Mundo
Migração de brasileiros para EUA via México aumenta 6,5 vezes em um ano
Foram mais de 46 mil deportados até setembro
28/09/2021

Mais de 46 mil brasileiros deportados
A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (US Customs and Border Protection) informou à CNN que o número de brasileiros que tentaram entrar de forma ilegal no país cresceu 6,5 vezes no último ano. Entre outubro de 2020 e setembro de 2021, 46.410 imigrantes do Brasil foram deportados contra 7.161 no período anterior. A maioria dos brasileiros tentou entrar pelas fronteiras do Arizona (28.538) e da Califórnia (14.266). Mais da metade viajava em família (34.636) e há registro de cinco menores detidos pela imigração. “O aumento de deportações, não apenas de brasileiros, é reflexo de uma combinação de vários fatores. Muitas pessoas pensaram que, depois do governo [de Donald] Trump, ficaria mais fácil cruzar a fronteira e pedir asilo, o que não aconteceu”, explica Jason De León, presidente do Colibrí Center for Human Rights, uma organização que atua na busca pelos desaparecidos na região. Na semana passada, o governo de Joe Biden realizou a deportação em massa de milhares de haitianos que tentavam atrasar para os Estados Unidos. “Muitos imigrantes chegam fugindo da violência, de eventos climáticos e por conta das consequências da pandemia de Covid-19, que teve impactos sanitários e econômicos”, afirma De León.Sonho americano
Daniel e Raiane tentaram entrar legalmente nos Estados Unidos, mas tiveram o visto negado duas vezes pelas autoridades do país. Foi aí que decidiram pagar coiotes (bandidos que providenciam a travessia ilegal) para cruzar a fronteira pelo México. “Eles queriam trabalhar, ter uma vida melhor. Venderam tudo o que tinham e pediram demissão”, conta a mãe. Em Ribeirão Preto, Raiane era operadora de telemarketing e Daniel trabalhava em uma distribuidora de óleos lubrificantes. Cada um pagaria cerca de R$ 100 mil para os coiotes pela viagem. Em São Paulo, os dois embarcaram em um voo para a Cidade do México, onde chegaram no dia 11 de fevereiro. De lá, pegaram um avião para Ensenada, no estado mexicano da Baixa Califórnia. Ali, foram recebidos por coiotes que os levaram de carro até Tijuana, cidade a 100 km de distância, já na fronteira com os Estados Unidos. O plano era atravessar, pelo mar, para San Diego, já nos Estados Unidos, e de lá viajar até o estado de Massachusetts, onde Daniel tem familiares. “Eles passaram um mês em Tijuana, tentaram atravessar três vezes, mas em todas elas precisaram voltar. Uma vez o barco quebrou, outra eles estavam sem rádio de comunicação e, na terceira, apareceram drones da polícia”, conta Sabrina. Na quarta tentativa, ligaram para a família às 4h37 para avisar que o fariam outra vez. No Brasil, Sabrina ouviu a voz ansiosa da filha e desejou boa sorte para os dois. Acordou no meio da noite, fez suas orações e, sem notícias, chegou a pensar que tinha dado tudo certo.
Agulha no palheiro
Autoridades locais estimam que cerca de 8.000 pessoas estejam desaparecidas entre o México e os Estados Unidos. Para organizações que atuam na fronteira, esse número pode ser entre três e sete vezes maior. “A situação piorou muito depois do 11 de setembro, quando as políticas de imigração ficaram mais restritas. Desde então, os imigrantes passaram a utilizar rotas mais perigosas para fugir da fiscalização”, explica Jason De León, da Colibrí. “O alto número de mortos e desaparecidos é resultado da política repressiva dos Estados Unidos, que trata essas pessoas como criminosas e se esquece que somos um país construído por imigrantes”, afirma Bob Feinman, vice-presidente da Human Borders, outra organização que atua na região. A fronteira entre os dois países tem mais de 2.500 km de extensão, com montanhas, rio, mar e deserto, o que dificulta a travessia e a busca pelos desaparecidos. A falta de registros institucionais e a ausência de compartilhamento de dados entre os dois países tornam a procura ainda mais complicada. “O primeiro que perguntamos é se as famílias sabem se a pessoa chegou a entrar nos Estados Unidos ou não, para ter uma ideia de onde começar a buscar”, diz Isabella Fassi, que trabalha nos canais de atendimento do Colibrí Center for Human Rights. Na organização, o primeiro passo é trocar informações com organizações locais que fazem buscas na região onde a pessoa desapareceu. Eles também cruzam as informações de características físicas da pessoa com os bancos de dados disponíveis. Do lado dos Estados Unidos, não há um órgão que se dedique à procura dos desaparecidos e os dados mais precisos são das deportações. No México, há o problema com os cartéis de tráficos de drogas e armas, que além de controlar a travessia ilegal na fronteira, sequestram imigrantes para o trabalho forçado. “Ninguém entra no território dos cartéis sem pagar imposto, ninguém cruza para os Estados Unidos sem autorização deles”, diz Isabella Fassi. Soma-se a isso o fato de que cada estado possui ferramentas próprias para registros dos corpos e testes de DNA. “A angústia é tão grande que muitas famílias acabam publicando dados e números pessoais na internet, e viram alvos de extorsão”, afirma.Mais lidas
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