Política
Operação da PF derruba Fábio da vice e Gisela Simona emerge como aposta de Pivetta para virar a página da crise
Deputada federal assume posto na chapa governista após desistência de Fábio Garcia; mudança ocorre em meio às restrições impostas pelo STF a investigados da Operação Heritage, que apura suposto desvio de R$ 308 milhões
A Operação Heritage atravessou de vez os portões da política e provocou uma reviravolta na disputa pelo Governo de Mato Grosso.
Poucas horas depois de o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) desistir de concorrer a vice-governador, a também deputada federal Gisela Simona (União Brasil) foi escolhida para ocupar seu lugar na chapa encabeçada pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos).
A definição ocorreu nesta terça-feira (11), após uma sequência frenética de reuniões e articulações no Palácio Paiaguás.
Gisela chega à chapa em meio à maior turbulência enfrentada até agora pelo grupo governista na construção de seu projeto eleitoral.
A troca acontece poucos dias depois da deflagração da Operação Heritage, da Polícia Federal, que investiga um suposto esquema envolvendo aproximadamente R$ 308 milhões relacionados a um acordo entre o Estado de Mato Grosso e a operadora Oi.
Fábio Garcia e o ex-governador Mauro Mendes, presidente estadual do União Brasil, figuram entre os investigados. As suspeitas ainda estão em fase de investigação e não representam condenação.
Heritage muda o jogo
Além das buscas realizadas pela Polícia Federal, medidas cautelares impostas no âmbito da investigação atingiram diretamente a articulação política do grupo.
Entre elas está a proibição de contato entre determinados investigados.
Fábio Garcia justificou sua saída da vice justamente pelas dificuldades políticas decorrentes das restrições impostas após a operação. Ele deixa a majoritária e volta suas atenções à disputa pela reeleição à Câmara dos Deputados.
A saída obrigou o grupo governista a reconstruir a chapa praticamente às vésperas do prazo para registro das candidaturas.
E foi nesse cenário que Gisela Simona ganhou força.
A escolha preserva para o União Brasil a vaga de vice e, ao mesmo tempo, coloca ao lado de Pivetta uma candidata que não aparece entre os investigados citados no caso Heritage.
Politicamente, a solução também permite ao grupo tentar deslocar o debate da crise policial para uma nova composição eleitoral.
De Fábio para Gisela
Advogada e servidora pública de carreira, Gisela construiu parte importante de sua projeção pública no Procon de Mato Grosso.
Posteriormente, avançou para a política eleitoral, disputou a Prefeitura de Cuiabá em 2020 e chegou à Câmara dos Deputados.
Agora, entra na disputa mais importante de sua trajetória política.
A parlamentar afirmou receber o convite com “alegria e responsabilidade” e transformou uma frase em espécie de cartão de apresentação para a nova missão:
“Quem me conhece sabe que eu não desperdiço porta aberta.”
A porta que se abriu para Gisela, entretanto, surgiu no meio de uma tempestade política.
Até poucos dias atrás, Fábio Garcia era o nome escolhido para acompanhar Pivetta. A Operação Heritage alterou o ambiente, atingiu figuras centrais do grupo e obrigou seus principais líderes a reorganizarem a estratégia eleitoral em velocidade máxima.
Mulher, cuiabana e servidora
Ao assumir a missão, Gisela procurou marcar as diferenças que pretende acrescentar à chapa.
“É uma honra. Esse convite é fruto de toda uma trajetória e daquilo que eu represento, como mulher, como cuiabana, como servidora pública. É com alegria e responsabilidade que eu aceito esse desafio”, declarou.
A deputada também sinalizou que pretende levar para a campanha temas relacionados às mulheres, aos servidores públicos e às regiões periféricas.
Para o grupo governista, sua presença acrescenta ainda um componente eleitoral importante: Gisela possui trajetória política ligada à Baixada Cuiabana, enquanto Pivetta construiu parcela significativa de sua carreira política no interior do Estado.
A nova composição, portanto, busca equilibrar geografia, gênero, experiência administrativa e representação partidária.
“Bateu, levou”
Mas Gisela também deixou claro que não pretende entrar na campanha apenas para desempenhar papel protocolar.
Ao lado de Pivetta, avisou que responderá aos ataques dos adversários.
“Assim como baterem, a gente vai reagir e mostrar sempre a verdade. Ela tem que prevalecer em todos os momentos”, afirmou.
O recado antecipa o clima da campanha.
Com a Heritage ocupando o centro do debate político e nomes importantes do grupo governista sob investigação, a oposição deverá explorar o episódio durante a corrida eleitoral.
Gisela sinaliza que pretende partir para o enfrentamento.
Operação que balançou o tabuleiro
A Operação Heritage apura suspeitas de crimes relacionados ao sistema financeiro, peculato, lavagem de dinheiro e eventual utilização indevida de informações privilegiadas.
Segundo a investigação, uma estrutura envolvendo fundos de investimento e pessoas jurídicas teria sido utilizada para movimentar recursos provenientes do acordo envolvendo créditos da Oi.
As suspeitas estão sendo apuradas e os investigados têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência.
O próprio Pivetta já saiu publicamente em defesa de seus aliados, afirmando acreditar na inocência de Fábio Garcia e Mauro Mendes.
Independentemente do resultado futuro das investigações, porém, o impacto político já aconteceu.
Em questão de dias, a operação atingiu o núcleo político que sustentava a chapa, dificultou a interlocução entre aliados, contribuiu para a desistência do candidato a vice e obrigou Pivetta a apresentar uma nova companheira de campanha.
Gisela entra no olho do furacão
É nesse cenário que Gisela Simona deixa a condição de coadjuvante nas articulações e passa diretamente para o centro da eleição estadual.
Sua missão será dupla.
De um lado, ajudar Pivetta a ampliar a presença da chapa entre mulheres, servidores públicos, eleitores da Baixada Cuiabana e segmentos populares.
Do outro, participar da tentativa de blindar politicamente uma candidatura que entra oficialmente na campanha carregando os reflexos de uma investigação federal que abalou sua principal estrutura de sustentação.
A escolha resolve a vice.
Mas não encerra a crise.
Ao contrário: com o início oficial da campanha batendo à porta, Gisela entra na chapa justamente quando a temperatura política de Mato Grosso começa a ferver — e a Operação Heritage promete permanecer como uma das sombras mais incômodas da corrida pelo Palácio Paiaguás.