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A tragédia que se abateu sobre a fronteira de Ceuta: “Há mais mortos no mar”

Agentes da Guarda Civil recuperaram 67 vítimas e a cidade está preparando instalações com capacidade para 200 corpos

PEDRO RIBEIRO/DA EDITORIA/COM EL PAÍS 01/08/2026
A tragédia que se abateu sobre a fronteira de Ceuta: “Há mais mortos no mar”
Agentes do GEAS da Guarda Civil transportam o corpo de uma das vítimas de Ceuta | Joaquin Sanchez

Em pequenos grupos, sob águas cristalinas, as silhuetas de corpos submersos podem ser vistas bem perto da passagem de fronteira de El Tarajal, em Ceuta . Dois deles estão de mãos dadas. Trata-se da tragédia submersa, ainda em grande parte desconhecida, deixada pela travessia em massa desta semana vinda de Marrocos e pelas inúmeras tentativas de chegar à fronteira a nado durante a segunda quinzena de julho.

Dois dias após a entrada em massa na cidade autônoma, com a maioria dos que entraram irregularmente pelos quebra-mares já tendo retornado a Marrocos, o aspecto mais trágico dessa avalanche continua a se desenrolar. Pelo menos 67 pessoas perderam a vida tentando chegar a território espanhol . "Há mais mortos no mar", lamentou uma fonte policial no sábado. A cidade autônoma está preparando um local com capacidade para armazenar 200 corpos.

Na manhã de sábado, junto à fronteira, o trabalho de instalação de barreiras de contenção aquáticas — uma linha de bóias com 500 metros de comprimento e uma rede subaquática com até um metro de profundidade — foi combinado com a busca por mais vítimas submersas. Agentes do Serviço Marítimo da Guarda Civil e mergulhadores do Grupo Especial de Atividades Subaquáticas (GEAS) trabalhavam incansavelmente para localizar e recuperar os corpos do fundo do mar. Da praia, diversos jornalistas, muitos de veículos de comunicação internacionais, filmavam as operações e transmitiam atualizações ao vivo da cidade. Nos próximos dias, os agentes da Guarda Civil irão delimitar trechos da área e vasculhar todas as zonas. Na manhã de sábado, recuperaram cerca de dez corpos e continuaram a marcar os locais onde outros foram encontrados. É comum que alguns dos que morrem tentando atravessar a nado acabem no lado marroquino devido ao vento e à maré. "É arriscado fazer uma estimativa do número total de vítimas", apontou uma fonte familiarizada com a operação. Do outro lado da fronteira, agentes marroquinos também estavam recuperando corpos do mar, segundo as mesmas fontes.

Uma patrulha da Guarda Civil resgatou um migrante nas águas próximas a Ceuta neste sábado.Jon Nazca (REUTERS)

Nos últimos anos, Ceuta se acostumou com a descoberta no mar de corpos de jovens que tentaram atravessar a nado desde Marrocos. O ano de 2025 terminou com 46 mortes, mas o que aconteceu esta semana bateu todos os recordes. Sem infraestrutura para lidar com esse súbito afluxo de cadáveres, câmaras frigoríficas modulares, como as usadas em frutarias ou peixarias, foram instaladas no antigo Hospital Militar, segundo uma fonte da Funerária Cuatro Culturas, que está auxiliando nesses esforços.

A identificação de corpos e restos mortais é da competência dos serviços de Medicina Legal e Ciências Forenses, que fazem parte do Ministério da Justiça, mas a cidade autônoma está fornecendo apoio logístico. Entre outras medidas, disponibilizaram o antigo hospital, uma instalação municipal que serve a múltiplos propósitos, mas que ainda conserva sua sala de autópsias.

O edifício, protegido por grandes portões pretos, foi acessado por diversos veículos conduzidos por militares e agentes da Guarda Civil. Carros funerários transportando os corpos dos migrantes também chegaram. Por volta das 17h, dois funcionários municipais impediram a entrada de qualquer pessoa não envolvida na operação. Afastada da área principal, uma equipe de peritos forenses trabalhava naquele momento, sob instruções para manter o local completamente isolado.

Entre os corpos recuperados do mar, há muitos adolescentes, segundo uma fonte da funerária que acompanhou todo o processo. "Há uma faixa etária de 13 a 25 anos e outra de 25 a 35, mais ou menos", aguardando identificações mais precisas. Até ontem, todos eram do sexo masculino, com exceção de uma menina. Há "várias crianças entre 12 e 14 anos", acrescentou a fonte. A julgar pela aparência, a maioria parece ser marroquina, mas há outros de origem subsaariana, incluindo algumas crianças dessa região.

Na tarde de sábado, quase 80 corpos já estavam em câmaras frigoríficas, que é exatamente a capacidade das unidades de refrigeração recém-instaladas, e os trabalhos estavam em andamento para aumentar essa capacidade para 200 corpos. Espera-se que as unidades estejam prontas até a manhã de domingo. "Os necrotérios de Ceuta normalmente têm capacidade para no máximo 15 corpos", explicou a fonte.

Os oficiais acreditam que a maioria das vítimas morreu durante o tumulto humano que começou em Marrocos, esmagadas ou, em muitos casos, afogadas. "As pessoas que não sabiam nadar foram empurradas para a água", explicaram. Alguns dos corpos estão em avançado estado de decomposição porque o fluxo de pessoas para o mar vem ocorrendo há duas semanas.

Um moletom, na orla marítima perto da fronteira, neste sábado.ÁLVARO GARCÍA

Assim que são retirados da água, o Laboratório Forense da Guarda Civil coleta suas impressões digitais e compila um dossiê com informações que podem ajudar na sua identificação futura, como fotografias, as roupas que vestiam ou amostras de DNA. Muitas ONGs e a própria funerária já estão recebendo ligações de pessoas que perderam contato com seus familiares. Famílias de pessoas desaparecidas também estão entrando em contato com o jornal local, El Faro de Ceuta , pedindo ajuda para publicar os desaparecimentos. Não é incomum que duas pessoas que viajaram juntas pelo mesmo trajeto tenham destinos diferentes. Nesse caso, elas podem ajudar a identificar o amigo ou companheiro.

Se tiverem sorte e a vítima for identificada, solicitam autorização do juiz para a repatriação. Se não for possível identificá-la pelo nome, acaba enterrada com um número.