Ucrânia lança contra-ataques e retoma vilarejos no país
Forças ucranianas recuperaram alguns vilarejos a leste de Kharkiv e a noroeste de Mariupol, ao mesmo tempo que mísseis russos atingiram a cidade de Lviv no sábado (26), nos desdobramentos mais recentes da Guerra da Ucrânia
PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM CNN27/03/2022
Foto: CNN
Forças ucranianas recuperaram alguns vilarejos a leste de Kharkiv e a noroeste de Mariupol, ao mesmo tempo que mísseis russos atingiram a cidade de Lviv no sábado (26), nos desdobramentos mais recentes da Guerra da Ucrânia.
O administrador regional de Kharkiv, Oleg Synegubov, disse que várias aldeias ao redor de Malaya Rogan foram retomadas pelas forças ucranianas. As aldeias ficam a cerca de 20 quilômetros do centro de Kharkiv, no oeste da Ucrânia, que foi quase cercada por forças russas desde as primeiras semanas da invasão.
Um vídeo verificado pela CNN Internacional mostra tropas ucranianas no controle de Vilkhivka, próximo a Kharkiv, um dos vilarejos a cerca de 32 quilômetros da fronteira russa.
O sucesso das forças ucranianas em torno de Kharkiv foi espelhado mais ao norte, perto da cidade de Sumy, onde as tropas ucranianas libertaram vários vilarejos, de acordo com vídeos geolocalizados e verificados pela CNN Internacional.
Um contra-ataque separado no sul do país também levou à libertação de duas aldeias das forças russas cerca de 103 km a noroeste de Mariupol, segundo a administração militar regional de Zaporizhzhia.
Ao mesmo tempo, militares russos confirmaram neste domingo (27) que foram feitos ataques a depósitos de combustível em Lviv e nos arredores de Kiev no sábado – o argumento russo é que o alvo seria suprimentos de combustível para tropas ucranianas. O porta-voz do Ministério da Defesa russo, Igor Konashenkov, também afirmou que o alvo era um local de armazenamento de mísseis em Kiev, a 30 km de distância da cidade.
Pelo menos cinco pessoas ficaram feridas depois que pelo menos dois mísseis atingiram Lviv, cidade no oeste da Ucrânia que, até recentemente, estava sendo poupada do pior ataque brutal da Rússia.
Mais de 1.100 civis já morreram na guerra, diz ONU
O Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) informou neste sábado (26) que a guerra na Ucrânia já provocou a morte de 1.104 civis entre os dias 24 de fevereiro e 25 de março. Desse total, 96 eram crianças.
A organização informou ainda que os ataques promovidos pelas forças russas, conduzidas pelo presidente Vladimir Putin. Deixaram 1.754 civis feridos, sendo 124 crianças. Ao todo, portanto, somando mortos e feridos, são 2.858 vítimas.
Ainda de acordo com o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, a maioria das pessoas atingidas foi vitimada por bombardeios e ataques aéreos.
Destaques das últimas 24 horas
Forças russas atacam cidade de Lviv, no oeste da Ucrânia; prefeito pede defesa aérea
Após fala de Biden, Casa Branca diz não querer mudança de regime na Rússia
Biden chama Vladimir Putin de “açougueiro” e destaca importância da estabilidade na Europa
Forças russas fizeram neste sábado uma ofensiva contra uma instalação de pesquisa nuclear na cidade de Kharkiv, informou o parlamento ucraniano em um post no Twitter.
“Atualmente, é impossível estimar a extensão dos danos devido a hostilidades que não param na área da instalação nuclear”, disse o post citando a Inspetoria Reguladora Nuclear do Estado.
Kharkiv é a segunda maior cidade da Ucrânia e está sob ataques constantes das tropas russas desde o início da invasão.
Veja dez imagens que marcaram a guerra na Ucrânia
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Após o presidente Vladimir Putin fazer um pronunciamento autorizando uma "operação militar especial" na Ucrânia, primeiras explosões foram registradas na capital Kiev na quinta-feira, 24 de fevereiro
Crédito: Gabinete do Presidente da Ucrânia
Jornalistas trabalham dentro de bunker na Ucrânia
Uma equipe da CNN Portugal teve de fazer adaptações na rotina de trabalho para conseguir transmitir com segurança as informações vindas da Ucrânia. Desde o dia 24 de fevereiro, o país do Leste Europeu está sob ataques das forças russas, lideradas pelo presidente Vladimir Putin.
