Segundo nota divulgada pelo governo brasileiro, a conversa entre Lula e Trump aconteceu em tom "cordial e amistoso", durou uma hora e vinte minutos e foi feita por iniciativa do brasileiro.
Nela, o presidente teria dito que os argumentos usados pelo governo dos EUA para a nova imposição de tarifas a produtos brasileiros eram infundados e que Trump teria proposto que os dois países voltassem a negociar.
Ainda de acordo com a nota, os dois também conversaram sobre a recente designação pelos EUA de facções criminosas como organizações terroristas.
A conversa desta sexta-feira é o primeiro diálogo oficial entre Lula e Trump desde que os dois se encontraram pessoalmente na Casa Branca, em Washington, capital dos EUA, em maio. Na ocasião, o governo brasileiro ainda tentava convencer Trump a não impor novas tarifas sobre produtos brasileiros e a não designar facções brasileiras como organizações terroristas.
Semanas depois, no entanto, Trump se encontrou com o senador e candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-SP) e, dias depois, o governo norte-americano passou a tomar medidas que contrariaram a administração petista.
A primeira foi a designação das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida foi comemorada por Flávio e por aliados de direita, mas criticada por Lula e seu governo sob o argumento de que o Brasil já teria mecanismos para lidar com o crime organizado e que essa designação poderia ser usada como justificativa para ações militares norte-americanas em território nacional.
A segunda medida aconteceu em julho, quando o governo Trump confirmou uma nova leva de tarifas contra a importação de produtos brasileiros.
Tarifaço, crime organizado e guerras
Segundo a nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, o novo tarifaço foi um dos principais temas discutidos pelos dois presidentes. Durante a conversa, Lula teria criticado a fundamentação do tarifaço mais recente contra o Brasil.
"O Presidente Lula enfatizou que as alegações que basearam a medida (desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importações de produtos com trabalho forçado) são infundadas", diz a nota.
O documento afirma ainda que Lula defendeu que os dois países retomem as negociações e que Trump teria manifestado interesse no assunto.
"[Lula] Reiterou a importância de trabalhar juntos para que os Estados Unidos continuem sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil. O Presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível", diz a carta.
A nota também apontou que segurança pública foi outro dos assuntos principais da conversa.
Segundo o governo brasileiro, Lula teria dito que o Brasil teria mecanismos para combater o crime organizado sem classificar as facções como organizações terroristas.
A nota não aponta, em detalhes, a resposta dada por Trump ao longo do diálogo, mas diz que o presidente norte-americano teria dito que reforçaria a cooperação bilateral em segurança pública e que mobilizaria "funcionários de alto escalão para dar seguimento aos entendimentos nessa área".
O outro tema mencionado na nota do governo brasileiro sobre a conversa foram as tensões internacionais, especialmente as guerras na Ucrânia e os conflitos armados no Oriente Médio.
"Os dois Presidentes trocaram impressões sobre os principais conflitos globais, em especial as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. Ambos concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada para o conflito entre Rússia e Ucrânia, que já se estende por quase cinco anos", diz um trecho da nota.
Ainda de acordo com o governo brasileiro, Lula teria lamentado a suposta inoperância do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e propôs "a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para encontrar saídas diplomáticas para as crises atuais".
Relações estremecidas
A conversa entre Lula e Trump aconteceu em meio a um dos períodos mais tensos nas relações entre os dois países nos últimos anos.
Nos últimos meses, Brasil e Estados Unidos trocaram acusações e medidas de retaliação envolvendo até a recusa ou a revogação de vistos diplomáticos.
Em março, por exemplo, o governo brasileiro revogou o visto de Darren Beattie, integrante do governo Trump.
Beattie pretendia viajar ao Brasil para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que está cumprindo prisão domiciliar. Segundo o governo, o visto foi negado porque Beattie não informou, quando pediu o visto, que pretendia visitar Bolsonaro, um antigo aliado de Trump e adversário político de Lula. Em seu pedido, ele teria dito apenas que iria participar de um fórum empresarial.
Ao comentar o episódio, Lula afirmou que havia proibido a entrada de Beattie no Brasil e vinculou a medida às restrições de entrada nos EUA impostas a membros do seu governo, como o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Em julho, foi a vez do secretário de Estado, Marco Rubio, se manifestar a criticar o governo brasileiro. Ao justificar a imposição das tarifas a produtos brasileiros, o republicano disse que as medidas eram resultado do "ego" de Lula.
"Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu Rubio no X, no dia 16 de julho.
No mesmo mês, mais uma fricção entre os dois países: o Itamaraty negou vistos a outros dois integrantes do Departamento de Estado, os diplomatas Riley M. Barnes e Samuel Samson.
Na época, o jornal norte-americano The Washington Post informou que o governo brasileiro via a viagem de Barnes e Samson ao Brasil como uma iniciativa do governo Trump com objetivo de questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
Nos bastidores, dois diplomatas brasileiros disseram à BBC News Brasil em caráter reservado que os diplomatas manteriam laços com a extrema-direita internacional.
O governo brasileiro não justificou, formalmente, a rejeição ao visto.
Em agosto, foi a vez de o governo norte-americano responder e revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com a medida, ela não fica impedida de representar o Brasil nos EUA, mas caso ela deixe o país, pode acabar impedida de regressar ao país. Em jargão diplomático, a medida é uma das mais graves e demonstra insatisfação de um governo com o outro.
O Departamento de Estado justificou que a medida estava relacionada à demora do Brasil em conceder o agrément a Daniel Perez.
O agrément é a autorização necessária para que um embaixador indicado por outro país possa assumir o posto.
Perez foi escolhido por Trump para comandar a Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. Seu nome foi confirmado pelo Senado.
O governo americano condicionou o restabelecimento do visto de Viotti à aprovação do nome de Perez pelo Brasil.
Dias depois, Lula dirigiu criticou publicamente o secretário de Estado americano, Marco Rubio.
"Tem um cidadão lá que não gosta do Brasil, que não gosta da América Latina e que é bolsolarista, que é o secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Ele não gosta. Eu disse para o Trump: 'Esse moço não gosta do Brasil'. Ele é um anti-latinoamericano ou um latinoamericano frustrado", disse Lula durante uma viagem a São José dos Campos (SP).