Mundo

Ucranianos oferecem neutralidade em troca de garantias de segurança; Rússia diz que reduzirá ataques a Kiev

A rodada desta terça-feira (29) de negociações entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul, na Turquia, terminou sem um “acordo carimbado”, mas com avanços

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM CNN 29/03/2022
Ucranianos oferecem neutralidade em troca de garantias de segurança; Rússia diz que reduzirá ataques a Kiev
Foto: Murat Cetinmuhurdar/Presidência/Divulgação via REUTERS
A rodada desta terça-feira (29) de negociações entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul, na Turquia, terminou sem um “acordo carimbado”, mas com avanços. Segundo o conselheiro presidencial ucraniano, Mykhailo Podolyak, foi apresentada uma proposta de neutralidade do país em troca de garantias de segurança. Também foram discutidos um possível cessar-fogo e a situação da Crimeia. As negociações ainda prosseguirão por mais duas semanas. Acompanhe acima ao vivo à programação da CNN. Pouco após o encontro no palácio presidencial Dolmabahce, com a presença do presidente turco, Tayyip Erdogan, um membro do ministério da Defesa da Rússia anunciou que o país diminuirá “drasticamente” as atividades militares perto de Kiev e Chernihiv. Sobre a reunião, Podolyak explicou que a neutralidade da Ucrânia poderia ser alcançada após a garantia de segurança internacional. Outros países poderiam ser envolvidos para garantir o acordo. Um status neutro significa que a Ucrânia não se juntará a alianças militares ou hospedará bases militares estrangeiras. Veja todas as exigências do encontro. A Ucrânia também apresentou a proposta de garantir consultas sobre o território da Crimeia — anexado pela Rússia em 2014 — pelos próximos 15 anos. Já o negociador russo, Vladimir Medinsky, disse que as conversas foram produtivas e que as demandas ucranianas seriam levadas para conhecimento do presidente russo, Vladimir Putin. Sobre um encontro entre Putin e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, Medinsky afirmou que isso só acontecerá quando um “acordo for carimbado”. As conversas duraram cerca de quatro horas com intervalos ocasionais. Em um discurso televisionado aos negociadores antes do início do encontro, Erdogan pediu um cessar-fogo imediato na guerra que começou no mês passado. Segundo a TV ucraniana, a reunião começou sem aperto de mãos entre os negociadores.
Delegações russa e ucraniana se encontram em Istambul, na Turquia, para mais uma rodada de negociações sobre a guerra na Ucrânia / Arda Kucukkaya/Anadolu Agency via Getty Images

Destaques das últimas 24 horas

  • Rússia diz que reduzirá “drasticamente” atividade militar perto de Kiev e Chernihiv
  • Governos da Rússia e Ucrânia realizaram nova reunião nesta terça (29), ucranianos pediram garantias de segurança em troca de neutralidade
  • Tropas russas cometem “crime contra a humanidade” em Mariupol, diz o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky
  • Guerra já causou prejuízo de mais de US$ 560 bilhões à Ucrânia
  • Putin quer dividir a Ucrânia como as Coreias, diz chefe militar do país
  • Pelo menos 1.151 civis morreram em decorrência da guerra na Ucrânia, diz ONU 
  • Biden diz que comentário sobre Putin sair do poder foi “indignação moral”
  • Rússia diz que reduzirá drasticamente atividade militar em Kiev

    Rússia decidiu cortar drasticamente sua atividade militar focada em Kiev e Chernihiv na Ucrânia, disse seu vice-ministro da Defesa nesta terça-feira (29). O anúncio acontece após conversas entre equipes de negociação russas e ucranianas em Istambul. O Estado-Maior Geral das Forças Armadas da Ucrânia afirmou anteriormente que “certas unidades” das forças armadas da Rússia estão se retirando das frentes de batalha na capital, Kiev, e da cidade de Chernihiv, no norte.
    Soldado ucraniano em local de ataque a shopping center em Kiev durante invasão da Ucrânia pela Rússia / Foto: Reuters

    Foguete causa buraco em prédio do governo de Mykolaiv

    Pelo menos três pessoas morreram e 22 ficaram feridas nesta terça-feira (29) quando um foguete atingiu o prédio da administração regional na cidade portuária de Mykolaiv, no sul da Ucrânia, informou o serviço de emergências ucraniano. Em um post online, o órgão disse que 18 dos feridos foram retirados dos escombros por equipes de resgate que continuam trabalhando no local. Uma imagem mostrava um grande buraco na lateral do prédio. Testemunhas da Reuters viram a destruição à distância e ambulâncias e carros de bombeiros indo para o local. A área foi isolada pelas autoridades ucranianas.
    Imagem mostra buraco aberto por foguete russo em sede do governo de Mykolaiv, no sul da Ucrânia. / Reprodução Reuters