Os jornalistas improvisaram uma redação em um imóvel localizado em cima de um abrigo subterrâneo. O espaço também está sendo usado como abrigo temporário para os profissionais, já que não há condições seguras para que a equipe fique hospedada em um hotel.
Quando há emissão de um alerta de novos ataques, os profissionais descem para o abrigo e esperam lá até que seja possível voltar para a redação em segurança.
Ao saírem para reportagens externas, os jornalistas precisam recorrer a equipamentos de segurança, como coletes à prova de balas e capacetes.
Ataques mostram irritação de Putin com viagem de Biden
Em entrevista à CNN neste sábado (26), a professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Barbara Motta falou sobre a visita do presidente Joe Biden à Polônia. Para ela, os ataques ocorridos neste sábado na região de Lviv, cidade ucraniana que fica perto da fronteira com o país visitado por Biden, demonstram a oposição dos russos em torno da viagem do líder norte-americano.
“Em relação a Lviv especificamente, parece que os ataques seguem outra lógica, por ser uma cidade muito próxima da Polônia. E considerando que o presidente Biden estava na Polônia, eu considero que os ataques que vimos hoje em Lviv são um jeito de demostrar a insatisfação, a oposição da Rússia em relação à viagem do presidente Biden, seja para conversar com a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte], seja para conversar com a União Europeia, mas, especificamente, pela conversa com o presidente da Polônia”.
Putin é chamado de “ditador” por Biden
Em pronunciamento na noite deste sábado (26), pelo horário local de Varsóvia, na Polônia (tarde de sábado, pelo horário de Brasília), o presidente norte-americano, Joe Biden, chamou Vladimir Putin de “ditador” e atacou o presidente russo pela operação do Kremlin que levou à Guerra na Ucrânia, dizendo que Putin “não pode continuar no poder”. Ao mesmo tempo, Biden direcionou palavras especialmente aos cidadãos russos, afirmando que a população não é considerada inimiga do Ocidente. O Kremlin rejeitou as falas de Biden.
No discurso diante do Castelo Real de Varsóvia, que durou cerca de 25 minutos, Biden fez diversas referências históricas, citando a Segunda Guerra Mundial, os movimentos democráticos na Polônia e em outros países do antigo bloco socialista que desafiaram a União Soviética. O presidente dos EUA ainda lembrou do papa João Paulo 2º, polonês de nascimento, no começo e no fim de sua fala.
Em um determinado momento, depois de fazer diversas críticas às ações do Kremlin – e ressaltou a eficácia das sanções econômicas contra a Rússia –, Biden direcionou a fala aos cidadãos do país.
O porta-voz-chefe do Kremlin, Dmitry Peskov, rejeitou a declaração do presidente dos Estados Unidos. “Não cabe a Biden decidir. O presidente da Rússia é eleito pelos russos.”
Casa Branca e a embaixadora da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte)
“Açougueiro”, diz Joe Biden sobre o presidente russo
Ao sair do encontro com refugiados na Polônia, Biden falou com a imprensa e xingou Vladimir Putin ao ser questionado sobre o que ele acha da atitude do presidente da Rússia sobre a Ucrânia. “Ele é um açougueiro”, declarou o presidente dos EUA.
Biden disse aos jornalistas que falou com crianças e ouviu delas pedidos de orações para familiares como avôs e irmãos. “Me lembro de quando se tem alguém em uma zona de guerra você reza todos os dias, não espera um telefonema”, afirmou o líder norte-americano.
Um dos questionamentos a Biden na saída do encontro com os refugiados foi sobre Mariupol, cidade portuária da Ucrânia que é um dos principais alvos dos ataques das forças russas. “Eles não têm mais nada lá, é inacreditável”, afirmou Biden.
O Kremlin respondeu a declaração de Biden informando que o novo comentário do presidente dos EUA “diminui a possibilidade de reparar relações”.
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Sírios se reúnem na cena de uma explosão de bomba de barril encenada pela Força Aérea Síria em 24 de dezembro de 2013 em Aleppo, Síria
Crédito: Getty Images
Biden reforça importância da estabilidade na Europa
Mais cedo, o presidente norte-americano participou de um encontro com Andrzej Duda, chefe do Executivo da Polônia, em Varsóvia. Na reunião, no palácio presidencial do país, Biden destacou a importância, para os Estados Unidos, da estabilidade na Europa e disse que os membros da Otan precisam se manter juntos.
