Polícia

Júri condena executor da morte do advogado Renato Nery a mais de 33 anos de prisão; confissão reforça tese de crime encomendado

Após cerca de 12 horas de julgamento, o Conselho de Sentença acolheu a tese apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e reconheceu que Alex participou da execução do homicídio, considerado triplamente qualificado

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM TJ-MT 15/07/2026
Júri condena executor da morte do advogado Renato Nery a mais de 33 anos de prisão; confissão reforça tese de crime encomendado
Após cerca de 12 horas de julgamento, o Conselho de Sentença acolheu a tese apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e reconheceu que Alex participou da execução do homicídio | TJ-MT

O Tribunal do Júri de Cuiabá condenou, nesta quarta-feira (15), o caseiro e montador de móveis planejados Alex Roberto de Queiroz Silva a 33 anos e 10 meses de reclusão, em regime inicialmente fechado, pelo assassinato do advogado Renato Gomes Nery, executado em julho de 2024, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, na Capital.

Após cerca de 12 horas de julgamento, o Conselho de Sentença acolheu a tese apresentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) e reconheceu que Alex participou da execução do homicídio, considerado triplamente qualificado, além dos crimes de organização criminosa e fraude processual.

Além da pena de prisão, o juiz presidente do Tribunal do Júri, Marcos Faleiros, condenou o réu ao pagamento de 20 dias-multa e de indenização mínima equivalente a 40 salários mínimos à família da vítima. A prisão preventiva foi mantida.

Na sentença, o magistrado reconheceu a prática dos crimes de homicídio triplamente qualificado, organização criminosa e fraude processual, fixando o cumprimento da pena em regime fechado.

Durante o interrogatório, Alex Roberto confessou ter sido o autor dos disparos que mataram Renato Nery. Aos jurados, afirmou que enfrentava dificuldades financeiras e relatou que tomou conhecimento da suposta oferta para matar o advogado durante uma conversa com o policial militar Heron Teixeira Pena Vieira.

Segundo seu depoimento, ouviu que estariam oferecendo cerca de R$ 200 mil pela execução do advogado. Em seguida, passou a monitorar a rotina da vítima, aguardou sua chegada ao escritório e efetuou os disparos logo após Renato descer do veículo, fugindo em seguida em uma motocicleta.

Apesar da confissão, o Ministério Público sustentou que o crime foi previamente planejado e executado mediante pagamento, dentro de uma estrutura criminosa organizada.

Conforme a denúncia do Ministério Público e as investigações conduzidas pela Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), o assassinato teria sido motivado por uma disputa judicial envolvendo uma fazenda com mais de 12 mil hectares, localizada no município de Novo São Joaquim.

A acusação aponta que o casal Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi teria encomendado o homicídio mediante o pagamento de aproximadamente R$ 200 mil.

Além dos supostos mandantes, policiais militares da Rotam também são apontados como integrantes da estrutura responsável pela execução do crime.

Segundo o Ministério Público, cada investigado teria desempenhado uma função específica:

  • Julinere Goulart Bastos e César Jorge Sechi — apontados como mandantes do homicídio;
  • Alex Roberto de Queiroz Silva — executor dos disparos;
  • Sargento Heron Teixeira Pena Vieira — responsável pela intermediação da contratação;
  • PM Ícaro Nathan Santos Ferreira — teria fornecido a arma utilizada no crime e facilitado a transferência de valores;
  • PM Jackson Pereira Barbosa — apontado como coordenador da logística e dos pagamentos relacionados à execução.

Os demais denunciados ainda serão submetidos ao julgamento pelo Tribunal do Júri.

Renato Gomes Nery foi baleado na manhã de 5 de julho de 2024, quando chegava ao escritório onde trabalhava, em Cuiabá.

Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que o advogado estaciona o veículo, caminha em direção à entrada do prédio e é surpreendido pelos disparos efetuados pelo atirador, que já o aguardava no local.

Gravemente ferido, Renato foi socorrido, mas morreu no dia seguinte em decorrência dos ferimentos.

As investigações também identificaram a movimentação financeira que, segundo a Polícia Civil, teria servido para custear o assassinato.

Após autorização judicial para quebra do sigilo bancário dos investigados, foram rastreados aproximadamente R$ 215 mil em transferências consideradas suspeitas.

De acordo com a apuração:

  • Em 4 de março de 2024, foram realizadas transferências que totalizaram cerca de R$ 200 mil;
  • Parte dos recursos foi utilizada na compra de um veículo registrado em nome de terceiro;
  • Houve transferência de R$ 40 mil para a mãe de um dos investigados;
  • O restante dos valores passou por diferentes contas bancárias antes de chegar aos investigados;
  • Também foi identificado um pagamento direto de R$ 15 mil relacionado ao esquema.

Para a Polícia Civil, a sequência de movimentações demonstra um possível mecanismo destinado a ocultar a origem e o destino do dinheiro, caracterizando indícios de lavagem de dinheiro vinculada ao homicídio.

Com a condenação de Alex Roberto de Queiroz Silva, o primeiro julgamento do caso chega ao fim, enquanto os demais acusados permanecem respondendo ao processo e também deverão ser levados a júri popular.