Brasil
Impasse entre Sputnik e Anvisa traz ecos da Guerra Fria e governadores à espera de milhões de doses
Brasil foi primeiro país a rejeitar imunizante pois agência brasileira não conseguiu atestar sua segurança e não recebeu todos os dados solicitados. Fundo Russo acusa Anvisa de querer favorecer os EUA e ameaça processá-la. Consórcio do Nordeste negocia 66
O embate público entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e os desenvolvedores da vacina russa Sputnik V após o Brasil rechaçar o imunizante na última semana estreou um capítulo intenso de uma longa novela para fazer a vacina chegar no país e chamou a atenção internacional. De supostas conspirações a acusações públicas, subiu a temperatura da crise que caiu como uma bomba especialmente para governadores do Nordeste, que negociam a compra de 66 milhões de doses e agora estão divididos sobre a estratégia de voltar a judicializar a questão. De um lado, já pressionada por um prazo estabelecido Supremo Tribunal Federal para manifestar-se sobre o imunizante, a Anvisa rejeitou a importação de doses da Sputnik V por supostas falhas de segurança. Alegou a ausência de dados e a identificação de outros problemas ―o mais grave deles a suposta presença de adenovírus replicante no imunizante, o que poderia causar doenças. Do outro lado, veio ferina a reação do Fundo Russo de Investimentos (patrocinador do imunizante), que acusou publicamente no Twitter a agência brasileira de tomar uma decisão contaminada por pressões geopolíticas sob orientação dos Estados Unidos. Por fim, ameaçou processá-la na Justiça por difamação.
Ao tom duro adotado pelos desenvolvedores, que afirmaram que a Anvisa havia mentido ao dizer que o imunizante contém vírus replicante capaz de provocar doenças, somam-se as respostas contundentes de técnicos e diretores da agência, que chegaram a divulgar até trechos sigilosos de reuniões com o Instituto Gamaleya, fabricante da Sputnik, nas quais pediam esclarecimentos. “A decisão hoje foi um pouco mais firme, digamos assim, ou expressiva, porque o Estado foi achincalhado no exterior, acusado de veicular mentira, de gerar fake news, de agir sob pressões de potências estrangeiras. Foi ressuscitada a Guerra Fria, uma coisa que já acabou há muito tempo”, disparou o presidente Antônio Barra Torres, em coletiva na quinta-feira (29).
Barra Torres acusou o Fundo Russo de fazer “manobra retórica”. “Foram apresentados dados que representavam uma ameaça à saúde da população”, afirmou ao jornal Valor Econômico. Segundo o gerente de medicamentos do órgão, Gustavo Mendes, a documentação fornecida pelo fabricante permitiria uma quantidade de vírus replicante muito maior do que a taxa permitida pelo FDA americano. O Instituto Gamaleya, por sua vez, sustenta que a Anvisa deu “declarações incorretas e enganosas sem ter testado a vacina”. Por conta da pandemia, a agência reguladora brasileira chegou a simplificar o processo para a autorização de uso emergencial de vacinas contra a covid-19, mas alega que a Sputnik V não cumpre neste momento todas as exigências nem apresentou todos os dados solicitados.