Brasil

Invasões, incêndios e ameaças de morte: indígenas vivem onda de ataques após COP26

Lideranças dos povos originários tiveram destaque na cúpula climática em Glasgow, onde países ricos prometeram um fundo direcionado a eles. De volta ao Brasil, já longe dos holofotes internacionais, realidade se impõe com violência

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PAÍS 20/11/2021

Os indígenas brasileiros estão, hoje, espremidos entre duas realidades paralelas.

Durante a cúpula climática da ONU, celebrada entre 31 de outubro e 12 de novembro deste ano, em Glasgow, levaram a mensagem de que são parte essencial na luta pela preservação da Amazônia e denunciaram o desmonte da política ambiental promovido pelo Governo Jair Bolsonaro.

Ganharam destaque e ouviram promessas de cooperação. De volta ao Brasil, longe dos holofotes da COP26 e dos países desenvolvidos que prometem proteger as terras indígenas demarcadas, a realidade se impõe com tiros, incêndios, invasões e ameaças. “A realidade internacional não está conseguindo incidir internamente no Brasil. Nós denunciamos essas violações, há uma sensibilização, mas o risco é muito grande quando a gente retorna”, explica Dinamam Tuxá, advogado e coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O reflexo disso pôde ser visto na noite desta quinta-feira, quando foram divulgados os novos dados de desmatamento da Amazônia. São os maiores dos últimos 15 anos.

O militante indígena se refere à mais recente onda de ataques e invasões contra povos indígenas registrada nos últimos dias. As principais entidades envolvidas na causa indígena, como a Apib ou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), denunciaram pelo menos seis ameaças ou ataques a comunidades indígenas ou lideranças desde o dia 11 de novembro. Não é possível afirmar com certeza se foram deliberadamente coordenados, já que alguns parecem estar relacionados a conflitos e disputas locais. Mas, para Dinamam, tampouco pode-se dizer que são mera coincidência. “Após a COP26, onde a participação dos povos indígenas foi muito positiva, muitas coisas aconteceram, coincidentemente ou não. Nós levamos a maior delegação indígena da história das cúpulas. Então, eu vejo uma retaliação, sim, sem sombra de dúvidas”, afirma.