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Socialista e candidato da direita radical vão ao 2° turno da eleição para Presidência de Portugal
O candidato António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), foi o mais votado das eleições presidenciais deste domingo (18/1) em Portugal, com 30,62% dos votos
O candidato António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), foi o mais votado das eleições presidenciais deste domingo (18/1) em Portugal, com 30,62% dos votos aos 95% de votos apurados, e vai ao segundo turno em 8 de fevereiro, com André Ventura, do partido Chega, de direita radical, que obteve expressivos 24,26%.
Em terceiro lugar, com 15,49% dos votos, aparece João Cotrim de Figueiredo, eurodeputado da Iniciativa Liberal, seguido pelo almirante Henrique Gouveia e Melo, independente que ganhou notoriedade ao coordenar a campanha nacional de vacinação contra a covid-19 (12,25%).
Em quinto, ficou Luís Marques Mendes, apoiado pelo governista Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita (11,97%).
Mais votado neste domingo, Seguro se apresenta como candidato moderado e fez campanha apelando ao "voto útil" da esquerda.
Mas a grande novidade dessa eleição é a chegada ao segundo turno de Ventura, que ganhou projeção nos últimos anos com discurso anti-imigração de direita radical.
Por volta das 20h30 de Lisboa (17h30 de Brasília), André Ventura fez as primeiras declarações, ainda antes da confirmação do resultado.
"É sinal que a direita acordou, que vamos ter uma nova direita em Portugal e que hoje começa a outra batalha, que é a batalha da segunda volta das eleições presidenciais", afirmou.
Fundado em 2019, o Chega já havia ampliado sua votação de 1,3% para mais de 20% em 2025, com um discurso denunciando a corrupção das "elites" políticas e a favor do endurecimento das políticas de segurança e controle do que considera uma imigração "descontrolada".
Nas eleições legislativas de 2025, o partido de direita já havia conquistado 60 cadeiras no Parlamento, tornando-se a segunda maior força política do país, atrás da coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD), liderada pelo PSD.
Ventura chegou a assumir a dianteira da disputa eleitoral nos últimos dias de campanha, prometendo colocar "os portugueses primeiro" na agenda política do país. Acabou superado por Seguro nas urnas, mas com votação expressiva.
Apesar do forte desempenho da direita radical neste domingo, analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil antes do primeiro turno avaliavam como improvável a vitória de Ventura na segunda volta, dado seu índice de rejeição, superior a 60%.
Alguns dos candidatos derrotados no primeiro turno expressaram já neste domingo seu apoio a Seguro na segunda volta, caso de Jorge Pinto e Catarina Martins.
"Percebo que todos os democratas fiquem preocupados com esta radicalização da direita em Portugal e esta reconfiguração. Devo dizer-lhes que acho que a resposta adequada, neste momento, é votar na segunda volta em António José Seguro, com os olhos bem abertos", afirmou Martins, segundo o jornal português Público.
Marques Mendes, por sua vez, optou por não declarar voto.
"Não vou fazer o endosso dos votos que me foram hoje conferidos. Tenho a minha opinião pessoal, mas enquanto candidato, não sou dono dos votos que em mim foram depositados", afirmou, também segundo o Público.

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Apreensão entre brasileiros
A comunidade brasileira em Portugal acompanhou com apreensão a reta final da eleição presidencial do país. Com um recorde de 11 candidatos, esta foi a disputa mais fragmentada desde a redemocratização de Portugal, em 1974.
Em determinado momento da campanha, chegou a haver empate técnico entre cinco candidatos a presidente e, mesmo na reta final, metade dos eleitores admitia que poderia mudar o voto.
Para a socióloga Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa — a mais antiga associação de imigrantes brasileiros no país — a principal preocupação é o risco de o resultado das urnas dar ainda mais força ao discurso anti-imigração.
"Boa parte da comunidade brasileira está apreensiva — com medo até — do que pode sair dessa eleição", afirmou Costa à BBC News Brasil, em entrevista concedida antes do resultado deste domingo.
"Vivemos um momento de mudanças na política de imigração e o risco é um endurecimento ainda maior. Além disso, há temor de um aumento da discriminação e xenofobia com a normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública."

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Portugal tem um regime semipresidencialista de matriz parlamentar. Embora o presidente seja eleito por voto direto, o poder executivo é exercido pelo primeiro-ministro, indicado após eleições legislativas e que depende de apoio mínimo no Parlamento.
O papel do presidente, porém, está longe de ser protocolar. "Ele exerce uma espécie de poder moderador e é crucial para o equilíbrio institucional", explica a professora Joana Ricarte, da Universidade de Coimbra.
O presidente pode vetar leis, devolvendo-as ao Parlamento, e tem a prerrogativa de dar posse ao primeiro-ministro. Em casos extremos, também pode dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas — medida conhecida como "bomba atômica".
Contexto político e a imigração em foco
As eleições presidenciais de 2026 ocorrem em meio a um cenário de aumento do custo de vida em Portugual, com a inflação em alta de 2,3% em 2025, com os alimentos pressionando os preços.
Também foi realizada em meio a uma grande instabilidade no governo português.
Desde 2022, Portugal já teve três eleições legislativas, duas delas antecipadas. E cada nova eleição parece confirmar a tendência de fragmentação política e crise de confiança nos partidos tradicionais.
O atual governo, liderado pelo PSD, não tem maioria parlamentar e, para aprovar seus projetos, depende do apoio, ou ao menos da abstenção, de outros partidos — ora de direita radical, ora de centro-esquerda.
Portugal também está está em meio a um processo de endurecimento de sua política migratória.
No ano passado, a coligação governista, a Iniciativa Liberal e o Chega se uniram para aprovar mudanças na Lei de Estrangeiros.
Entre outras medidas, a nova lei restringiu o visto de trabalho a profissionais qualificados, eliminou a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endureceu as regras de reagrupamento familiar (que estabelecem quando parentes de estrangeiros regularizados podem viver em Portugal).
"Claramente, as regras de imigração e de nacionalidade continuarão na pauta do Parlamento este ano, e um Chega fortalecido tentaria pressionar por mais endurecimento", afirmou o cientista político Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, em entrevista antes do primeiro turno.

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Outra questão é se o fortalecimento do Chega nas eleições pode levar ao aumento das agressões xenófobas contra brasileiros.
Como ressaltam alguns analistas, Ventura não tem atacado diretamente a comunidade brasileira que, com mais de 500 mil pessoas, é a maior entre imigrantes em Portugal.
Ele diz que os brasileiros que "contribuem" para a sociedade portuguesa são bem-vindos, e que o grande problema é a imigração do Sul da Ásia, em especial de países muçulmanos, com culturas que seriam muito diferentes da portuguesa.
Há até brasileiros entre apoiadores e membros do Chega: Ventura é especialmente popular entre simpatizantes do ex-presidente Jair Bolsonaro, que se identificam com a pauta anti-esquerda, conservadora nos costumes e de defesa de políticas de "lei e ordem".
A campanha presidencial de Ventura incluiu episódios e estratégias que geraram controvérsia pública, como outdoors com a frase "Isto não é o Bangladesh", dirigidos a imigrantes asiáticos. Peças com comentários negativos sobre a comunidade cigana também acabaram retiradas por decisão judicial.