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'Agora eu posso rir porque tenho meus dentes', diz menino que teve sonho realizado por dentista quase 5 anos após tratamento

Aos 6 anos, Ryan Coutinho perdeu todos os dentes da arcada superior e sensibilizou Amanda Mattos, que colocou próteses para cuidar do problema dele. Hoje, aos 10 anos, ele celebra os dentes próprios

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM G1 02/04/2021
O sonho simples de sorrir e a transformação de duas vidas: Ryan Coutinho, hoje com 10 anos, e Amanda Mattos, dentista que ficou sensibilizada com a história do garotinho da zona rural de Guajeru, no sudoeste da Bahia, que queria apenas ser igual aos coleguinhas. Após quase cinco anos do início do tratamento, Ryan já é dono de um sorriso próprio, sem o auxílio das próteses que usou durante esse período. "Eu brinco, eu 'rio', antes eu não tinha dente, eu não ria, eu só fazia fechar a boca, que eu não podia rir, né, porque só saía a gengiva. Mas agora não. Agora eu posso rir porque eu tenho meus dentes", completa o garotinho.

Em 2016, a história dele foi compartilhada pela dentista Amanda Mattos e emocionou milhares de pessoas pelo gesto simples da dentista, mas transformador para a vida de Ryan. "Ele sofre um processo de agenesia [anomalia caracterizada pela ausência congênita de dentes]. Tem uns dentes que ele não vai ter. Não sabemos se é questão genética, ou se foi arrancado precocemente", conta Amanda.

À época que a dentista começou a fazer o tratamento de Ryan, ele tinha 6 anos. No dia em que colocou a primeira prótese, ele emocionou a equipe ao se levantar da cadeira de assistência odontológica e começar a chorar. Ainda hoje, quando lembra desse momento, Amanda vai às lágrimas.

"Não era só dente, era muito além daquilo. Hoje ele conversa com todo mundo, brinca, a fala melhorou, uma mudança de vida no geral. Hoje ele entra sorrindo. Antes, ele vivia com blusa com capuz, para se esconder", lembra.

Amanda conta também que o tratamento deve seguir até a fase adulta. "Estamos preparando ele para correção ortodôntica para os dentes que ele tem. Preparação de espaços, estímulo ósseo. 18 anos é uma previsão que a gente tem para fazer o implante definitivo dele", conta.

A dentista revela que o sucesso da história de Ryan foi um divisor de águas na vida pessoal e profissional. Para ela, o grande ensinamento é o poder da multiplicação.

Amanda ainda conta que estabeleceu um laço de amizade com Ryan e também não deixa de acompanhar o tratamento. "Ele tem 12 dentes, faltam 3 dos que ele terá. Para a idade, ele deveria estar em dentição mista (dentes de leite e permanente), com 24 dentes. A troca de dentes vai em média até os 13 anos. Hoje ele está sem prótese porque ele vai começar a usar aparelho", conta Amanda.

Apesar da pandemia do novo coronavírus ter reduzido a frequência das idas de Ryan ao consultório, o tratamento não foi interrompido e ele vai até Caculé, onde a dentista mora e atende em uma clínica particular, ao menos uma vez a cada três meses, com o carro da "feira", que segue para a cidade aos sábados.

Mesmo com dificuldades financeiras, a mãe de Ryan, Fátima Coutinho, conta que faz questão de levar o filho para seguir com as consultas e acompanhamento. O esforço dela e do companheiro, que trabalham na roça e sobrevivem do que plantam, é recompensado com a transformação que o filho passou.

Com a pandemia, Ryan se divide em ajudar a mãe na roça, que dá o sustento da família, e fazer as tarefas da escola, que ele faz a cada 15 dias religiosamente.

"Eu pego lá na escola, trago pra casa, ajudo ele a fazer, o que sei, o que a gente não sabe, a gente pesquisa no celular. E, com 15 dias, a gente leva para o professor corrigir e traz outra de novo. Ele tem feito as tarefas sempre", conta.

Para a dentista, todos têm o poder de multiplicar e transformar o outro, depende de cada um. "Brotou uma sementinha nas pessoas, com poucas coisas a gente consegue fazer o bem ao outro", afirma.