Política
VEJA O VÍDEO; CANDIDATA “DENOREX”? Delegada denuncia Janaina Riva e expõe contradição no discurso de defesa das mulheres
Em vídeo publicado no próprio Instagram, Ana Cristina Feldner afirma ter sido retirada da suplência sem aviso, levanta suspeita de violência política de gênero e promete novas revelações
Uma denúncia publicada nas redes sociais abriu uma crise no discurso político de Janaina Riva (MDB) e colocou sob questionamento a imagem de defensora das mulheres construída pela candidata ao Senado.
A delegada aposentada Ana Cristina Feldner, que chegou a ser anunciada como suplente de Janaina, rompeu o silêncio e afirmou que foi retirada da chapa sem qualquer comunicação prévia. Em uma manifestação contundente, Feldner disse ter sido profundamente desrespeitada e questionou publicamente se teria sido vítima de violência política de gênero.
As acusações foram feitas pela própria delegada, em vídeo publicado em seu perfil pessoal no Instagram. Esta reportagem reproduz declarações de interesse público feitas de forma aberta nas redes sociais, preservando o sentido da manifestação, sem afirmar que as acusações estejam judicialmente comprovadas.
O episódio revela uma aparente contradição entre o discurso público da candidata e a experiência relatada por uma mulher que participou de sua própria chapa.
É a velha diferença entre discurso e prática. Uma espécie de “candidata Denorex”: fala em defesa das mulheres, apresenta-se como representante das mulheres, mas, segundo a denúncia de Feldner, não teria demonstrado o mesmo compromisso ao tratar uma mulher dentro do próprio grupo político.
“Nunca fui tão desrespeitada enquanto mulher”
Com 25 anos de serviço público e uma longa trajetória na Polícia Civil, Ana Cristina Feldner afirmou que nunca havia enfrentado situação semelhante.
“Em toda a minha trajetória, em meus 25 anos de serviço público, eu nunca fui tão desrespeitada enquanto mulher”, declarou.
A delegada aposentada foi além e questionou se a maneira como foi afastada da chapa poderia ser enquadrada na legislação de combate à violência política contra a mulher.
“Diante de tudo o que eu vivi, hoje me pergunto: será que eu não fui vítima do crime de violência de gênero? Porque a gente acha que essa violência política é praticada apenas pelos homens. Mas eu me questiono hoje: pela lei, uma mulher também pode ser autora deste crime?”, indagou.
A declaração representa um questionamento formulado por Feldner e não uma conclusão jurídica sobre a ocorrência de crime. Uma eventual responsabilização dependeria da apuração dos fatos pelas autoridades competentes, com contraditório e ampla defesa.
No campo político, porém, a acusação atinge diretamente uma das principais bandeiras usadas por Janaina Riva.
A “farinha” do empoderamento feminino
Feldner contou que aceitou integrar o projeto por acreditar nas causas defendidas publicamente pela parlamentar, especialmente a valorização das mulheres, o empoderamento feminino e a ampliação da participação feminina na política.
Segundo a delegada, entretanto, o tratamento recebido nos bastidores teria sido completamente diferente do discurso apresentado ao eleitorado.
“A primeira farinha dessa padaria é a ‘defesa’ das mulheres, o ‘empoderamento feminino’, a ‘luta das mulheres’. E eu posso dizer para vocês: eu não vi nada disso, não foi assim que eu fui tratada”, criticou.
A delegada ressaltou que sua indignação não estaria relacionada somente à perda da vaga, mas à maneira como a substituição teria sido conduzida.
“Não se trata de lugar na fila do pão. O cargo pouco interessa, indicações vêm, cargos passam. A candidata ao Senado Janaina Riva não me representa como mulher”, afirmou.
A declaração provoca uma pergunta politicamente incômoda: como pedir o voto feminino em nome da representatividade quando uma mulher que integrava a própria chapa afirma ter sido desrespeitada e afastada sem aviso?
Delegada promete novas revelações
Feldner também deixou no ar a possibilidade de divulgar novas informações sobre o grupo político. Ao final do vídeo publicado no Instagram, mencionou uma “segunda farinha” relacionada à honestidade e ao combate à corrupção.
“Esqueci de falar da segunda farinha desse pão: a farinha da honestidade, do combate à corrupção. Mas vamos deixar. Depois do dia 17 a gente grava a segunda farinha”, declarou.
A delegada não apresentou, nessa primeira manifestação, documentos ou detalhes que comprovem a existência de eventuais irregularidades. As afirmações, portanto, permanecem no campo das acusações e deverão ser acompanhadas dos respectivos elementos de prova caso novas denúncias sejam formalizadas.
Ainda assim, a promessa aumenta a temperatura da campanha e cria expectativa sobre o que uma ex-integrante das articulações internas da chapa poderá revelar.
Troca na suplência levanta questionamentos
Após a saída de Ana Cristina Feldner, a vaga de suplente foi ocupada pelo empresário Rafael Yamada Torres, filho do empresário Wanderley Facheti Torres, proprietário da construtora Trimec.
O nome da família já foi mencionado em notícias relacionadas a desdobramentos da Operação Ararath, investigação conduzida pela Polícia Federal sobre supostos esquemas financeiros em Mato Grosso. A eventual citação de uma pessoa em investigação, documento ou delação não representa condenação nem comprova a prática de crime.
Também foram levantados questionamentos sobre eventuais relações empresariais envolvendo Rafael Yamada Torres e o fundo de investimento Coliseu, que figurou em apurações relacionadas a transações financeiras envolvendo a operadora Oi. As circunstâncias desses supostos vínculos precisam ser documentalmente esclarecidas, sem qualquer antecipação de culpa.
Politicamente, uma pergunta permanece sem resposta: por que uma delegada aposentada, inicialmente apresentada como integrante da chapa, teria sido substituída sem aviso por um empresário ligado a um grupo de forte expressão econômica?
A outra face de Janaina
O episódio ultrapassa uma simples reorganização eleitoral. Ele coloca em discussão a coerência entre aquilo que Janaina Riva defende nos discursos e a forma como, segundo Feldner, conduz suas articulações nos bastidores.
A candidata que se apresenta como voz das mulheres agora é publicamente questionada por uma mulher que chegou a compor sua chapa. A parlamentar que defende o empoderamento feminino terá de explicar por que a delegada afirma ter sido retirada da suplência sem sequer ser comunicada.
Ana Cristina Feldner abriu uma janela para os bastidores da campanha e anunciou que ainda poderá falar sobre uma “segunda farinha”.
As próximas declarações poderão esclarecer se o caso representa apenas uma divergência interna ou se existe uma distância maior entre o discurso eleitoral de Janaina Riva e suas atitudes políticas.
O espaço permanece aberto para que Janaina Riva, Rafael Yamada Torres e os demais mencionados apresentem suas versões e esclarecimentos.