Mundo

Quatro pontos para observar em discurso de Trump no Congresso nesta terça

Após um ano de turbulência política e queda de popularidade, presidente americano certamente terá muito o que discutir quando subir ao púlpito nesta terça-feira, às 23h (horário de Brasília)

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM CNN 24/02/2026
Quatro pontos para observar em discurso de Trump no Congresso nesta terça
Presidente dos EUA, Donald Trump, no Capitólio, em Washington | REUTERS/Ken Cedeno

Muita coisa mudou desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursou no Congresso há um ano.

Mas, em ao menos um aspecto, seu discurso sobre o "Estado da União" na noite desta terça-feira (24) provavelmente se assemelhará à sua última visita à Câmara.

"Será um discurso longo", disse ele, depois de ter proferido o discurso mais longo da história, em março do ano passado. "Temos muito o que discutir", acrescentou.

Após um ano de turbulência política e queda de popularidade, Trump certamente terá muito o que discutir quando subir ao púlpito nesta terça-feira, às 23h (horário de Brasília).

Tradicionalmente uma longa lista de feitos e propostas políticas, o discurso sobre o Estado da União costuma ser o evento de maior audiência televisiva do ano para um presidente dos EUA.

Para Trump, que aparece em diversos locais na televisão americana várias vezes por semana, o desafio será ir além das bravatas, queixas e promessas vagas que compõem seus eventos habituais.

No passado, ele chegou a discursar com pelo menos algumas surpresas, seja em seus comentários ou na presença de convidados nas galerias.

Aqui estão quatro pontos a serem observados no discurso de Trump.

Olho nas eleições legislativas de novembro

Trump entrará no Capitólio nesta terça-feira com o objetivo de desafiar as expectativas históricas: como ele costuma dizer, os partidos dos presidentes em exercício geralmente sofrem nas eleições de meio de mandato, que vão renovar toda a Câmara e parte do Senado dos EUA em novembro.

E os republicanos esperam que seu discurso sirva como pontapé inicial para uma campanha eleitoral que pode muito bem depender da própria posição de Trump entre os eleitores americanos.

Durante uma reunião fechada de estratégia política na semana passada entre altos funcionários da equipe de Trump, pesquisadores e estrategistas destacaram (talvez sem surpresa) que as questões econômicas irão ditar o resultado da eleição de novembro – e que focar nesse aspecto é imprescindível.

http://www.w3.org/2000/svg">

Presidente dos EUA, Donald Trump, no Capitólio, em Washington • 20/05/2025 REUTERS/Ken Cedeno
Presidente dos EUA, Donald Trump, no Capitólio, em Washington • 20/05/2025 REUTERS/Ken Cedeno

Em uma pesquisa da CNN realizada antes do discurso, 57% dos americanos apontaram a economia e o custo de vida como os temas mais importantes para o discurso desta terça-feira.

Trump, no entanto, costuma ter planos diferentes. Mesmo discursos aparentemente focados na economia acabam divagando em outras direções, incluindo sua política de imigração e antigas queixas sobre pessoas de quem ele não gosta.

Quando ele discute a economia, geralmente é para se vangloriar de sua relativa força – uma abordagem que alguns assessores do Partido Republicano temem que ela possa minimizar as preocupações econômicas dos americanos.

O discurso desta terça-feira será cuidadosamente elaborado, com referências a iniciativas de redução de custos, incluindo a diminuição dos preços de medicamentos prescritos e o corte de impostos.

Mas muitos americanos ainda dizem que a economia não está funcionando para eles – o que representa um teste para Trump, que terá que reconhecer que ainda há trabalho a ser feito.

Recuo no tarifaço

Quatro dias antes do discurso de Trump sobre o Estado da União, a Suprema Corte desferiu um golpe em um dos pilares de sua agenda: as tarifas unilaterais que ele tem usado como forma de pressionar o mundo todo, tanto no comércio quanto em sua política externa em geral.

Trump insiste que tem opções alternativas. Ele já anunciou que aplicaria uma tarifa global de 15% usando uma base legal diferente – mas ainda não testada.

Mesmo assim, a decisão foi um golpe, provocando significativa indignação de Trump mesmo dias depois, e quase certamente forçou algumas mudanças no discurso que ele planejava fazer.

Um dos principais problemas para Trump decorrente da decisão da Justiça foi a lista interminável de medidas políticas que ele alegou que seriam financiadas pelas tarifas.

