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Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil, são presos pela PF na Operação Unha e Carne 8

Canella e Amim já tinham sido alvos da Polícia Federal na 6ª etapa, em julho. PF investiga um suposto esquema de lavagem e dinheiro, com anuência de políticos, envolvendo uma rede de postos de combustíveis. Grupo movimentou R$ 7,6 bilhões em 6 anos

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 15/10/2026
Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil, são presos pela PF na Operação Unha e Carne 8
Márcio Canella (União Brasil), o 2º deputado estadual mais votado nas eleições no RJ e ex-prefeito de Belford Roxo, foi preso nesta quinta-feira (15) na Operação Unha e Carne 8 | Divulgação

Márcio Canella (União Brasil), o 2º deputado estadual mais votado nas eleições no RJ e ex-prefeito de Belford Roxo, foi preso nesta quinta-feira (15) na Operação Unha e Carne 8, deflagrada pela Polícia Federal (PF). Agentes também prenderam o delegado Marcus Amim, ex-secretário estadual de Polícia Civil.

Segundo a PF, o objetivo é “desarticular uma organização criminosa armada suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio de Janeiro como plataforma de lavagem de dinheiro”. “O grupo investigado conta com a participação de agentes públicos e articulação político-institucional”, afirmou.

Canella e Amim são investigados por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva e formação de cartel, entre outros crimes. Segundo a investigação, Canella é apontado como o articulador do grupo criminoso.

“Confio em Deus e na Justiça e tenho certeza de que tudo será esclarecido”, declarou Canella.

A defesa de Amim informou que não vai se pronunciar até ter acesso aos autos.

A Unha e Carne começou em dezembro de 2025 e investiga conexões de agentes públicos com grupos criminosos que atuam no RJ.

Márcio Canella usou um guarda-chuva para esconder o rosto ao ser conduzido por policiais federais — Foto: Allan Cavalcante/ TV Globo

Márcio Canella usou um guarda-chuva para esconder o rosto ao ser conduzido por policiais federais — Foto: Allan Cavalcante/ TV Globo

Ordem de Moraes

As prisões desta quinta foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e são um desdobramento da 6ª etapa da Unha e Carne, realizada em julho.

Na ocasião, Canella e Amim haviam sido alvo de buscas dentro de uma investigação sobre 96 postos de combustíveis no Grande Rio que movimentou, em 6 anos, R$ 7,6 bilhões em um suposto esquema de lavagem de dinheiro, com anuência de políticos.

Canella acabou preso naquele 7 de julho, pois a polícia encontrou um fuzil em seu carro. Esse episódio levou à Unha e Carne 7, no mês passado, quando o vereador do Rio de Janeiro Jorge Canella (União) foi preso por posse irregular de armas de fogo de uso restrito. Jorge não é parente de Márcio, mas adotou o sobrenome do padrinho.

Márcio Canella e Marcus Amim — Foto: Reprodução

Márcio Canella e Marcus Amim — Foto: Reprodução

Mandados

Nesta quinta, agentes saíram para cumprir 6 mandados de prisão e 16 de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Niterói, São Gonçalo, Petrópolis, Angra dos Reis e Armação dos Búzios.

Canella foi preso em casa, em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio.

Presos:

  • Christiano Gaspar Fernandes, inspetor da Polícia Civil e secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo
  • Giovanni Gaspar Fernandes, inspetor da Polícia Civil
  • José Carlos Alves de Souza Júnior, inspetor da Polícia Civil
  • Márcio Correia de Oliveira, o Márcio Canella, deputado estadual eleito
  • Marcus Vinicius Amim Fernandes, delegado e ex-chefe da Polícia Civil
  • Pablo Jukia Felix Ferreira, o Pablo Russo, inspetor da Polícia Civil

O delegado Glaucio Paz da Silva foi alvo de buscas.

Moraes também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão da atividade econômica de 112 empresas investigadas no esquema — a maioria, postos de gasolina.

A Corregedoria da Polícia Civil acompanhou o cumprimento dos mandados contra os policiais civis investigados.

“Além do crime de organização criminosa armada, os investigados responderão, na medida de suas responsabilidades, por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, venda ilegal de combustíveis e formação de cartel, além de outros que poderão surgir no decorrer das investigações”, detalhou a PF.

A ação se insere no contexto da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito do julgamento da ADPF 635/RJ, a ADPF das Favelas, que, dentre outras providências, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre relações de agentes públicos com facções criminosas.

O que dizem as defesas dos citados

Os advogados Rafael Alves de Oliveira e Sheila Lustoza, que representam Márcio Canella, disseram que ele confia em Deus e na Justiça e tem certeza de que os fatos serão esclarecidos.

O advgado Thiago Minagé, responsável pela defesa de Marcus Amim, informou que aguarda acesso ao cliente e à íntegra da decisão judicial para prestar esclarecimentos à imprensa e à sociedade.

O advogado Ubiratan Guedes, que representa os irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes, afirmou que ainda não teve acesso aos autos do processo e que os clientes estão surpresos com a prisão: “A única coisa que temos conhecimento é da prisão. Mais nada”, disse.

Segundo o advogado, os dois serão levados para a Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte.

A TV Globo tenta contato com os demais investigados.

A Unha e Carne 6

As investigações começaram com um relatório de inteligência que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) enviou à PF. O documento apontou que o grupo movimentou R$ 7,6 bilhões nos últimos 6 anos.

Em 7 de julho, na Unha e Carne 6, agentes saíram para cumprir, no total, 19 mandados de busca e apreensão.

