Política

As mudanças nas versões de Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com Daniel Vorcaro

Antes da publicação da reportagem, porém, Flávio Bolsonaro sustentava um discurso de associação entre o escândalo envolvendo o Master, o PT e a esquerda

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM BBC 14/05/2026
As mudanças nas versões de Flávio Bolsonaro sobre sua ligação com Daniel Vorcaro
No último fim de semana, durante um evento da pré-campanha em Santa Catarina, Flávio Bolsonaro usou uma camiseta com a inscrição "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula" | AFP via Getty Images

Após o vazamento de mensagens e áudios pelo portal The Intercept Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu ter negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, pagamentos para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Antes da publicação da reportagem, porém, Flávio Bolsonaro sustentava um discurso de associação entre o escândalo envolvendo o Master, o PT e a esquerda.

No último fim de semana, durante um evento da pré-campanha em Santa Catarina, o pré-candidato à Presidência usou uma camiseta com a inscrição "O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula".

O senador também vinha defendendo a instauração de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) no Congresso para investigar o escândalo em torno de Vorcaro.

'Sim, tinha um contrato'

De acordo com a reportagem do The Intercept Brasil, Daniel Vorcaro teria repassado R$ 61 milhões para bancar a produção Dark Horse, que ainda não foi lançada. O repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época.

Diante dos atrasos para os pagamentos restantes, Flávio teria enviado mensagens para Vorcaro cobrando a liberação.

O banqueiro está preso, acusado de ter comandado fraudes bilionárias no Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central em novembro. No momento, ele negocia um acordo de delação premiada.

Após a revelação dos diálogos, Flávio admitiu que pediu dinheiro para Vorcaro e disse que se tratou de um "patrocínio privado para um filme privado".

"É preciso separar os inocentes dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai", disse Flávio em uma nota divulgada na quarta-feira (13/05).

Em um vídeo, o senador afirmou ainda que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando ainda não havia acusações contra o banqueiro, e quando o governo de Jair Bolsonaro já havia terminado.

"Acontece que, com o passar do tempo, ele simplesmente parou de honrar com as parcelas do contrato. Sim, tinha um contrato", disse na mensagem.

Flávio afirmou ainda que não ofereceu nada em troca do financiamento. "Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem. Isso é muito diferente das relações espúrias do governo Lula e seus representantes com Vorcaro", disse.

O senador também voltou a cobrar a instalação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as suspeitas envolvendo Vorcaro: "CPI do Master Já."

Flávio Bolsonaro durante uma manifestação em São Paulo, Brasil, em 1º de março de 2026

Crédito,AFP via Getty Images

Legenda da foto,Senador afirma que conheceu Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando ainda não haviam acusações contra o banqueiro, e quando o governo de Jair Bolsonaro já havia terminado

'Esse esquema é a cara da esquerda'

A declaração, contudo, contradiz falas recentes do próprio Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro.

Na própria quarta-feira, antes da publicação da reportagem do The Intercept, o senador foi questionado presencialmente pelo portal sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, e respondeu: "De onde você tirou essa informação? É mentira".

Flávio já havia negado conexões da sua família e da extrema direita com Vorcaro diversas vezes, chegando a dizer que isso era uma "narrativa falsa que o Lula tem criado" em uma entrevista que repostou em suas redes sociais em 23 de março deste ano.

"A gente defende a CPI do Banco Master, a gente já assinou um impeachment de ministro, a gente tá vendo uma investigação avançar e mostrando que o círculo do Lula, muito próximo a ele, em especial na Bahia, senhor Jaques Wagner, senhor Rui Costa, essas pessoas é que estão no cerne do início desse grande esquema de roubalheira que tá dando nojo a todo o país", diz no vídeo, negando que a delação de Daniel Vorcaro poderia atingir a direita.

"O lulopetismo baiano está no DNA do caso Master. Não tem nem como tentar esconder, esse esquema é a cara da esquerda", afirmou.

As acusações feitas pelo senador em relação a Wagner e Costa estão relacionadas principalmente à venda pelo Master de operações de crédito consignado ao CredCesta, uma espécie de cartão de crédito com desconto direto no salário de funcionários públicos e aposentados.

Segundo informações enviadas pela Receita Federal à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga o crime organizado, entre 2022 e 2024, o Master registrou uma receita de R$ 2,4 bilhões com venda da carteira de consignados do CredCesta, contra R$ 1,9 bilhão de receita gerada pelas mesmas operações.

Essas diferenças poderiam indicar que o banco de Daniel Vorcaro apostava no ágio que poderia ganhar com a revenda dessas carteiras.

