Política

Cuiabá entre dois modelos: o que mudou da gestão Emanuel Pinheiro para Abílio Júnior

Após anos de instabilidade, operações policiais e desequilíbrio fiscal, capital inicia nova fase marcada por ajuste, controle e reconstrução administrativa

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA 10/01/2026
Cuiabá entre dois modelos: o que mudou da gestão Emanuel Pinheiro para Abílio Júnior
A troca de comando representou mais do que alternância de poder: simbolizou a transição entre dois modelos distintos de gestão pública | Arquivo Página 12

Após oito anos sob o comando de Emanuel Pinheiro, Cuiabá entrou, em 2025, em um novo ciclo político com a posse do prefeito Abílio Júnior. A troca de comando representou mais do que alternância de poder: simbolizou a transição entre dois modelos distintos de gestão pública, com reflexos diretos nas finanças, na governança e na relação da Prefeitura com órgãos de controle.

Enquanto a administração anterior ficou marcada por forte execução orçamentária, endividamento crescente e sucessivas crises institucionais, o novo governo assumiu com a proposta de ajuste fiscal, reorganização administrativa e combate a práticas que levaram a Prefeitura a um longo período de instabilidade.

O legado Emanuel Pinheiro: gastos elevados, governabilidade e crises recorrentes

A gestão Emanuel Pinheiro adotou um modelo expansivo, com ampla terceirização de serviços, execução de obras em diversas frentes e crescimento contínuo da estrutura administrativa. Esse modelo garantiu governabilidade política e visibilidade de ações, mas também produziu passivos financeiros relevantes e fragilidades na gestão.

Na saúde, o cenário se tornou crítico. Cuiabá passou por intervenção do Governo do Estado, um episódio raro e grave, que expôs falhas administrativas, contratos problemáticos, falta de medicamentos e longas filas de espera. Na educação, problemas com merenda escolar, infraestrutura deficiente e ausência de avanços estruturais também se tornaram recorrentes.

Além disso, a Prefeitura esteve, ao longo de vários anos, no centro de operações policiais e investigações, o que gerou desgaste institucional e afetou a credibilidade da administração municipal, mesmo com a manutenção de maioria confortável na Câmara de Vereadores.

Abílio Júnior: ajuste fiscal, reorganização e ruptura institucional

Eleito com discurso de combate à corrupção e reorganização da máquina pública, Abílio Júnior assumiu a Prefeitura com um diagnóstico duro da situação financeira e administrativa herdada. O primeiro ano de gestão foi marcado por revisão de contratos, auditorias internas, contenção de despesas e foco no equilíbrio fiscal.

Ao contrário do modelo anterior, a atual administração optou por não iniciar grandes projetos sem viabilidade financeira, priorizando o pagamento de compromissos, a previsibilidade orçamentária e a correção de distorções administrativas.

Um dado simbólico desse novo momento é que, ao longo do primeiro ano da gestão Abílio, a Prefeitura de Cuiabá não foi alvo de operações policiais, o que reforça a mudança de postura institucional e a adoção de mecanismos de controle interno e transparência.

Serviços essenciais: desafios persistem, mas sem colapso institucional

Na saúde e na educação, os problemas históricos ainda não foram superados. As filas seguem elevadas e a capacidade de atendimento permanece limitada. No entanto, diferentemente do período anterior, não houve intervenção externa nem crises institucionais, e os serviços vêm sendo mantidos sob um processo de reorganização administrativa.

A estratégia adotada pela atual gestão tem sido a de corrigir fluxos, revisar contratos e preparar bases técnicas, antes de ampliar serviços — uma escolha que gera críticas pela lentidão, mas evita improvisos e novos passivos.

Obras e urbanismo: menos marketing, mais cautela

Na infraestrutura, a mudança de abordagem é clara. A gestão Emanuel ficou marcada por iniciar muitas obras, algumas delas paralisadas ao longo do tempo. Abílio adotou o discurso de concluir o que foi herdado antes de iniciar novos projetos, reduzindo o risco de canteiros abandonados e desperdício de recursos públicos.

O ritmo de obras é menor, mas alinhado a uma política de responsabilidade fiscal e planejamento financeiro.

Governabilidade e estilo político

No campo político, a diferença também é evidente. Emanuel construiu uma relação estável com o Legislativo, garantindo maioria e fluidez administrativa. Abílio governa com mais independência e tensão institucional, priorizando o discurso de fiscalização e controle, mesmo ao custo de embates políticos.

Essa postura reforça sua imagem de prefeito não alinhado ao modelo tradicional de acordos, mas também impõe desafios à tramitação de projetos e à aceleração de agendas estruturantes.

Uma cidade em transição

A comparação entre as gestões mostra que Cuiabá saiu de um período marcado por instabilidade, investigações e desequilíbrio fiscal, para uma fase de ajuste, controle e reconstrução administrativa.

Emanuel Pinheiro deixou uma cidade funcionando, mas financeiramente pressionada e institucionalmente desgastada.

Abílio Júnior herdou esse cenário e optou por estancar excessos, reorganizar a gestão e recuperar a credibilidade da Prefeitura.

O desafio agora é transformar esse novo padrão de integridade e controle em melhorias mais perceptíveis para a população, sem repetir erros do passado.

BOX COMPARATIVO | CUIABÁ:        ANTES                      ×        DEPOIS

Eixo
Antes – Emanuel Pinheiro
Depois – Abílio Júnior
Modelo de gestão
Expansivo, baseado em gasto
Ajuste fiscal e controle
Situação financeira
Déficits e dívida crescente
Contenção e reorganização
Contratos públicos
Ampliação e terceirização
Revisão e auditorias
Obras
Muitas iniciadas, várias paradas
Conclusão do que foi herdado
Saúde
Intervenção do Estado
Sem intervenção externa
Operações policiais
Frequentes
Nenhuma em 2025
Relação com órgãos de controle
Conturbada
Institucional e técnica
Estilo político
Governabilidade ampla
Independência e enfrentamento

Cuiabá deixou para trás um ciclo de escândalos e improviso e entrou em uma fase de reorganização administrativa. O ajuste ainda cobra paciência da população, mas marca uma ruptura institucional clara com o passado recente.