    Tropas russas cometem “crime contra a humanidade” em Mariupol, diz Zelensky

    O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky classificou as ações da Rússia na cidade de Mariupol como “crime contra a humanidade” nesta terça-feira (29), enquanto discursava para o parlamento dinamarquês por uma chamada de vídeo. “A cidade de Mariupol está bloqueada pelo exército russo e mais de 100 mil pessoas continuam lá. Elas têm que derreter neve para obter água, não há condições de entregar ajuda humanitária — tudo é bloqueado. Mais de 90% dos edifícios foram destruídos”, disse. “O que as tropas russas estão fazendo em Mariupol é um crime contra a humanidade”. As declarações do presidente ocorreram no mesmo momento em que uma nova rodada de negociações com delegações de ambos países ocorria na Turquia.

    Ataques e contra-ataques

    As forças ucranianas dizem realizar nesta terça (29) contra-ataques em regiões próximas a capital, Kiev. A cidade de Irpin, a oeste da capital, estaria sob bombardeios, disse Vadym Denysenko, conselheiro do ministro do Interior da Ucrânia, em uma transmissão ao vivo pela televisão. “Na região de Kiev, depois da vila de Lukianivka, onde houve batalhas muito ferozes há alguns dias, libertamos a vila de Rudnytske”, disse ele. “Ou seja, estamos nos entrincheirando. Estamos começando a passar para certos contra-ataques”. A CNN não conseguiu verificar imediatamente essa afirmação, mas a mídia ucraniana transmitiu imagens de Lukianivka. Na segunda-feira, as autoridades locais disseram que o subúrbio de Irpin, a oeste de Kiev, foi retomado pelas forças ucranianas. “Estamos nos entrincheirando lá e limpando a cidade”, disse Denysenko. “À noite, infelizmente, o bombardeio voltou a acontecer. Vimos que a artilharia de foguetes estava sendo disparada. Agora estamos esclarecendo a informação.” Além disso, na cidade portuária de Mykolaiv, no sul da Ucrânia, um foguete russo atingiu o prédio da administração regional nesta terça-feira, prendendo 11 pessoas sob os escombros, disse o governador local, Vitaliy Kim. Uma imagem mostrava um grande buraco na lateral do prédio. Testemunhas da Reuters viram a destruição à distância, assim como ambulâncias e carros de bombeiros indo para o local. A área foi isolada pelas autoridades ucranianas. As forças russas atacaram os portos do sul da Ucrânia, incluindo Kherson, Odesa, Mykolaiv e Mariupol, enquanto tentam isolar a Ucrânia do Mar Negro e estabelecer um corredor terrestre da Rússia à Crimeia, a península que a Rússia anexou em 2014.
    Carro destruído em meio aos escombros de uma universidade atingida por ataques russos em Kharkiv, na Ucrânia
    Carro destruído em meio aos escombros na Ucrânia / Stringer/Anadolu Agency via Getty Images

    Vídeo: Zelensky diz que Ucrânia está pronta para negociar neutralidade

    Biden nega se retratar sobre comentário contra Putin

    O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou na segunda-feira que não voltou atrás em suas declarações de que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, não pode permanecer no poder. O líder americano destacou que as declarações expressaram a sua “indignação moral”, e não uma vontade de mudança de regime. No último sábado (26), durante uma visita à Polônia, Biden disse que Putin não deveria mais permanecer no poder. O presidente americano ainda chamou Putin de “ditador” e atacou o presidente russo pela operação do Kremlin que levou à Guerra na Ucrânia. “Não estou voltando atrás em nada”, disse Biden durante pronunciamento na Casa Branca, enfatizando que seu comentário não estava expressando uma vontade de mudança de política, mas sim uma opinião com base em suas emoções do dia. “Eu estava expressando a indignação moral que senti em relação à maneira como Putin está lidando e as ações desse homem”. Em resposta, o Kremlin disse estar preocupado com os comentários do presidente dos EUA, disse o porta-voz Dmitry Peskov na segunda-feira. “Essas declarações certamente estão causando preocupação”, disse Peskov na segunda em uma teleconferência com jornalistas quando questionado sobre os comentários de Biden.