A visita de Biden à Polônia, que faz fronteira com a Ucrânia, é parte do contexto da guerra que aflige o país vizinho –a invasão russa ao território ucraniano completou um mês nesta semana.
Presidente dos EUA cita compromisso “sagrado” da Otan
Biden disse a seu colega polonês Andrzej Duda que vê a garantia do Artigo 5º da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), de defesa mútua entre os estados membros como um compromisso “sagrado”.
“O mais importante é que a Otan fique completamente unida, e não haja separação. O que quer que a gente faça, precisamos fazer em uníssono. Estou confiante que Putin contava com a divisão da Otan, a separação entre os lados ocidental e oriental, baseado na história das nações. Mas ele não conseguiu fazer isso: nós continuamos juntos”, completou o presidente.
Ainda em Varsóvia, Biden se encontrou com Dmytro Kuleba e o ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov. Também participaram do encontro o secretário de Estado Antony Blinken e o secretário de Defesa dos EUA Lloyd Austin. “Hoje recebemos promessas dos Estados Unidos sobre como nossa cooperação em defesa evoluirá”, disse Kuleba após o encontro.
Logos da Otan na sede da aliança militar em Bruxelas / Yves Herman/Reuters
Casa Branca diz que Biden não pediu mudança de regime na Rússia
Uma autoridade da Casa Branca informou que o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, não pediu uma mudança de regime na Rússia quando disse neste sábado que o presidente russo, Vladimir Putin, “não pode permanecer no poder”.
“O argumento do presidente foi que Putin não pode exercer poder sobre seus vizinhos ou sobre a região. Ele não estava discutindo o poder de Putin na Rússia ou a mudança de regime”, disse o funcionário após o discurso do presidente norte-americano em Varsóvia.
Rússia é acusada de crimes de guerra por invasão à Ucrânia
As forças armadas russas claramente não estão atingindo seus objetivos na Ucrânia, os ataques russos têm causado enorme sofrimento nos civis e destruição material de alvos não militares, por isso, a Rússia é acusada de crimes de guerra.
O impacto político na Rússia caso o país seja condenado por estes crimes foi o tema do painel mediado pelo analista de Internacional da CNN Brasil Lourival Sant’Anna neste sábado.
Grupo de refugiados chega a São Paulo
Cerca de 40 refugiados da guerra na Ucrânia chegaram ao Brasil na manhã deste sábado. Eles foram recebidos por voluntários no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e serão abrigados na cidade de São José dos Campos, no interior do estado, onde devem receber suporte material e emocional.
Outro grupo de cerca de 30 pessoas chegou no país em 18 de fevereiro. Eles foram levados a uma chácara no interior do Paraná.
Rússia diz ter encerrado “primeira etapa” da guerra na Ucrânia
Um alto general russo afirmou nesta sexta-feira (25) que a “primeira etapa” do plano militar da Rússia na Ucrânia está concluída e que, agora, o foco é atingir o leste do país vizinho.
“Em geral, as principais tarefas da primeira etapa da operação foram concluídas”, disse o coronel-general Sergei Rudskoy, primeiro vice-chefe do Estado-Maior da Rússia, em um pronunciamento nesta sexta.
“O potencial de combate das forças armadas da Ucrânia foi significativamente reduzido, permitindo-nos, enfatizo novamente, concentrar os principais esforços em alcançar o objetivo principal – a libertação de Donbass”, disse o militar, referindo-se à região ucraniana controlada por separatistas.
Os comentários de Rudskoy ocorrem no momento em que os avanços da Rússia parecem ter parado nas principais cidades ucranianas, como Kiev e Kharkiv. A Rússia também não conseguiu alcançar a superioridade aérea na Ucrânia e sofreu grandes perdas de pessoal desde o início da invasão.
Baixas nas tropas russas
As forças armadas russas disseram, em uma coletiva nesta sexta, que 1.351 militares haviam sido mortos na Ucrânia e 3.825 haviam sido feridos –a primeira grande atualização de baixas desde 2 de março. “Infelizmente, durante a operação militar especial, houve perdas entre nossos camaradas”, disse Sergei Rudskoy.
“Até hoje, 1.351 militares morreram, 3.825 foram feridos. O Estado assumirá a responsabilidade de apoiar as famílias, criar as crianças para receber educação superior, para o reembolso total dos empréstimos e para resolver a questão da moradia”, completou.
