Brasil
Fase emergencial em São Paulo esbarra em falta de auxílio financeiro: “Preciso trabalhar”
Ônibus e estações de metrô da capital paulista ficam lotados nesta segunda, primeiro dia de restrições no Estado. Lojas da 25 de Março ficam semiabertas e Doria não descarta ‘lockdown’, mas trabalhadores reclamam de falta de auxílio. “250 reais é uma merr
O Governo estadual ainda sugeriu, na fase emergencial, um escalonamento dos horários para uso do transporte público para evitar a aglomeração entre quem depende dos ônibus e metrôs para trabalhar: das 7h às 9h iriam os trabalhadores de indústria; das 9h às 11h os de serviço; e por último, das 11h às 13h, quem trabalha no comércio. Faltou, entretanto, combinar com os russos. “É uma boa sugestão, mas nem toda empresa oferece essa condição ao empregado”, opina Davi Freitas, 30, funcionário de um armazém numa empresa do centro. Freitas estaria na categoria “trabalhadores de serviço”, mas já marcava presença no terminal às 7h40 da manhã; ele saiu de sua casa, no Limão (zona norte), uma hora antes.
A menos de 500 metros dali, a Rua 25 de Março ―símbolo do comércio popular paulistano―, funcionava a todo vapor às 8h. A fiscalização da Prefeitura, concentrada em poucas esquinas apesar de contar com dezenas de fiscais, era tranquilamente despistada por vendedores ambulantes e outras atividades classificadas como não essenciais. Nas vitrines fechadas das lojas proibidas pela fase emergencial, o aviso em papel: “bata na porta para entrar”. “O governador e prefeito não têm moral. Os fiscais são a mesma coisa que nada”, desabafa Edilson Silva, 33 anos, segurança de uma das galerias na rua. “Seria importante obedecer, se é para acabar com o vírus. Mas não dão nada em troca, nem uma cesta básica. Vão dar 250 reais, que é uma merreca”, disse, se referindo ao possível valor do novo auxílio emergencial do Governo federal.
A atividade de Silva é considerada essencial, segundo a classificação do Governo paulista. O segurança chegou às 7h30 para passar o dia vigiando a entrada uma galeria comercial que, segundo ele, está seguindo as regras do decreto estadual. Os donos têm receio de invasões e arrombamentos enquanto o comércio está fechado, por isso mantiveram o serviço do segurança. Ele saiu da Cachoeirinha, na zona norte, e não notou diferença na quantidade de passageiros nas conduções que usou. Já Marcia Aparecida, 32, que estava no centro para fazer seu exame admissional no novo emprego como cozinheira, disse que pegou ônibus bem mais vazios no caminho que começou em Embu das Artes, no oeste da região metropolitana, e passou por três conduções. “Foi até estranho. Mas podia diminuir mais a muvuca se tivessem mais ônibus”, acrescentou.
Mais ao norte da região central, a Estação da Luz une as linhas 7 e 11 da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e 1 e 4 do metrô, tendo um volume de quase meio milhão de pessoas transitando por sua estrutura centenária todos os dias. Às 8h30 de uma segunda-feira, de acordo com um funcionário, a estação “estaria um formigueiro” com tamanha concentração de pessoas. A situação não chegou a tanto no primeiro dia de fase emergencial, mas poucos minutos são o suficientes para observar centenas de pessoas saindo dos vagões e se afunilando em estreitas escadas para fazer a baldeação. Por mais de uma vez, trens de diferentes destinos chegam ao mesmo tempo nas plataformas, piorando a aglomeração. Não há controle do fluxo de passageiros pelos funcionários do metrô.
“Ainda não dá para ver nitidamente quais serão os impactos dessa fase emergencial na pandemia. Eu acho que foi um bom começo. Se conseguirem seguir à risca, devem ter boas condições de reverter [o cenário atual da pandemia]”, afirmou com otimismo o servidor Davi Freitas. Mas o primeiro dia da fase emergencial provou que “seguir à risca” depende de mais do que fechar parques, sugerir escalonamentos e regular atividades não essenciais. Enquanto não houver auxílio financeiro, os trabalhadores indicam que o metrô continuará tão cheio quanto as UTIs.