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Por que só a Rússia manteve armas nucleares após a queda da União Soviética?

Ameaça de segunda Chernobyl, planos secretos e negociações complicadas

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM AGÊNCIA RUSSA 25/03/2022
Por que só a Rússia manteve armas nucleares após a queda da União Soviética?
Foto: Agência Russa

O colapso da União Soviética, em 1991, levou a diversos problemas: queda da economia, renascimento da máfia, pirâmides financeiras...

Mas o resto do mundo estava mais preocupado ainda era com o futuro das armas nucleares soviéticas após o fim da superpotência mundial.

Todas as ogivas nucleares da ex-URSS se mantiveram em quatro países independentes: RússiaBelarus, Cazaquistão e Ucrânia.

Inicialmente, o então presidente russo Boris Yeltsin declarou que a Rússia não teria controle individual sobre todo o arsenal nuclear da URSS.

Em 21 de dezembro de 1991, todos os quatro países que herdaram as armas nucleares da União Soviética assinaram um tratado de controle conjunto na capital do Cazaquistão.

Nove dias depois, os representantes dos quatro países reuniram-se novamente, desta vez, em Minsk. Ali, eles assinaram outro tratado, sobre a criação de um comando conjunto de "Forças Estratégicas". Em 25 de dezembro, entre as duas reuniões, Mikhail Gorbachev, que tinha deixado o cargo de líder da URSS, entregou a pasta nuclear com o controle das armas nucleares a Boris Yeltsin.

Mikhail Gorbachev exibe o decreto renunciando ao controle de armas nucleares ao presidente russo Boris Yeltsin após sua assinatura no Kremlin em Moscou em 25 de dezembro de 1991, — Foto: Arquivo AP

Mikhail Gorbachev exibe o decreto renunciando ao controle de armas nucleares ao presidente russo Boris Yeltsin após sua assinatura no Kremlin em Moscou em 25 de dezembro de 1991, — Foto: Arquivo AP

Segundo o acordo, qualquer decisão de lançar as armas nucleares deveria ser tomada pela Rússia obrigatoriamente em coordenação com os líderes de Ucrânia, Cazaquistão e Belarus e com a permissão dos outros estados-membros da CEI (Comunidade de Estados Independentes).

No entanto, segundo Vilen Timoschuk, coronel da 43º divisão de mísseis, uma das unidades mais poderosas no setor, “nem o presidente da Ucrânia, ou qualquer outro país podia influir sobre os lançamentos de mísseis [nucleares], porque os códigos de lançamento eram emitidos apenas a partir do posto de comando central, localizado na Rússia".

Os países ocidentais e a própria Rússia não estavam satisfeitos com a situação.

O então Secretário de Estado dos EUA, James Baker, relembrou a situação em entrevista à revista Forbes Rússia: “Yeltsin, com uma honestidade sem precedentes, me explicava que como o programa nuclear e de armas nucleares se desenvolveria dentro da Comunidade de Estados Independentes”.

Os Estados Unidos foram os principais mediadores para a resolução da crise nuclear, sugerindo uma resolução diferente: todo o arsenal nuclear deveria permanecer apenas na Rússia.

"Realmente, queríamos lidar com apenas um país, não com os quatro. Não queríamos acabar com mais quatro países com armas nucleares", disse Baker.