Cotidiano

JÚRI DÁ RESPOSTA À EXECUÇÃO DE ZAMPIERI: trio é condenado a quase 69 anos de prisão em Cuiabá

Após mais de 38 horas de julgamento, jurados condenam atirador, fornecedor da arma e coronel reformado apontado como integrante da trama; assassinato que abalou Mato Grosso abriu caminho para investigações sobre disputas milionárias, espionagem e suspeita

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM TJMT 02/10/2026
JÚRI DÁ RESPOSTA À EXECUÇÃO DE ZAMPIERI: trio é condenado a quase 69 anos de prisão em Cuiabá
Após três dias de julgamento, mais de 38 horas de trabalhos e a análise de um processo que ultrapassa 55 mil páginas, os três homens levados ao banco dos réus pela morte do advogado Roberto Zampieri | JOSI DIAS

Um dos crimes de maior repercussão dos últimos anos em Mato Grosso terminou com uma resposta pesada do Tribunal do Júri. Após três dias de julgamento, mais de 38 horas de trabalhos e a análise de um processo que ultrapassa 55 mil páginas, os três homens levados ao banco dos réus pela morte do advogado Roberto Zampieri foram condenados a penas que, somadas, chegam a 68 anos, 9 meses e 30 dias de prisão. A sentença foi proferida na madrugada desta sexta-feira (2), no Fórum de Cuiabá, encerrando uma etapa de um caso que começou com uma execução a tiros na porta de um escritório e acabou revelando uma investigação muito maior e de enorme repercussão institucional.

Antônio Gomes da Silva, apontado como o homem que efetuou os disparos contra Zampieri, foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias de reclusão. Hedilerson Fialho Martins Barbosa recebeu a maior pena: 25 anos de prisão. Segundo a acusação, ele forneceu a arma utilizada no homicídio. Já Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, coronel reformado apontado no processo como participante da articulação criminosa, foi condenado a 21 anos, 10 meses e 15 dias. As penas deverão começar a ser cumpridas em regime fechado, e a prisão preventiva dos três foi mantida. Como a condenação ocorreu em primeira instância, as defesas podem recorrer.

O Conselho de Sentença acolheu a tese apresentada pelo Ministério Público e reconheceu a responsabilidade dos três acusados pelo homicídio. Os jurados também reconheceram as qualificadoras submetidas ao julgamento, entre elas a prática mediante paga ou promessa de recompensa, o emprego de recurso que dificultou a defesa da vítima e a utilização de arma de fogo de uso restrito ou proibido.

O julgamento começou na terça-feira (29) e atravessou três dias de depoimentos, interrogatórios e intensos debates entre acusação e defesa. Sete jurados — quatro homens e três mulheres — tiveram a responsabilidade de decidir o destino dos acusados. Depois da votação em sala reservada, o juiz José Mauro Nagib Jorge anunciou as penas.

A acusação ficou a cargo dos promotores Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva Martins, do Núcleo de Defesa da Vida do Ministério Público de Mato Grosso, com participação do advogado Giovani Santin, vice-presidente da OAB-MT, como assistente de acusação. Entre as testemunhas ouvidas estiveram delegados que participaram das investigações e pessoas ligadas à vítima.

Durante os debates, um dos pontos explorados pelo Ministério Público foi o rastro financeiro que, segundo a acusação, estaria ligado à execução. Os promotores sustentaram que as provas demonstrariam pagamentos de R$ 124.250 antes do assassinato e outros R$ 60 mil depois da morte de Zampieri, valores que, conforme a tese acusatória apresentada aos jurados, estariam relacionados à contratação e execução do crime.

A acusação também levou ao plenário a suspeita de que Etevaldo teria solicitado valores entre R$ 500 mil e R$ 750 mil para que os envolvidos não revelassem às autoridades os nomes de supostos mandantes. Trata-se de alegação apresentada no contexto da acusação e das investigações, não de conclusão autônoma sobre terceiros que não estavam sendo julgados neste júri.

