Cotidiano
Aldeia do Alto Xingu em MT improvisa hospital, contrata médica e tem mortalidade zero por Covid-19
Médica de saúde da família pediu demissão de hospital em São Paulo para ser contratada pela Associação Índigena Kuikuro do Alto Xingu. Covid atingiu dezenas de índios da comunidade, cacique e até anciã de 90 anos. Todos sobreviveram
"Os Kuikuro estavam muito organizados. Organização é uma marca dessa comunidade. Eles usaram a medicina branca, os remédios que eu recomendei, mas não perderam a tradição e trouxeram as ervas que iriam precisar. Eles se prepararam, isso eu achei brilhante. Eles viram que o coronavírus chegaria e conseguiram se proteger ao máximo".
"Tudo foi acatado após o esforço das lideranças em conscientizar. É uma junção de fatores culturais. Eles não bebem, não fumam, não têm nenhum tipo de vício. Trabalham na roça, pescam e têm uma alimentação natural. Não têm um padrão de alimentação urbana. Não existem muitos casos de diabetes. Evitaram ir para a cidade, evitaram se aglomerar".
Fogo chegando
Antes de chegar à comunidade, a médica fazia chamadas em vídeo com os moradores da aldeia. No fundo da imagem, eles mostravam a fumaça das queimadas. Balbão e Yanama dizem que entre julho e o início de agosto foi o período de fogo intenso na região.
"Melhorou a situação da fumaça por aqui por enquanto, mas teve muita queimada. Fiquei muito preocupado com relação a isso, porque ia juntar com a pandemia. Alguns pacientes já estavam com dificuldade para respirar", disse Yanama.
"Na região do Alto Xingu temos bombeiros indígenas que lutam para apagar o fogo. Ligamos para a equipe do Prevfogo também, do governo, e eles fizeram contato para mais gente ajudar no combate", explicou a liderança.
A médica disse que as crianças ainda sentem os problemas respiratórios, com "quadros agudos, bronquite, asma". Os sintomas são consequência da fumaça e da poeira.
Mortes indígenas por Covid
De acordo com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), 739 indígenas morreram devido à Covid-19 até 12h10 desta sexta-feira (28). Os dados levam em consideração os relatos de associações e entidades diretamente ligadas às etnias, e mostram que 28.471 integrantes de 156 povos tiveram resultado confirmado para a doença.
O número é superior ao apresentado pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde. Os dados oficiais do governo apontam 376 mortes pelo novo coronavírus entre os povos, com 22.852 casos. Segundo a Apib, os indígenas moradores das cidades não estão contabilizados nos números da pasta e, por isso, além de outros fatores, o balanço é menor.