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Quem é Daniel Perez, indicado de Trump para embaixada em Brasília e pivô de crise — e o que ele disse sobre o Brasil

Perez foi indicado em junho pela Casa Branca para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília, mas ainda não teve seu nome aprovado pelo governo do Brasil

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 05/08/2026
Quem é Daniel Perez, indicado de Trump para embaixada em Brasília e pivô de crise — e o que ele disse sobre o Brasil
Deputado desde 2017, Daniel Perez preside a Câmara dos Representantes da Flórida | Getty Imagens

O deputado estadual da Flórida Daniel Perez está no centro de uma disputa diplomática entre Brasil e Estados Unidos, após a decisão do governo americano na terça-feira (04/08) de revogar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Perez foi indicado em junho pela Casa Branca para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília, mas ainda não teve seu nome aprovado pelo governo do Brasil.

Segundo apurou a BBC, a revogação do visto da embaixadora brasileira foi uma resposta de Washington à demora do Brasil em conceder a Daniel Perez um agrément, que é como é conhecida a autorização no rito diplomático.

A BBC apurou que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.

Em recente audiência no Senado americano, Perez disse que sua prioridade como embaixador em Brasília, caso assuma o cargo, seria "apoiar instituições democráticas brasileiras" e "pressionar para condições que permitam eleições livres e justas e liberdade de expressão" no Brasil.

Quem é Daniel Perez?

Em junho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, indicou Daniel Perez para assumir a embaixada americana no Brasil. Além de necessitar do agrément do governo brasileiro, Perez precisa também ser aprovado pelo Senado americano.

Aos 38 anos, Perez preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida, equivalente a uma Assembleia Legislativa no Brasil.

Integrante do Partido Republicano, ele é aliado de Trump e, no ano passado, chegou a ser citado como possível candidato ao cargo de procurador-geral do Estado.

Filho de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e se mudou para a Flórida ainda criança, em 1993. Advogado, formou-se pela Faculdade de Direito da Loyola University New Orleans. Ele é casado e pai de três filhos.

Perez foi eleito deputado estadual pela primeira vez em 2017. Segundo informações divulgadas em seu site oficial, sua atuação parlamentar tem como foco temas ligados ao bem-estar infantil, saúde, fortalecimento das famílias, educação e integridade eleitoral.

Nas redes sociais, ele costuma adotar o slogan Make America Great Again (MAGA), associado ao movimento político liderado por Donald Trump, que em português significa 'Faça a América Grande Novamente'. Em diversas publicações, também manifesta apoio às principais pautas do presidente americano.

Em janeiro deste ano, Perez elogiou a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela que resultou na captura do ex-presidente Nicolás Maduro e de sua esposa.

Em uma publicação no X, afirmou que Trump havia tomado "medidas decisivas para trazer paz e segurança ao nosso hemisfério" e para desferir "um grande golpe contra os cartéis de drogas que lucram com a morte e a destruição de vidas americanas".

Caso tenha o nome aprovado pelo Senado, Perez será o primeiro embaixador dos Estados Unidos no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada pelo ex-presidente Joe Biden. O posto está vago desde janeiro de 2025, quando Trump retornou à Casa Branca.

Maria Luiza Ribeiro Viotti

Crédito,Jefferson Rudy/Agência Senado

Legenda da foto,Maria Luiza Ribeiro Viotti teve seu visto revogado pelos EUA

O que Perez disse sobre o Brasil

No dia 16 de julho — mesmo dia em que o governo americano anunciou um tarifaço de 25% sobre produtos do Brasil após o fim da investigação sobre práticas comerciais brasileiras consideradas injustas — Daniel Perez e outros indicados de Trump a embaixadas pelo mundo compareceram à comissão de relações exteriores do Senado americano para serem ouvidos pelos parlamentares.

Perez disse aos senadores americanos que o Brasil "não é apenas o nosso maior parceiro comercial na América do Sul", como também "um país de dimensões continentais, extraordinária riqueza natural e crescente relevância estratégica, cuja trajetória nos próximos anos moldará a segurança, a prosperidade e a influência de todo o Hemisfério Ocidental".

O indicado de Trump disse que "os riscos [da relação EUA-Brasil] são altos e as oportunidades são reais".

"O Brasil detém vastas reservas de minerais críticos, essenciais para a força econômica e a segurança nacional dos EUA", disse Perez.

