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Rússia certifica remédio ainda em testes contra a Covid-19; veja o que se sabe sobre o antiviral

06/06/2020
A Rússia anunciou, na quarta-feira (3), que certificou o antiviral Avifavir para o tratamento da Covid-19. O medicamento ainda está em fase de testes e é uma versão modificada do antiviral experimental favipiravir, de origem japonesa.    

Segundo o Fundo Russo de Investimento Direto (RDIF, na sigla em inglês), que anunciou a certificação do Avifavir em uma nota à imprensa, o remédio mostrou "alta eficácia" em ensaios clínicos feitos com 330 pacientes em 35 centros médicos. Os testes começaram em 21 de maio e ainda estão em andamento.

A empresa não divulgou nenhum artigo científico com os resultados da pesquisa nem detalhou quais foram as modificações feitas no medicamento japonês.

Ao G1, o fundo informou que os dados foram submetidos a uma publicação científica e serão divulgados "em breve". As primeiras remessas do Avifavir chegarão aos hospitais russos a partir do dia 11. Ao longo do mês, eles devem receber 60 mil doses, de acordo com o RDIF.

Nesta reportagem, além de informações sobre os testes na Rússia, você verá que:

  • A versão original do favipiravir ainda está em testes para a Covid-19 no Japão, onde é aprovado (mas não comercializado) para tratar Influenza.
 
  • Um estudo sobre a ação do remédio para o novo coronavírus já foi publicado na China.
  • Outros países, incluindo os Estados Unidos, também fazem experimentos com a substância.
 
  • Ensaios russos

 
  • Segundo o fundo russo, a eficácia do Avifavir ficou acima de 80%, critério para drogas com "alta atividade antiviral". A empresa não disse, entretanto, qual era o grau dos sintomas de Covid-19 dos pacientes que participaram do estudo, nem se eles tinham alguma outra doença.
 
  • O fundo divulgou que, em um teste com 40 pacientes que tomaram o remédio, 65% testaram negativo para a Covid-19 depois dos primeiros 4 dias de tratamento; entre os que não tomaram, metade teve esse resultado. No 10° dia, 90% dos pacientes já haviam se recuperado.

    Em 10 dias de ensaios clínicos, o tempo de eliminação do novo coronavírus foi de 4 dias para pacientes que tomaram o remédio, comparado a 9 dias naqueles que não receberam.

    “O medicamento tem um mecanismo de ação claro – bloqueia a replicação do vírus dentro da célula, atrapalhando seu ciclo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o Avifavir não suprime processos similiares ocorrendo em células humanas, e por isso não é tóxico para elas", afirmou Konstantin Balakin, chefe do Departamento de Química da Universidade Federal de Kazan.

    O remédio também "demonstrou segurança, com nenhum efeito colateral novo ou que não tivesse sido informado antes", relatou a empresa.

    Para a infectologista Rosana Richtmann, do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo, não é possível tomar decisões clínicas sem ler o estudo completo. "Qualquer droga que venha para benefício dos nossos pacientes e que não cause dano é sempre muito bem vinda. O que não pode é sair prescrevendo sem ler e analisar a parte científica".

    Os testes do remédio ainda estão ocorrendo em Moscou, São Petersburgo, Tver, Nizhny Novgorod, Smolensk, Ryazan, Kazan, Ufa e na República do Daguestão.

    Antiviral de origem

     

    Os cientistas russos modificaram o antiviral favipiravir, de origem japonesa. No Japão, o medicamento foi aprovado sob o nome comercial "Avigan", mas não é vendido nem em hospitais, nem em fármacias no Japão ou fora do país, segundo a fabricante de origem (Toyama Chemical, uma subsidiária da Fujifilm).

    Além da Toyama Chemical, outros 7 laboratórios no mundo desenvolvem o medicamento, incluindo três ligados à Fujifilm, um às Forças Armadas dos Estados Unidos e um na China, de acordo com a base de dados AdisInsight.

    O remédio vem com um alerta para mulheres grávidas e em idade fértil. Ele também é detectado no esperma; por isso, recomenda-se o uso de preservativo para homens.

