Cotidiano
20 ANOS DEPOIS, A DOR VIRA REVOLTA: filha de vítima do voo 1907 denuncia “indignação total” e cobra Justiça por tragédia que matou 154 em MT
Rolf Gutjahr embarcou para uma viagem de trabalho e nunca voltou; duas décadas após colisão entre Boeing da Gol e jato Legacy, filha que tinha apenas 4 anos relembra o pai e lamenta desfecho judicial do caso
Vinte anos se passaram. Foram 154 mortos. Famílias destruídas. Uma operação gigantesca no meio da floresta de Mato Grosso. E, para quem perdeu alguém no voo 1907 da Gol, há uma pergunta que ainda provoca revolta: onde está a Justiça?
Nesta terça-feira (29), exatamente duas décadas depois de uma das maiores tragédias da história da aviação brasileira, Luiza Wills, filha do empresário Rolf Gutjahr, revelou o sentimento que carrega ao olhar para o desfecho do caso.
“Indignação total”
Luiza tinha somente quatro anos quando perdeu o pai.
Rolf, então com 54 anos, viajava a trabalho quando embarcou no Boeing da Gol que fazia o voo 1907. Ele estava entre as 154 pessoas que morreram depois que a aeronave colidiu no ar com um jato Legacy e despencou em uma região de mata em Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso.
Ninguém no Boeing sobreviveu.
Para Luiza, a passagem de duas décadas não conseguiu apagar a tristeza — e muito menos a sensação provocada pelo desfecho judicial.
“É lógico que a tristeza será para sempre, a saudade será para sempre, mas, da situação toda, é indignação. Não tem outra palavra que descreva melhor.”
Condenação, mas pena não foi cumprida
Os pilotos norte-americanos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paladino, foram indiciados e posteriormente condenados pela Justiça brasileira a quatro anos e quatro meses pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, na modalidade culposa.
Mas eles não chegaram a cumprir a pena no Brasil, segundo as informações que embasam esta reportagem.
Em maio de 2024, quase 18 anos depois da tragédia, a Justiça Federal declarou a prescrição da pena.
É esse desfecho que está no centro da indignação manifestada pela filha de Rolf.
Um choque no céu e 154 vidas perdidas
Era 29 de setembro de 2006.
O Boeing da Gol havia deixado Manaus com destino ao Rio de Janeiro e escala programada em Brasília. O Legacy havia partido de São José dos Campos, em São Paulo, com destino aos Estados Unidos, também com parada prevista em Manaus.
As duas aeronaves se encontraram no espaço aéreo sobre Mato Grosso.
O choque foi devastador.
O Legacy conseguiu continuar voando e pousar.
O Boeing da Gol caiu na região da Terra Indígena Capoto-Jarinã.
As 154 pessoas que estavam a bordo morreram.
O relatório final da investigação apontou fatores relacionados à atuação dos pilotos do Legacy e também ao controle de tráfego aéreo brasileiro.

Uma operação de guerra no meio da floresta
Depois da queda, começou uma das mais dramáticas operações de busca e resgate já realizadas no país.
A mata fechada e a dificuldade extrema de acesso fizeram com que militares levassem horas para chegar aos destroços.
As caixas-pretas foram encontradas dias depois.
O trabalho de busca se estendeu por aproximadamente 50 dias e mobilizou mais de 800 pessoas, entre militares e voluntários.
O último corpo localizado foi o do bancário Marcelo Paixão Lopes, identificado por DNA quase dois meses depois da queda.
A menina cresceu. a saudade ficou.
Rolf Gutjahr era empresário do setor industrial. Segundo Luiza, o pai viajava frequentemente para Manaus a trabalho e retornava para casa ao final da semana.
Naquela semana de setembro de 2006, ele não voltou.
Luiza cresceu sem o pai.
Hoje, aos 24 anos, olha para uma tragédia que atravessou praticamente toda a sua vida e vê, além da saudade, um processo judicial cujo resultado continua provocando revolta na família.
Foram 20 anos desde a colisão.
Duas décadas sem os 154 passageiros e tripulantes que embarcaram naquele Boeing.
Para Luiza, porém, o calendário não encerrou aquela história.
A dor permaneceu.
A saudade permaneceu.
E, ao completar 20 anos, a tragédia do voo 1907 continua resumida por ela em duas palavras: “Indignação total.”