Polícia
Atirador confessa execução de Zampieri no júri e choca ao dizer que ‘mataria de novo’: ‘Mandei para o inferno’
Antônio Gomes admite ter assassinado advogado em Cuiabá, revela monitoramento, arma escondida em caixa de presente e diz que não revelará supostos mandantes; declaração explosiva marca julgamento
Uma confissão fria, declarações explosivas e a recusa em revelar quem estaria por trás do assassinato marcaram o julgamento do caso Roberto Zampieri nesta quarta-feira (30), no Tribunal do Júri de Cuiabá. Apontado como o executor do advogado, Antônio Gomes da Silva, de 58 anos, admitiu diante dos jurados que matou Zampieri e provocou forte repercussão no plenário ao afirmar que voltaria a cometer o crime.
“Se precisasse matar, eu mataria de novo, porque ele é uma desgraça em Mato Grosso”, declarou o réu durante o interrogatório. Em outro momento, ao falar sobre a vítima, Antônio voltou a usar palavras duras: “Um corrupto que mandei para o inferno”.
As declarações são acusações feitas pelo próprio réu durante seu interrogatório e não representam conclusão judicial sobre a conduta de Zampieri.
Questionado pelo advogado de defesa Nilton Monteiro, Antônio tentou afastar a versão de que teria executado o advogado exclusivamente em troca de dinheiro. Segundo seu relato, o valor recebido teria sido utilizado para bancar despesas de deslocamento. Ele mencionou a quantia de “30”, sem deixar claro, naquele momento, se falava de R$ 30 ou R$ 30 mil, e chamou o montante de “dinheiro maldito”.
O acusado apresentou uma versão segundo a qual teria agido motivado por uma espécie de “missão” pessoal relacionada ao que considerava corrupção e problemas envolvendo disputas de terras em Mato Grosso.
O depoimento ganhou contornos ainda mais impressionantes quando Antônio passou a descrever a preparação para o assassinato. Ele contou que chegou a Cuiabá no dia 9 de novembro e começou a acompanhar os passos de Zampieri.
Segundo o próprio réu, para conseguir se aproximar do advogado no escritório localizado no bairro Bosque da Saúde, inventou uma história de que possuía um sobrinho com propriedades nos Estados Unidos.
Antônio afirmou ainda que chegou a buscar inspiração no cinema e em reportagens policiais para preparar a execução. Disse que utilizou o filme “O Poderoso Chefão” como referência para escolher roupas e compor sua aparência durante a preparação do crime.
A forma encontrada para transportar a arma também chamou atenção. Conforme seu relato no júri, uma pistola de calibre restrito foi colocada dentro de uma caixa decorada como se fosse um presente. A ideia, segundo ele, teria sido retirada de uma reportagem sobre um assalto.
No dia do assassinato, Antônio afirmou ter permanecido por mais de 20 minutos na calçada aguardando Zampieri deixar o escritório.
Foi justamente nesse período que ocorreu uma situação narrada pelo próprio acusado aos jurados. Uma pessoa teria passado pelo local e o advertido sobre os riscos da região: “O senhor tome cuidado, que aqui é perigoso”.
A resposta não foi dada naquele momento, mas Antônio contou no plenário o que pensou: “Mal sabia ela que o perigo era eu”.
Quando Zampieri saiu do escritório, entrou no veículo e deu a partida, Antônio efetuou os disparos que mataram o advogado.
O réu também revelou que o plano poderia ter sido executado anteriormente. Segundo sua versão, pretendia matar Zampieri durante uma visita a uma fazenda, mas o advogado teria enviado outra pessoa em seu lugar. Enquanto permaneceu em Cuiabá, afirmou ter monitorado dois escritórios utilizados pela vítima.
Apesar de admitir a execução e detalhar a preparação do assassinato, Antônio colocou uma barreira justamente sobre uma das perguntas centrais do processo: quem teria ordenado a morte de Roberto Zampieri?
O acusado se recusou a revelar nomes.
Questionado sobre uma fotografia de Zampieri que teria recebido quando ainda estava em Belo Horizonte, Minas Gerais, e sobre contatos telefônicos mantidos com um interlocutor descrito como alguém de sotaque italiano, Antônio evitou identificar quem estaria do outro lado.
Ao ser perguntado diretamente se o coronel reformado Etevaldo Caçadini teria dado as ordens, foi taxativo: “Já falei que não vou dizer nomes”.
O réu também afirmou ter aconselhado Hedilerson Fentanes a não se envolver na situação para evitar consequências aos filhos pequenos dele. Antônio alegou ainda ter sofrido pressão psicológica de policiais quando foi preso.
A tensão não ficou restrita às declarações do acusado. Durante o interrogatório, o advogado Nilton Monteiro e o promotor de Justiça Vinícius Gahyva protagonizaram um forte desentendimento no plenário e chegaram a trocar ordens de “cale-se” antes que os trabalhos prosseguissem.
A confissão do executor, portanto, não encerra as questões que cercam um dos crimes de maior repercussão em Mato Grosso. Pelo contrário: ao admitir que matou Zampieri, descrever detalhes da preparação e, ao mesmo tempo, se recusar a apontar eventuais autores intelectuais, Antônio mantém aberta uma das principais perguntas que atravessam o caso: quem, segundo a acusação, estaria por trás da execução e qual teria sido a verdadeira motivação do assassinato?
O julgamento prossegue no Fórum de Cuiabá, com os debates entre Ministério Público e defesa antes da decisão do Conselho de Sentença.