Política
Cuiabá entre dois modelos: o que mudou da gestão Emanuel Pinheiro para Abílio Júnior
Após anos de instabilidade, operações policiais e desequilíbrio fiscal, capital inicia nova fase marcada por ajuste, controle e reconstrução administrativa
Após oito anos sob o comando de Emanuel Pinheiro, Cuiabá entrou, em 2025, em um novo ciclo político com a posse do prefeito Abílio Júnior. A troca de comando representou mais do que alternância de poder: simbolizou a transição entre dois modelos distintos de gestão pública, com reflexos diretos nas finanças, na governança e na relação da Prefeitura com órgãos de controle.
Enquanto a administração anterior ficou marcada por forte execução orçamentária, endividamento crescente e sucessivas crises institucionais, o novo governo assumiu com a proposta de ajuste fiscal, reorganização administrativa e combate a práticas que levaram a Prefeitura a um longo período de instabilidade.
O legado Emanuel Pinheiro: gastos elevados, governabilidade e crises recorrentes
A gestão Emanuel Pinheiro adotou um modelo expansivo, com ampla terceirização de serviços, execução de obras em diversas frentes e crescimento contínuo da estrutura administrativa. Esse modelo garantiu governabilidade política e visibilidade de ações, mas também produziu passivos financeiros relevantes e fragilidades na gestão.
Na saúde, o cenário se tornou crítico. Cuiabá passou por intervenção do Governo do Estado, um episódio raro e grave, que expôs falhas administrativas, contratos problemáticos, falta de medicamentos e longas filas de espera. Na educação, problemas com merenda escolar, infraestrutura deficiente e ausência de avanços estruturais também se tornaram recorrentes.
Além disso, a Prefeitura esteve, ao longo de vários anos, no centro de operações policiais e investigações, o que gerou desgaste institucional e afetou a credibilidade da administração municipal, mesmo com a manutenção de maioria confortável na Câmara de Vereadores.
Abílio Júnior: ajuste fiscal, reorganização e ruptura institucional
Eleito com discurso de combate à corrupção e reorganização da máquina pública, Abílio Júnior assumiu a Prefeitura com um diagnóstico duro da situação financeira e administrativa herdada. O primeiro ano de gestão foi marcado por revisão de contratos, auditorias internas, contenção de despesas e foco no equilíbrio fiscal.
Ao contrário do modelo anterior, a atual administração optou por não iniciar grandes projetos sem viabilidade financeira, priorizando o pagamento de compromissos, a previsibilidade orçamentária e a correção de distorções administrativas.
Um dado simbólico desse novo momento é que, ao longo do primeiro ano da gestão Abílio, a Prefeitura de Cuiabá não foi alvo de operações policiais, o que reforça a mudança de postura institucional e a adoção de mecanismos de controle interno e transparência.
Serviços essenciais: desafios persistem, mas sem colapso institucional
Na saúde e na educação, os problemas históricos ainda não foram superados. As filas seguem elevadas e a capacidade de atendimento permanece limitada. No entanto, diferentemente do período anterior, não houve intervenção externa nem crises institucionais, e os serviços vêm sendo mantidos sob um processo de reorganização administrativa.
A estratégia adotada pela atual gestão tem sido a de corrigir fluxos, revisar contratos e preparar bases técnicas, antes de ampliar serviços — uma escolha que gera críticas pela lentidão, mas evita improvisos e novos passivos.
Obras e urbanismo: menos marketing, mais cautela
Na infraestrutura, a mudança de abordagem é clara. A gestão Emanuel ficou marcada por iniciar muitas obras, algumas delas paralisadas ao longo do tempo. Abílio adotou o discurso de concluir o que foi herdado antes de iniciar novos projetos, reduzindo o risco de canteiros abandonados e desperdício de recursos públicos.
O ritmo de obras é menor, mas alinhado a uma política de responsabilidade fiscal e planejamento financeiro.
Governabilidade e estilo político
No campo político, a diferença também é evidente. Emanuel construiu uma relação estável com o Legislativo, garantindo maioria e fluidez administrativa. Abílio governa com mais independência e tensão institucional, priorizando o discurso de fiscalização e controle, mesmo ao custo de embates políticos.
Essa postura reforça sua imagem de prefeito não alinhado ao modelo tradicional de acordos, mas também impõe desafios à tramitação de projetos e à aceleração de agendas estruturantes.
Uma cidade em transição
A comparação entre as gestões mostra que Cuiabá saiu de um período marcado por instabilidade, investigações e desequilíbrio fiscal, para uma fase de ajuste, controle e reconstrução administrativa.
Emanuel Pinheiro deixou uma cidade funcionando, mas financeiramente pressionada e institucionalmente desgastada.
Abílio Júnior herdou esse cenário e optou por estancar excessos, reorganizar a gestão e recuperar a credibilidade da Prefeitura.
O desafio agora é transformar esse novo padrão de integridade e controle em melhorias mais perceptíveis para a população, sem repetir erros do passado.
BOX COMPARATIVO | CUIABÁ: ANTES × DEPOIS
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Eixo |
Antes – Emanuel Pinheiro |
Depois – Abílio Júnior |
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Modelo de gestão |
Expansivo, baseado em gasto |
Ajuste fiscal e controle |
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Situação financeira |
Déficits e dívida crescente |
Contenção e reorganização |
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Contratos públicos |
Ampliação e terceirização |
Revisão e auditorias |
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Obras |
Muitas iniciadas, várias paradas |
Conclusão do que foi herdado |
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Saúde |
Intervenção do Estado |
Sem intervenção externa |
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Operações policiais |
Frequentes |
Nenhuma em 2025 |
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Relação com órgãos de controle |
Conturbada |
Institucional e técnica |
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Estilo político |
Governabilidade ampla |
Independência e enfrentamento |
Cuiabá deixou para trás um ciclo de escândalos e improviso e entrou em uma fase de reorganização administrativa. O ajuste ainda cobra paciência da população, mas marca uma ruptura institucional clara com o passado recente.