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Venezuela impõe cerco militar em zona de desastre e intimida voluntários e jornalistas

Presença de agentes armados acirra tensões com moradores e socorristas envolvidos em resgates de sobreviventes de duplo terremoto

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 02/07/2026
Venezuela impõe cerco militar em zona de desastre e intimida voluntários e jornalistas
Voluntários e paramédicos observam equipes de resgate realizar testes acústicos em busca de sobreviventes em prédio que desabou em terremoto, em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela | Juan Barreto/AFP

À medida que os dias passam, fica mais evidente o despreparo do governo venezuelano para lidar com os efeitos do duplo terremoto que assolou o país. A decisão de militarizar a região de La Guaira é um dos indicativos da caótica gestão chavista.

A presença ostensiva de forças de segurança nas áreas mais afetadas pela catástrofe reflete o modus operandi do regime, dificultando a atuação de organizações humanitárias e intimidando o trabalho de jornalistas. O cerco militar acirra também as tensões com moradores envolvidos em resgates de sobreviventes e preocupa um grupo de 40 ONGs defensoras de direitos humanos.

Em comunicado, as entidades exigem para que as ações das forças militares e de segurança sejam "proporcionais, transparentes e sujeitas a mecanismos de supervisão" e que o acesso de profissionais de saúde, jornalistas e organizações humanitárias seja garantido.

O apelo parece não surtir efeito. Relatos de que militares e policiais se envolveram em roubos e saques ou se recusaram a ajudar nas buscas revoltaram os moradores.

Uma das ONGs mais respeitadas do país, a Provea detectou, numa visita a La Guaira, o número excessivo de agentes armados de órgãos de inteligência do governo, que não têm autoridade legal para a gestão de riscos e controle da ordem pública.

Voluntários e paramédicos observam equipes de resgate realizar testes acústicos em busca de sobreviventes em prédio que desabou em terremoto, em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela — Foto: Juan Barreto/AFP

Voluntários e paramédicos observam equipes de resgate realizar testes acústicos em busca de sobreviventes em prédio que desabou em terremoto, em Caraballeda, no estado de La Guaira, Venezuela — Foto: Juan Barreto/AFP

“Não observamos nenhum esforço ou iniciativa estatal para fornecer aos cidadãos serviços essenciais, como alimentos ou água potável. Pelo contrário, as ações das autoridades parecem priorizar o controle militar-policial do território, em detrimento de suas obrigações de atender ao sofrimento dos cidadãos”, constatou a ONG.

A Provea descreve ações descoordenadas e a sobreposição de funções entre as forças de segurança que atuam em La Guaira: "Isso causa má gestão do tráfego de ambulâncias e profissionais de saúde e escassa proteção para os trabalhadores humanitários, que por vezes precisam assumir a responsabilidade de dirigir o trânsito em áreas congestionadas apenas para continuar seu trabalho."

O governo liderado por Delcy Rodríguez invoca a militarização das áreas atingidas sob o pretexto de prevenir saques e reorganizar o trânsito, mas, como o habitual, parece atuar de forma a assegurar o controle da narrativa da catástrofe.

O líder do grupo socorrista Topos Chile, Francisco Lermanda, acusou militares venezuelanos de submeterem seus 46 voluntários a verificações excessivas, sob suspeita de serem espiões. Ele contou que um soldado entrou na área onde o grupo cavava um túnel sob os escombros apenas para exigir documentos dos socorristas — procedimento que já havia sido realizado.

"Existe uma paranoia sobre quem somos, por que estamos aqui. Eles não conseguem entender que somos voluntários de uma ONG, que viemos para cá com nossos próprios recursos", resumiu Lermanda.

Trata-se do regime chavista em sua forma in natura, atuando mais para perseguir do que para apoiar quem está ali para ajudar.