Ao defender a condenação, o promotor Samuel Frungilo chamou atenção para o volume de elementos reunidos no processo. “Eu tenho 27 anos de Ministério Público. Eu nunca vi um crime de recompensa e homicídio mercenário com tantas provas”, afirmou durante o julgamento.

O promotor Vinícius Gahyva Martins, por sua vez, destacou o planejamento atribuído aos envolvidos e a forma como o momento do ataque teria sido escolhido. “Planejaram e esperaram o melhor momento de vulnerabilidade da vítima para poder retirar o seu bem mais precioso, o direito de viver. O maior roubo que alguém pode sofrer é a interrupção do curso da sua existência”, declarou.

A execução ocorreu na noite de 5 de dezembro de 2023. Roberto Zampieri, então com 57 anos, deixava seu escritório no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá, quando foi surpreendido. Imagens de segurança registraram a aproximação do assassino. Conforme a investigação, Antônio Gomes aguardou a vítima e utilizou uma arma que teria sido escondida em uma caixa de presente. Zampieri foi atingido por diversos disparos dentro do próprio veículo e morreu no local.

As investigações apontaram que o assassino teria acompanhado a rotina do advogado durante semanas antes de executar o plano. Segundo a Polícia Civil, Antônio teria recebido R$ 40 mil para cometer o homicídio. Hedilerson, conforme a investigação, teria enviado a Cuiabá uma pistola calibre 9 milímetros registrada em seu nome e posteriormente entregue a arma utilizada no ataque.

A apuração policial também colocou no centro da investigação uma disputa judicial envolvendo duas fazendas em Paranatinga avaliadas em aproximadamente R$ 100 milhões. A Polícia Civil trabalhou com a hipótese de que o conflito pelas propriedades teria relação com a motivação do assassinato. Outros investigados foram apontados ao longo das apurações como possíveis participantes ou mandantes, mas essas responsabilidades não foram objeto da condenação dos três réus julgados agora e devem ser analisadas dentro dos respectivos procedimentos judiciais.

Mas a morte de Zampieri acabou produzindo consequências que ultrapassaram o próprio homicídio. A análise de dados encontrados no telefone celular do advogado desencadeou novas frentes de investigação, inclusive pela Polícia Federal, envolvendo suspeitas de negociações relacionadas a decisões judiciais. Essas apurações ganharam repercussão nacional e passaram a envolver suspeitas sobre relações entre advogados, empresários e integrantes do Judiciário. Eventuais responsabilidades dependem, porém, das investigações e decisões judiciais correspondentes.

Arquivo Página 12
Arquivo Página 12

Outra frente investigativa identificou um grupo que, segundo a Polícia Federal, utilizava a denominação “Comando C4” — “Comando de Caça Comunistas, Corruptos e Criminosos”. A PF investiga a suspeita de atuação do grupo em serviços clandestinos de espionagem e crimes sob encomenda, inclusive com participação atribuída a militares da ativa e da reserva. Conforme elementos divulgados da investigação, teriam sido encontradas tabelas com valores supostamente cobrados para monitorar diferentes tipos de autoridades.

O assassinato de Roberto Zampieri, portanto, deixou de ser apenas a investigação de um homem morto a tiros dentro de seu carro. O celular da vítima, as movimentações financeiras, as disputas judiciais e os elementos encontrados durante as diligências abriram sucessivas frentes de investigação que continuam produzindo desdobramentos.

Na madrugada desta sexta-feira, porém, uma etapa importante chegou ao fim. Antônio Gomes da Silva, Hedilerson Fialho Martins Barbosa e Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas saíram do Tribunal do Júri condenados. Quase três anos depois dos tiros que mataram Roberto Zampieri, os sete jurados de Cuiabá reconheceram a responsabilidade criminal dos três réus levados ao banco dos acusados.