    O antiviral foi originalmente pensado para tratar gripe. Mas, conforme a própria Toyama Chemical, o seu uso deve ser considerado apenas quando há um surto de um vírus Influenza novo ou reincidente contra o qual outros antivirais não tenham o efeito necessário. Nesses casos, cabe ao governo japonês decidir usar a droga.

    Segundo a fabricante, o favipiravir tem um mecanismo de ação que impede a propagação de vírus e "pode ter um potencial efeito antiviral" no Sars-CoV-2 (nome do novo coronavírus), porque ele, assim como os vírus da família influenza, tem apenas uma fita de RNA.

    No início de maio, o primeiro-ministro, Shinzo Abe, chegou a exaltar o potencial da droga para a Covid-19 – ele afirmou que o remédio seria "crucial" para combater a doença – mas, no dia 26, o ministro da Saúde japonês, Katsunobu Kato, anunciou que aprovação da droga havia sido adiada para junho "ou mais tarde", segundo a agência de notícias Reuters.

    De acordo com a agência, Kato disse que o governo pretendia aprovar a droga se os resultados dos testes clínicos, conduzidos na Universidade de Fujita, mostrassem alta eficácia para tratar Covid-19. Mas um painel de especialistas que avaliou o relatório inicial dos testes declarou que era cedo demais para julgá-los cientificamente, o que fez com que os ensaios continuassem.

    Além da universidade, a droga está sendo testada pela própria Fujifilm. O Japão também anunciou, no mês passado, que enviaria o remédio a 43 países para experimentos contra o novo coronavírus.

    Pesquisa chinesa

     
    Em março, cientistas do Terceiro Hospital do Povo, em Shenzhen, na China, publicaram um ensaio clínico em que testaram o favirapivir contra o novo coronavírus: 35 pacientes receberam o favirapivir, e outros 45 foram tratados com outro antiviral (que serviu de grupo controle). Não foram incluídos casos graves de Covid-19.
     

    "Esses achados sugerem que o favipiravir tem efeitos de tratamento significativamente melhores na Covid-19 em termos de progressão da doença e eliminação viral, em comparação com o lopinavir/ritonavir", concluíram os autores.

    Os efeitos colaterais do remédio também foram menos graves do que os causados pelo outro antiviral, o que, segundo os autores, contribuía para um tratamento prolongado se necessário.

    Eles lembraram que o estudo teve limitações, que levaram a um viés de seleção dos participantes:

    • não foi um ensaio clínico randomizado (em que os pacientes são colocados em cada grupo aleatoriamente);
    • não teve grupo de controle placebo (em que um grupo recebe uma substância inativa e não o tratamento em si ou outra droga);
    • não teve duplo-cego (método em que nem os pacientes nem os médicos sabem quem está recebendo qual tratamento).
     
    • Testes nos EUA

       

      Nos Estados Unidos, testes com o favipiravir para a Covid-19 começaram em abril, com 50 pacientes em três hospitais: no Hospital Geral de Massachusetts, um dos maiores do país; no Brigham and Women’s Hospital; e no hospital da faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts. A previsão é que os primeiros resultados saiam em agosto.

      Em uma entrevista de abril, publicada na página de inovação do Hospital Geral de Massachusetts, o médico Boris Juelg, que coordena as investigações com o remédio no hospital, explicou a decisão de testar o remédio lá.

      "Ele tem alguma atividade contra o ebola. Foi testado na África Ocidental na época em que houve os surtos, mas não em grandes ensaios clínicos randomizados e controlados. Portanto, não há evidências claras para dizer que definitivamente funciona. Dado que possui atividade antiviral, agora estão testando contra o Sars-Cov-2, contra o qual demonstrou atividade", afirmou.

      Antiviral americano

       

      No mês passado, o presidente americano, Donald Trump, autorizou o uso emergencial do antiviral experimental remdesivir contra a Covid-19. O remédio melhorou o tempo de recuperação dos pacientes de 15 para 11 dias.

      O remdesivir havia sido pensado, originalmente, para tratar hepatite, mas não funcionou; também foi testado para o ebola, mas não teve resultados promissores, segundo o jornal americano "The New York Times".

      O medicamento também mostrou eficácia contra a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês) em uma pesquisa feita em macacos. O vírus causador da doença também é da família corona, como o Sars-CoV-2 (nome do novo coronavírus).