"E o país enfrenta desafios reais de segurança — desde organizações criminosas transnacionais que alimentam fluxos de drogas que ameaçam comunidades americanas até a presença crescente de potências externas que disputam influência em toda a região."

"A forma como os Estados Unidos se relacionarem com o Brasil nos próximos anos terá enorme importância."

Perez disse que pretende "apoiar instituições democráticas brasileiras" e "pressionar para condições que permitam eleições livres e justas e liberdade expressão" no Brasil.

"Minhas principais prioridades, caso eu seja confirmado, serão a proteção dos cidadãos americanos no Brasil, o avanço de nossos interesses nacionais em comércio e investimento, o combate ao tráfico de drogas e ao crime transnacional, e a construção de parcerias resilientes que beneficiem a economia e o trabalhador americanos", afirmou.

Durante a audiência, Perez foi questionado por dois senadores americanos sobre as tarifas contra o Brasil que haviam sido recém anunciadas.

O senador republicano Pete Ricketts, do Nebraska perguntou quais medidas Perez adotaria para estabelecer acesso justo do etanol americano aos mercados brasileiros caso fosse confirmado no cargo de embaixador. O Nebraska é um dos principais Estados produtores de etanol nos EUA.

"Você tem toda a razão", disse Perez ao senador republicano. "Está tudo de cabeça para baixo no que diz respeito ao etanol."

"Existe uma lacuna aí, e não apenas no setor de etanol. Acredito que haja uma lacuna nas áreas de energia e infraestrutura no que diz respeito à relação entre o Brasil e os EUA."

"Parte disso, na minha opinião, tem a ver com a presença local. Se minha nomeação for confirmada e eu conseguir ir ao Brasil para acompanhar a situação no terreno, as relações entre o setor privado — tanto dos EUA quanto do Brasil — e o governo e a população brasileiros poderão ser fortalecidas."

A segunda pergunta foi de um senador democrata — com críticas ao tarifaço de Trump contra o Brasil. O senador Tim Kaine, da Virgínia, perguntou quem perderia mais com as novas tarifas de Trump — os EUA ou o Brasil — dado que os americanos possuem superávit comercial nas relações.

Perez respondeu: "Obviamente, trata-se de uma nova tarifa que foi implementada ontem. Li as matérias hoje de manhã, e o USTR [Escritório do Representante de Comércio dos EUA] já tomou suas decisões. Vou me informar melhor a respeito nas próximas semanas."

Kaine reagiu dizendo que "se impusermos uma tarifa de 25% sobre eles e eles, por sua vez, impuserem uma tarifa equivalente sobre nós, serão os Estados Unidos que terão mais a perder". O senador democrata disse que as tarifas americanas prejudicariam mais as próprias empresas americanas do que as brasileiras, e que haveria inflação nos EUA.

O que acontece agora?

Jornais americanos noticiaram que em uma reunião com jornalistas em Washington as autoridades americanas disseram que só aprovariam o visto da embaixadora brasileira se Daniel Perez recebesse o agrément de Brasília.

Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas.

O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.

O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.

"A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente", diz um trecho da nota.

Este não é o único episódio envolvendo negação de vistos entre autoridades de Brasil e EUA.

No mês passado, o Itamaraty se recusou a conceder os vistos para Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado americano, no fim de julho. Os planos de viagem ao Brasil foram revelados pelo jornal The Washington Post.

O Itamaraty recusou a entrada no Brasil de Riley Barnes e Samuel Samson

Crédito,US Department of State

Legenda da foto,O Itamaraty recusou pedidos de visto no Brasil de Samuel Samson (esquerda) e Riley Barnes, funcionários do Departamento de Estado dos EUA

A agência Reuters informou que um porta-voz do governo americano afirmou que Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

No entanto, para o Planalto, a visita dos dois funcionários poderia ser usada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

O Departamento de Estado americano rejeitou a acusação e classificou as alegações como "mentira sem fundamento".

Samson é subsecretário adjunto de Estado no Departamento de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL). Segundo o Washington Post, Samson viajou da África para a Europa, promovendo a linha política conservadora do presidente Trump e cultivando laços com grupos de direita.

Riley Barnes ocupa o cargo de secretário-adjunto de Estado para Democracia, Direitos Humanos e Trabalho (DRL) no Departamento de Estado dos EUA.

Desde abril, tem também funções de embaixador extraordinário para a liberdade religiosa internacional.