Daniel Vorcaro

Crédito,PF

Legenda da foto,Daniel Vorcaro está preso acusado de ter comandado fraudes bilionárias no Banco Master

Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, era o governador da Bahia na época da privatização da estatal Ebal, gestora dos supermercados Cesta do Povo e que incluía também o CredCesta. Já Jaques Wagner (PT-BA), atual líder do governo no Senado, era secretário de Desenvolvimento Econômico do estado em 2018.

E segundo as acusações feitas por Flávio Bolsonaro e seus apoiadores, Costa e Wagner estariam entre os que ajudaram a estruturar o modelo do consignado e favoreceram a expansão do banco.

Informações reveladas pelo Metrópoles apontam ainda que a empresa da nora de Jaques Wagner manteve contrato com o Banco Master durante três anos e recebeu pagamentos da instituição entre 2022 e 2025.

Costa afirma que apenas vendeu um negócio estatal deficitário para reduzir o prejuízo público, nega irregularidades e fala em "desinformação".

Já Wagner nega qualquer envolvimento, dizendo que não participou de negociações ou intercedeu por empresas ou contrato. "Quando recebemos o governo na Bahia, havia uma rede estatal de supermercados com um prejuízo anual de R$ 80 milhões. Quando Rui Costa era governador, eu era secretário de Desenvolvimento Econômico, e falei: 'vamos privatizar isso aí'", afirmou em entrevista ao Metrópoles.

O senador disse que, após o processo de privatização, não participou de negociações posteriores. Também afirmou que o envolvimento da empresa de sua nora com o Master ocorreu em momento seguinte e se restringiu à prestação de serviço ao banco.

'O PT não quis investigar'

Em diversas outras postagens em suas redes sociais, Flávio Bolsonaro associou o caso Master ao PT, ao presidente Lula e à esquerda.

"Os lulapetistas têm muito a explicar. Eles são Masters em esquemas esquisitos e suspeitos", disse em 25 de março.

Em todas as suas manifestações, Flávio cobrava a instauração de uma CPI para investigar o caso.

Em um vídeo postado em seu Instagram em 9 de maio, o senador chega a dizer que o presidente Lula pode até dizer publicamente que é a favor da comissão parlamentar, mas na verdade "o PT foi contra a CPI".

"Os deputados do PT não assinaram. Só que agora não dá mais para segurar. Aí vem o teatro", diz. "E eu te pergunto: Será que o PT tá contra a CPI porque envolve políticos da Bahia que eles controlam a mais de 20 anos? Ou será porque a família do Jaques Wagner, líder do PT, recebeu 11 milhões em uma empresa ligada ao caso?"

"A verdade é simples, o PT não quis investigar, tentou travar, mas não conseguiu", afirma ainda o senador.

Em uma postagem de 10 de maio, Flávio volta a dizer que o escândalo do Banco Master "é do Lula":

"O Banco Master é do Lula. Escândalo do INSS é do Lula, assim como o Mensalão foi do Lula, Petrolão foi do Lula", disse.

'Está longe de chegar perto da direita'

Quando foi noticiado, em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que isso aconteceu "sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive".

"Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita", afirmou o senador.

Durante a entrevista, Flávio Bolsonaro ainda direcionou críticas ao governo atual, mencionando reuniões que, segundo ele, não foram públicas inicialmente.

"O que nós temos visto, na verdade, são as agendas que foram feitas com Lula, que não foram públicas, vieram a público apenas depois, por várias oportunidades, inclusive com a presença do presidente do Banco Central, o Galípolo", afirmou.

A fala é uma referência a uma reunião entre o presidente Lula e Vorcaro no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, não registrada em agenda oficial.

O encontro ocorreu no gabinete de Lula e durou cerca de uma hora e meia, segundo o Metrópoles.

Dois dias antes da revelação sobre as doações de Vorcaro à campanha de Jair Bolsonaro, Flávio participou em um evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes, em que classificou o caso como um "grande esquema de roubalheira que está dando nojo a todo o país".

O senador voltou a dizer que o presidente Lula tem propagado uma "narrativa falsa" para vincular o escândalo à parlamentares de oposição e citar o envolvimento de Jacques Wagner e Rui Costa.

Flávio Bolsonaro também comentou a respeito da expectativa de um possível acordo de delação premiada de Daniel Vorcaro."Vamos esperar ver que as investigações que estão ocorrendo de forma séria e com uma polícia federal imparcial, finalmente, a verdade possa vir à tona. Nós esperamos que o Daniel Vorcaro faça sua delação e entregue tudo o que ele sabe", disse.