A última atualização oficial sobre as baixas de soldados ucranianos foi informada pelo presidente Volodymyr Zelensky, que disse à imprensa, no dia 12 de março, que 1.300 soldados ucranianos haviam sido mortos desde o início da invasão russa. Além disso, segundo as últimas atualizações da ONU, o conflito já deixou pelo menos 1.035 mortes de civis do lado ucraniano e ao menos 3,6 milhões de cidadãos que viviam na Ucrânia deixaram o país.
Veja coletânea de imagens da invasão da Ucrânia:
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Invasão começou na quinta-feira, 24 de fevereiro, com bombardeios em diversas cidades da Ucrânia. Na imagem, uma explosão ocorre na capital Kiev
Crédito: Gabinete do Presidente da Ucrânia
Qual é o tamanho dos exércitos da Rússia e Ucrânia?
A realidade é que há uma grande diferença entre o exército ucraniano e o exército russo. “Este não é o mesmo exército russo que estava em ruínas logo após a Guerra Fria“, diz o analista Jeffrey Edmonds, do Conselho de Segurança Nacional dos EUA.
“É um exército muito móvel, bastante moderno e bem treinado, com uma força aérea muito saudável, grandes forças terrestres, muito controle de artilharia, navios pequenos com muita capacidade para missões de ataque ao solo”. Veja comparação abaixo:
ORÇAMENTO MILITAR DE 2021
Ucrânia: U$ 4,1 bilhões
Rússia: US$ 45,3 bilhões
TROPAS ATIVAS
Ucrânia: 219 mil soldados
Rússia: 840 mil soldados
AERONAVES DE COMBATE
Ucrânia: 170
Rússia: 1.212
HELICÓPTEROS DE ATAQUE
Ucrânia: 170
Rússia: 997
TANQUES DE GUERRA
Ucrânia: 1.302
Rússia: 3.601
ARMAMENTO ANTIAÉREO
Ucrânia: 2.555
Rússia: 5.613
Resumo para entender o conflito
Após meses de escalada militar e intemperança na fronteira com a Ucrânia, a Rússia atacou o país do Leste Europeu. No amanhecer do dia 24 de fevereiro, as forças russas começaram a bombardear diversas regiões do país.
O presidente russo, Vladimir Putin, autorizou uma “operação militar especial” na região de Donbass (ao Leste da Ucrânia, onde estão as regiões separatistas de Luhansk e Donetsk, as quais ele reconheceu independência).
O que se viu nos dias a seguir, porém, foi um ataque a quase todo o território ucraniano, com explosões em várias cidades, incluindo a capital Kiev.
No dia da invasão, Putin se justificou por uma declaração gravada exibida na TV. O russo afirmou haver um “genocídio” em curso no leste ucraniano, promovido por tropas “neonazistas” do país contra russos étnicos e separatistas da região.
O líder russo afirmou ainda que não aceitará nenhum tipo de interferência estrangeira. O Ocidente, no entanto, aplicou sanções financeiras pesadas aos russos.Equipes de resgate trabalham no local do acidente da aeronave Antonov das Forças Armadas da Ucrânia na região de Kiev / 24/02/2022 Serviço de Emergência da Ucrânia/Divulgação via REUTERS
A escalada no conflito de anos entre a Rússia e a Ucrânia desencadeou a maior crise de segurança no continente desde a Guerra Fria, levantando o espectro de um confronto perigoso entre as potências ocidentais e Moscou.
A Rússia afirmou que só irá parar com os ataques se suas “condições” forem aceitas pela Ucrânia. Na lista, estão uma mudança da Constituição do país para resguardar neutralidade em relação à adesão em blocos, além do reconhecimento da Crimeia como território russo e das repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk como territórios independentes.
A Ucrânia recebeu uma grande onda de apoio internacional de países tanto no âmbito militar — com diversas nações ocidentais enviando armamentos, drones, sistemas de defesa contra ciberataques e outros — quanto no repúdio de instituições globais e de grande parte do setor privado aos ataques.
Com a Rússia, um dos principais pontos discutidos é uma garantia de segurança por parte do país vizinho, já que esta não foi a primeira vez que a Ucrânia teve o território invadido e cobiçado. O presidente ucraniano chegou a propor até a criação de uma nova aliança internacional visando assegurar a paz em territórios invadidos.
O conflito mudou cenário geopolítico e é maior crise humanitária em anos na Europa. Confira os dez pontos definitivos para entender a guerra.