Presidente dos EUA, Donald Trump, apresenta suas tarifas na Casa Branca, em Washington • 02/04/2025 REUTERS/Carlos Barria
Presidente dos EUA, Donald Trump, apresenta suas tarifas na Casa Branca, em Washington • 02/04/2025 REUTERS/Carlos Barria

Isso inclui um pacote de ajuda de US$ 12 bilhões para agricultores, anunciado no ano passado, e cheques de reembolso de US$ 2.000 para os americanos, cuja data de entrega nunca foi divulgada.

A forma como Trump lidará com as aparentes falhas de suas promessas anteriores permanece uma questão em aberto.

Tradicionalmente, pelo menos alguns juízes da Suprema Corte comparecem ao discurso sobre o Estado da União, geralmente sentados perto da frente.

Após a decisão de sexta-feira, Trump criticou duramente aqueles que votaram contra ele, em particular os dois conservadores que ele nomeou, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett.

Caso optem por comparecer, isso poderá provocar mais um ataque de fúria por parte do presidente.

Questões sobre o Irã

O enorme reforço militar em torno do Irã e as ameaças de guerra de Trump contra o país criarão um contexto tenso para o discurso desta terça-feira.

Embora o presidente tenha insinuado a possibilidade de uma mudança de regime e insistido para que o Irã não obtenha armas nucleares, ele ainda não explicou ao povo americano o que justificaria um conflito prolongado.

Parece improvável que ele use o discurso sobre o Estado da União para apresentar esse argumento. Seus assessores planejaram um discurso focado principalmente em assuntos internos.

E na pesquisa da CNN, apenas 2% dos entrevistados disseram que gostariam de ouvir o presidente falar sobre política externa em seu pronunciamento – o menor percentual entre todos os temas.

Ainda assim, os rumores de guerra levantaram questionamentos sobre quais justificativas o presidente realizaria um novo ataque contra líderes ou instalações iranianas.

Ele não fez nenhuma tentativa formal de obter o apoio do Congresso, que detém a autoridade constitucional para declarar guerra.

Imagem de satélite mostra que entradas do complexo nuclear de Isfahan, no Irã, foram cobertas com terra; entradas central e sul parecem ter sido totalmente enterradas • Cortesia Vantor
Imagem de satélite mostra que entradas do complexo nuclear de Isfahan, no Irã, foram cobertas com terra; entradas central e sul parecem ter sido totalmente enterradas • Cortesia Vantor

É mais provável que Trump fale sobre a operação do ano passado para destruir as instalações nucleares do Irã, algo de que ele frequentemente se vangloria ao enumerar as realizações de seu primeiro ano de volta ao cargo.

No entanto, isso pode levantar questões sobre as ações iminentes no Irã. Embora Trump afirme que as instalações nucleares foram "totalmente destruídas", ele agora sugere que novos ataques podem ser necessários para impedir que Teerã obtenha uma arma nuclear.

Resposta dos democratas

Após uma resposta caótica e desconexa ao discurso de Trump do ano passado – que incluiu a expulsão do deputado Al Green, que brandia uma bengala, do plenário — os democratas esperam, este ano, parecer mais unidos em sua oposição à mensagem de Trump.

A resposta oficial do partido será feita pela governadora da Virgínia, Abigail Spanberger, cujo discurso provavelmente abordará a questão da proteção da democracia americana, à medida que o país se aproxima do seu 250º aniversário.

http://www.w3.org/2000/svg">

A então candidata democrata ao governo da Virgínia, ex-deputada Abigail Spanberger, discursa em um evento de lançamento de campanha em 3 de novembro de 2025 em Richmond, Virgínia. • Win McNamee/Getty Images
A então candidata democrata ao governo da Virgínia, ex-deputada Abigail Spanberger, discursa em um evento de lançamento de campanha em 3 de novembro de 2025 em Richmond, Virgínia. • Win McNamee/Getty Images

Spanberger, que chegou ao governo estadual no ano passado com uma vitória de 15 pontos percentuais, ofereceu o que muitos democratas esperam ser uma prévia de uma temporada eleitoral vitoriosa.

Ela disse que abordaria “o aumento dos custos, o caos em suas comunidades e um medo real do que cada dia pode trazer”.

Mas essa tarefa está entre as mais delicadas da política.

Muitos em ambos os partidos que foram selecionados para a resposta oficial acabam, na melhor das hipóteses, esquecidos e, na pior, ridicularizados após o ocorrido.

Alguns democratas no Congresso planejam boicotar o discurso de Trump, optando por participar de diversas manifestações de protesto.