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Chilenos votam nova constituição em plebiscito neste domingo,4
Manifestações populares que se acentuaram em 2019 levaram à confecção de uma nova Carta Magna após 42 anos
04/09/2022
Reivindicação antiga
A redação de uma nova Constituição é uma demanda antiga dos chilenos, conforme explica Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp. O texto atual foi implementado durante a ditadura de Augusto Pinochet, em 1980, e, em 2019, grandes manifestações populares pediram a elaboração da nova carta constitucional. “Essa constituição é tida como ultrapassada, e a população vem justamente clamando por um texto mais atual, que atenda às demandas contemporâneas e, sobretudo, maior intervenção do Estado em alguns setores-chave, como saúde, educação e aposentadoria”, diz. Então, em 2020, 78% dos chilenos votaram a favor da formação da Convenção Constitucional. O projeto final, elaborado por 78 homens e 77 mulheres, foi entregue em 4 de julho deste ano ao presidente Gabriel Boric e disponibilizado para leitura popular.Possíveis definições
Se o texto for aprovado, uma sessão do plenário do Congresso chileno será convocada para promulgação da nova Constituição. Agora, se houver a rejeição da nova carta constitucional, o presidente Boric defende que seja eleita uma nova convenção, sem a necessidade de realizar outro plebiscito para saber se o povo quer mudar a constituição (o que já foi feito em 2020). Nesse caso, outros constituintes poderiam ser eleitos, no mínimo, 125 dias após o resultado dessa votação de domingo. Regiane Bressan também pontua que é possível que o governo do Chile tente mudar a Carta Magna por meio de emendas parlamentares, e não com uma alteração “total” do texto.
Destaques
O projeto da nova Constituição se baseia em dez pilares que reúnem “elementos fundamentais e normas mais relevantes”, segundo a convenção. Os 10 pontos principais são:- Democracia: com atenção à transparência, igualdade, liberdade de pensamento e expressão, além de mecanismos para democracia participativa;
- Inclusão: consagrando, entre outras coisas, direitos para mulheres, crianças e adolescentes, pessoas de povos e nações indígenas, pessoas com deficiência, pessoas de diversidade e dissidência sexo-genéricas;
- Tradição institucional: marcando, entre outras coisas, o fim do Senado, substituído pela Câmara das Regiões, em que cada região terá o mesmo número de representantes e reconhecendo também os ordenamentos jurídicos dos povos indígenas;
- Garantias de direitos: assegura direitos essenciais como saúde, educação, reconhecimento do trabalho doméstico e de cuidados, direito à moradia, alimentação adequada, direito humano à água e ao saneamento básico e o direito de viver em local seguro e livre de violência; ainda inclui a paridade e perspectiva de gênero;
- Liberdade: reconhece a liberdade de religião, pensamento, expressão, ensino e a liberdade de empreender e desenvolver atividades econômicas;
- Igualdade de gênero: protege o direito a uma vida livre de violência de gênero, os direitos sexuais e reprodutivos e o direito à identidade, e destaca a perspectiva de gênero na Justiça, os princípios de paridade e representação política partidária e inclusiva;
- Proteção da natureza e do meio ambiente: confirma os direitos da natureza e o dever especial de custódia do Estado sobre os bens comuns naturais do país;
- Regiões: reconhece a autonomia dos governos municípios e demais entidades regionais, além de formação de autonomias territoriais indígenas;
- Projeção futura: incorporam-se o direito à participação política digital, à informação, ao conhecimento, à educação e à conectividade digital, e à proteção de dados pessoais;
- Economia responsável: o projeto consagra os princípios de responsabilidade fiscal, equidade territorial e desenvolvimento em harmonia com a natureza, assim como papel mais ativo do Estado.
Campanha de desinformação e rejeição em pesquisas
Ambas as especialistas afirmam que alguns grupos ligados à extrema-direita estão disseminando fake news e desinformação sobre a nova carta constitucional. Salém pontua que isso acontece principalmente por meio das redes sociais, canalizado no que foi montado a partir da campanha de José Antônio Kast. Ele foi o candidato de extrema-direita que disputou o segundo turno das eleições presidenciais chilenas no ano passado, sendo derrotado por Gabriel Boric. Ela afirma que o método utilizado nessa campanha de desinformação tem sido aplicado “pelas extremas-direitas em diferentes partes do mundo”. “Ele tem sido chamado por alguns de método “Bannon”, porque é baseado no Steve Bannon, que foi um assessor político do [Donald] Trump [ex-presidente dos EUA] responsável pela sua comunicação, por essa estratégia de criação de mentiras e notícias falsas que circulam em alta velocidade em portais suspeitos, mas que disfarçam de verdadeiros”, explica.Principais fake news sobre a nova constituição do Chile:
- Nome do país vai mudar;
- Fim da bandeira e do hino chilenos;
- Não haverá mais polícia;
- Venezuelanos e haitianos vão tomar o poder;
- Indígenas ficariam impunes por crimes;
- Imigrantes e indígenas tomarão o poder;
- Aborto permitido aos 9 meses de gravidez;
- Chilenos não podem percorrer o território nacional porque estará sob controle indígena e de imigrantes;
- Não será permitido comprar garrafas de água e gelo;
- Não haverá mais educação e saúde privada;
- Não haverá propriedade privada;
- Religião será proibida;
- Há enorme risco de fraude que dará vitória à aprovação;
- O serviço eleitoral fraudará os votos com nomes de mortos para a aprovação do texto.
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