    Empresa ucraniana de telecom é alvo de ataque hacker

    A Ukrtelecom, uma importante provedora ucraniana de internet e linhas telefônicas, foi alvo de um “poderoso ataque cibernético” na segunda-feira (28), disseram autoridades ucranianas. O ataque cibernético foi “neutralizado” e, à medida que a recuperação do hack continua, foi dada prioridade à manutenção dos serviços de comunicação para os militares da Ucrânia, de acordo com um tweet do Serviço Estatal de Comunicações Especiais e Proteção de Informações da Ucrânia. Hackers no início deste mês causaram interrupções em um provedor de serviços de internet ucraniano Triolan, que tem clientes nas principais cidades.
    Governo brasileiro teve diversos sites atacados por hackers no ano passado
    Empresa foi alvo de poderoso ataque cibernético / Mati Mango / Pexels

    Situação de Chernobyl

    No domingo (27), a vice-primeiro-ministra ucraniana, que tem o comando dos territórios interditados de Chernobyl, chamou a atenção para o perigo que se acumula naquela região, e fez um pedido à Organização das Nações Unidas (ONU) para que envie uma missão internacional ao local, para avaliar os riscos. Em sua conta do Telegram, Iryna Vereshchuk acusou as forças invasoras de continuarem a militarizar a zona de exclusão de Chernobyl. A ocupação “irresponsável” da central, famosa pelo maior incidente nuclear da história, aumenta o risco de fuga de radiação, que poderá atingir toda a Europa, alertou Vereshchuk. Sem informações seguras sobre o que está acontecendo no local, que está sob controle dos russos desde o primeiro dia de guerra, a governante ucraniana apelou às Nações Unidas para que enviem uma missão de peritos capaz de avaliar os riscos. Segundo a vice-primeira-ministra ucraniana, são vários os perigos que a central de Chernobyl enfrenta. Por um lado, os grandes incêndios nas florestas que rodeiam as instalações. Por outro, o transporte e armazenamento de grandes quantidades de armamento, que por alguma razão os russos concentram na região.
    Vista da extinta usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia / 03/04/2021 REUTERS/Gleb Garanich

    Pelo menos 1.151 civis morreram por causa da guerra na Ucrânia

    Segundo o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, entre 24 de fevereiro e 27 de março, pelo menos 1.151 civis morreram em decorrência da invasão russa, incluindo 103 crianças. Além destes, pelos menos 1.824 pessoas ficaram feridas, sendo 133 crianças.

    ONU ainda anunciou que conseguiu, junto aos seus parceiros, entregar rações alimentares, suprimentos médicos e utensílios domésticos para Kharkiv, na Ucrânia, conforme um comunicado de Osnat Lubrani, coordenador humanitário da ONU na Ucrânia.

    Os suprimentos foram fornecidos pelo Programa Mundial de Alimentos (PAM), Organização Mundial da Saúde (OMS), Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

    Usar o símbolo “Z” das forças russas pode levar a processos

    O uso do símbolo “Z” das forças russas pode levar a processos em dois estados da Alemanha, disseram autoridades. “Quem quer que esteja expressando publicamente seu consentimento à guerra de agressão do presidente da Rússia, Vladimir Putin, deve esperar um processo criminal”, disse Boris Pistorius, ministro do Interior do estado da Baixa Saxônia, em um comunicado à imprensa. Na última sexta-feira (25), a polícia do estado começou a verificar se a apresentação do “Z” foi exibida em relação à guerra na Ucrânia. O símbolo “representa os atos do exército russo contra a lei internacional”, afirmou Pistorius.
    Soldados russos são vistos em um tanque com a letra Z no distrito de Volnovakha em Donetsk (Foto de Sefa Karacan/Agência Anadolu via Getty Images) / Sefa Karacan/Agência Anadolu via Getty Images

    Vídeo: ONU diz que guerra nuclear deve e será evitada

    Kiev acusa Rússia de deportar ucranianos para seu território

    Autoridades ucranianas acusaram o governo russo de se envolver em uma política de deportação, movendo civis – incluindo milhares de crianças – para a Rússia contra sua vontade e detendo-os “como almas para moeda de troca”. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que mais de 2.000 crianças foram “roubadas” da cidade portuária sitiada de Mariupol, que está sob ataque russo desde os primeiros dias da invasão. Chamando a situação na cidade de “catástrofe humanitária”, Zelensky afirmou a jornalistas russos independentes que “de acordo com nossas informações, mais de 2.000 crianças foram retiradas. Isso significa roubadas”.