Política
Lula deve se reunir com Trump na Casa Branca na quinta; o que se sabe
A possível reunião ocorre após a crise aberta entre os dois países por causa da prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL) nos Estados Unidos
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai se encontrar com o presidente americano, Donald Trump, na quinta-feira (7/5), na Casa Branca, em Washington, apurou a BBC News Brasil com fontes do governo brasileiro.
A reportagem procurou a Casa Branca para uma confirmação, mas ainda não obteve resposta.
A possível reunião ocorre após a crise aberta entre os dois países por causa da prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem (PL) nos Estados Unidos.
O episódio levou o governo americano a expulsar um policial federal que atuava nos Estados Unidos. Em resposta, o Palácio do Planalto também descredenciou um oficial americano que atuava no Brasil.
A relação entre os dois governos tem sido marcada por momentos de tensão e aproximação.
Aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Trump chegou a retaliar fortemente o Brasil na tentativa de impedir sua condenação por golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas não obteve êxito.
O pacote de medidas incluiu um tarifaço de 50% sobre importações brasileiras ao mercado americano, retirada de vistos de autoridades e inclusão do ministro do STF Alexandre de Moraes na Lei Magnitsky, que impõe restrições financeiras.
No entanto, Lula e Trump passaram a se aproximar desde que tiveram um breve encontro informal durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York em setembro de 2025.
Na ocasião, o republicano disse que houve "química excelente" com o brasileiro.
Depois disso, Lula e Trump trocaram telefonemas oficiais e tiveram um encontro bilateral na Malásia.
A previsão inicial era que o petista seria recebido na Casa Branca em março, mas isso não se concretizou. O adiamento foi atribuído ao conflito entre EUA e Irã, que monopolizou a atenção americana, além de desafios domésticos de Trump, como impacto da alta dos combustíveis no bolso dos americanos.
A confirmação da visita agora acontece a poucas semanas do que interlocutores do presidente brasileiro consideravam a janela de oportunidade possível para que esse encontro acontecesse.
A avaliação de alguns de seus assessores era de que a chance de uma reunião entre os dois ficaria cada vez menor à medida em que o período eleitoral brasileiro se aproximasse.
O cálculo é de que essa espécie de janela de oportunidade só se manteria aberta até o fim do primeiro semestre porque a equipe de Lula não acredita que Trump gostaria de mostrar proximidade com o petista em meio à disputa eleitoral no país.
Em entrevista à BBC News Brasil no final de abril, o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), qualificou um encontro com Trump como algo "valioso" para a campanha petista "neutralizar" a narrativa da campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de que ele seria o único candidato com boa relação com o presidente americano.
Ele ressalta, porém, que o encontro só terá esse efeito positivo para Lula desde que ocorra sem constrangimentos, como aconteceu com outros líderes criticados pelo republicano durante visitas à Casa Branca, como Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul.
"Se houver a percepção [do Palácio do Planalto] de que essa conversa vai ser tranquila, ela vai simplesmente reafirmar a química, ela não vai comprometê-la, aí seria uma oportunidade para o governo Lula".
A expectativa de Casarões é que Trump não manifestará apoio expresso a Flávio Bolsonaro na disputa pelo Palácio do Planalto, apesar da proximidade ideológica e da forte atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em articulações políticas nos Estados Unidos, onde vive desde 2025.
"A sensação que eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no fim das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um aliado carnal, submisso aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso que o Trump está procurando nesse momento", afirmou Casarões, em referência à aliança da família Bolsonaro com o americano.
Para o professor, o republicano também pode ter interesse na continuidade de um presidente como Lula, que, na sua visão, seria mais capaz de dialogar com outros países da América Latina.
"Um Brasil com algum diálogo, por exemplo, com a Venezuela, um Brasil que ainda tem alguma ascendência regional relevante, pode ser tão estratégico quanto ter um aliado submisso", reforçou.

Crédito,Reuters / EPA/Shutterstock / Agência Senado
A crise envolvendo Ramagem
Ramagem foi detido pelo serviço de imigração americano, o ICE em 13 de abril, em Orlando, na Flórida, onde vive desde o final do ano passado com sua mulher e as duas filhas. Dois dias depois, porém, ele foi liberado pelas autoridades americanas.
A prisão do ex-deputado levou autoridades americanas a apurar internamente o que levou a agência a prendê-lo, segundo fontes do governo dos Estados Unidos ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.
A detenção de Ramagem não seria de interesse do alto comando do governo do presidente Donald Trump, do contrário, ele não teria sido solto dois dias depois, após forte pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano.
Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa.
Ele foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro e foi eleito deputado em 2022, mas teve seu mandato cassado em dezembro passado após o STF determinar a perda de mandato por sua condenação.
Ramagem vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.
No dia em que foi preso, a PF divulgou uma nota afirmando que a detenção de Ramagem havia sido resultado de uma cooperação internacional.
Nesse sentido, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil, o governo americano também quer esclarecer em que consistiu essa cooperação.
Segundo a fonte ouvida pela BBC News Brasil, haveria dúvidas sobre se o alto comando do ICE, do Departamento de Segurança Interna e do Departamento de Estado tinham conhecimento da cooperação citada pela PF e a agência de imigração para prender Ramagem.
Em reação à prisão, o governo Trump pediu que o delegado da PF Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami, saísse do país.
Lula afirmou em seguida que o Brasil poderia adotar medidas de "reciprocidade". A PF retirou então as credenciais de trabalho de um policial americano que atuava no Brasil junto à corporação.
Em paralelo, a encarregada de Negócios interina da embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, foi convocada a dar explicações ao Ministério das Relações Exteriores sobre o pedido.
Ao ser questionado pela BBC News Brasil, o Itamaraty não quis detalhar o que foi discutido no encontro.