Dias antes, em 2 de julho, o empresário Fernando Trabach Gomes, dono de postos de combustíveis, havia sido alvo de buscas na Unha e Carne 5. Em 2022, durante a campanha à reeleição do então governador Cláudio Castro (PL), postos de combustíveis de Trabach abasteceram a maior parte da frota que o então candidato ao governo do estado utilizou.

As buscas tinham como objetivo esclarecer as ligações de Trabach com Castro e com o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar.

Todas as fases da Unha e Carne

A Operação Unha e Carne teve 8 fases desde dezembro de 2025 e apurava, no início, um suposto vazamento de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV).

Segundo a PF, os dados sensíveis compartilhados teriam comprometido operações e beneficiado investigados ligados à facção criminosa.

A 1ª etapa da operação foi deflagrada em dezembro de 2025 e teve como alvo o então presidente da Alerj, o deputado Rodrigo Bacellar, hoje cassado e preso.

De acordo com a Polícia Federal, Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun, deflagrada em setembro, contra o CV. O principal beneficiado seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político da facção e preso na Operação Zargun.

Ainda segundo a investigação, o vazamento teria permitido a destruição ou ocultação de provas, frustrando a ação policial.

Bacellar chegou a ser preso preventivamente por decisão de Alexandre de Moraes, mas foi solto dias depois — após decisão tomada em plenário da Alerj —, com medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

Ainda em dezembro de 2025, a 2ª fase aprofundou as apurações sobre a origem dos vazamentos. Nessa etapa, a PF prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).

Segundo os investigadores, o vazamento teria partido do Judiciário federal. A suspeita é que o magistrado repassou informações a Bacellar, que, por sua vez, as transmitiu a TH Joias.

A Polícia Federal informou ter encontrado mensagens, registros de ligações e indícios de relação próxima entre o desembargador e o deputado, o que, segundo a investigação, indicaria troca de favores.

A 3ª fase foi deflagrada em 27 de março de 2026. Nessa etapa, Rodrigo Bacellar foi preso novamente, desta vez em casa, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio.

A nova prisão foi determinada por Alexandre de Moraes após a cassação do mandato do político pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no caso conhecido como escândalo da Ceperj, e após denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 16 de março.

Na 3ª fase, a Polícia Federal também passou a relacionar diretamente o caso à ADPF 635, apontando que as condutas investigadas poderiam comprometer ações do Estado no combate ao crime organizado no Rio.

A denúncia da PGR inclui, além de Bacellar, TH Joias, o desembargador Macário Júdice Neto e outros investigados. Segundo o órgão, há indícios de uma cadeia de proteção institucional ao crime organizado.

Na 4ª fase, de 5 de maio de 2026, o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso, suspeito de comandar um esquema de fraudes em procedimentos de compra de materiais e de aquisição de serviços, como reformas, no âmbito da Secretaria Estadual de Educação do RJ (Seeduc).

As irregularidades foram mostradas em uma série de reportagens no RJ2. As apurações que levaram à 4ª etapa revelaram direcionamentos das contratações realizadas por escolas estaduais vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da Seeduc — segundo a PF, uma zona de influência política de Rangel — para empresas previamente selecionadas e vinculadas ao esquema.

Na 5ª fase, em 2 de julho, a PF prendeu o pastor Márcio Poncio, investigado por ligação com a Máfia do Cigarro. Também foram cumpridos mandados de prisão contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e contra Rodrigo Bacellar — ambos já estavam encarcerados.

As investigações que levaram a essa etapa começaram em 2021 e miraram Adilsinho. Uma delas foi a Operação Smoke Free, de novembro de 2022. Em um dos endereços de Adilsinho, a PF encontrou listas de políticos — a TV Globo apurou que eram pelo menos 25. Os documentos estavam dentro de uma mala de couro na cabeceira da cama do bicheiro.

O Blog do Octavio Guedes, no g1, apurou que o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) aparece em uma das relações. Outro nome é o ex-deputado Alexandre Ramagem.

A PF não revelou nenhum nome, mas disse que esses agentes políticos são investigados por suspeita de receber doações de Adilsinho para a campanha de 2022.

Segundo a PF, as planilhas indicam “a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade vinculada à lavagem de capitais”.

“As listas chamaram a atenção dos investigadores por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio de Janeiro”, afirmou a Polícia Federal.

Em 2024, o g1 mostrou que a Máfia do Cigarro controlava, na época, ao menos 45 dos 92 municípios do Rio de Janeiro. Nesses lugares, só os maços produzidos pela quadrilha podiam ser vendidos.

Em 7 de julho, na 6ª fase, foram 19 mandados de busca, e Canella e Amim estavam entre os alvos. O foco era a rede de postos de combustíveis na Região Metropolitana do Rio supostamente usada como plataforma de lavagem de dinheiro, movimentando R$ 7,6 bilhões em 6 anos.

Canella não tinha um mandado de prisão contra si, mas foi preso em flagrante por posse ilegal de arma depois que agentes encontraram um fuzil no veículo dele.

Três dias depois, em 10 de julho, Moraes determinou a soltura de Canella, mas impôs medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica. Canella deixou a cadeia no dia seguinte. Em 23 de julho, o ministro revogou todas as restrições.

A 7ª fase, em 22 de setembro, mirou Jorge Canella, vereador do Rio de Janeiro. Os agentes foram cumprir um mandado de busca e apreensão dentro da investigação sobre o fuzil apreendido na prisão de Márcio Canella, mas acabaram prendendo Jorge em flagrante por posse irregular de armas de fogo de uso restrito — havia fuzis e submetralhadora na casa dele, em desacordo com a previsão legal.

Jorge Eduardo Barreto de Andrade Filho, o Jorge Canella, é coronel da Polícia Militar. O g1 apurou que o oficial conseguiu a cautela do armamento dentro da corporação.