Mundo
Como a Rússia confisca casas na Ucrânia ocupada: 'Não temos para onde voltar'
Há quatro anos, quando fugiu de sua casa na região da Ucrânia ocupada por tropas russas, o pastor evangélico Ihor Ivashchuk pediu a um amigo de longa data que morasse no imóvel e cuidasse dele até que ele pudesse voltar em segurança.
Mas quando o amigo ligou para dizer que um homem de uniforme militar havia aparecido à porta perguntando quem era o proprietário da casa e pedindo para ver os documentos do imóvel, Ivashchuk soube que provavelmente havia perdido o imóvel.
O pastor foi forçado a deixar Melitopol, cidade ocupada no sul da Ucrânia, em setembro de 2022, em parte para que a esposa pudesse receber tratamento médico. Naquela época, soldados russos armados com fuzis de assalto já haviam invadido a igreja onde atuava durante um culto, assustando os fiéis.
Ele passou os dois anos seguintes reconstruindo a vida em outra região da Ucrânia, fora do controle de Moscou. Mas já havia ouvido relatos de que o governo russo confiscava imóveis nos territórios ocupados e os redistribuía a cidadãos russos.
A ligação sobre sua própria casa, no fim de 2024, não foi uma surpresa. Poucos meses depois, segundo ele, seu amigo foi despejado, e a casa — que Ivashchuk levou mais de 20 anos para reformar com as próprias mãos — já não era mais dele.
Ihor IvashchukIhor Ivashchuk fala à sua congregação antes de deixar MelitopolA história de Ivashchuk é apenas uma entre milhares na Ucrânia ocupada, onde a Rússia instalou autoridades para administrar as partes que controla em quatro regiões anexadas ilegalmente: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporíjia.
Uma investigação conjunta da BBC Verify, serviço de verificação da BBC, e da BBC News Rússia analisou centenas de registros e constatou que, desde 2024, 34.002 imóveis pertencentes a cidadãos ucranianos — entre apartamentos, casas e residências de temporada — foram confiscados ou incluídos em listas para confisco, a fim de serem destinados a cidadãos russos. Em alguns casos, esses imóveis podem ser cedidos temporariamente a autoridades locais, como juízes, militares e funcionários públicos.
As autoridades instaladas na região pela Rússia também miraram milhares de empresas, como escritórios e hotéis, mas esses casos não foram incluídos na contagem da investigação da BBC Verify e da BBC News Rússia.
Os cidadãos ucranianos raramente são avisados quando seus imóveis entram na mira das autoridades. Em vez disso, precisam vasculhar registros online de propriedades que as autoridades russas declararam como “sem proprietário” ou “potencialmente sem proprietário” para verificar se seus imóveis constam na lista.
Para tentar evitar que seus imóveis passem para o controle do Estado russo, esses cidadãos ucranianos (que se deslocaram para outras regiões por causa da guerra) precisam obter passaportes russos, retornar pessoalmente às regiões ocupadas em até 30 dias e correr o risco de serem detidos ao passar por um rigoroso processo de triagem de segurança no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou.
No ano passado, a BBC Verify revelou pela primeira vez esse esquema em Mariupol. Na época, pelo menos 5.700 imóveis já haviam sido identificados para confisco.

Mas, desde então, o presidente Vladimir Putin assinou uma nova lei que formalizou o processo nas quatro regiões anexadas ilegalmente pela Rússia.
Documentos oficiais publicados na internet por autoridades instaladas pela Rússia mostram dezenas de milhares de imóveis que podem ser confiscados.

Entre os imóveis que identificamos havia casas que continuavam perto da linha de frente da guerra, algumas delas destruídas pelos combates.
Entre os imóveis na mira das autoridades está uma casa de família nos arredores de Mariupol. A filha da proprietária — a quem chamaremos de Ivanna para proteger parentes que ainda vivem na Ucrânia ocupada — contou à BBC Verify que o pai passou 15 anos construindo a casa para servir de refúgio à mãe, após ela receber um diagnóstico de câncer.
“O médico disse que ela não podia mais respirar o ar de Mariupol e precisava morar perto da floresta”, contou Ivanna. “Quando a casa ficou pronta, minha mãe nos deixou, morreu. Mas ela continuou sendo a casa da nossa família.”
A família de Ivanna fugiu de Mariupol pouco depois do início da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, mas os avós permaneceram na casa. Só que em abril, autoridades da ocupação apareceram à porta para informar que o imóvel havia sido identificado para confisco. A BBC Verify viu fotos da casa, mas optou por não publicá-las para proteger a família de Ivanna.
“Foi uma casa construída para a minha mãe, onde ela viveu. É o lugar das nossas lembranças. Da minha infância... do tempo que passamos juntos em família”, disse Ivanna. “Não consigo imaginar outra pessoa morando lá.”

A história de Ivanna se repete por toda a Ucrânia ocupada. Este apartamento foi classificado pelas autoridades russas em Mariupol como "sem proprietário".
É apenas um dos 61 apartamentos deste prédio que as autoridades instaladas pela Rússia querem transformar em propriedade do Estado.
E é um dos 393 apartamentos em 17 prédios desta região que, segundo documentos oficiais publicados na internet, estão sendo confiscados.
Um porta-voz da Embaixada da Rússia em Londres, no Reino Unido, afirmou que as medidas “estabelecem procedimentos para a administração de imóveis residenciais cujos proprietários não podem ser identificados ou localizados, além de prever indenização caso os legítimos proprietários se apresentem posteriormente”.
A apreensão de imóveis de cidadãos ucranianos ocorre ao mesmo tempo em que ruas históricas são rebatizadas em homenagem a figuras da era soviética, enquanto o uso da língua ucraniana foi, na prática, proibido nas escolas pelas autoridades da ocupação.
Nem mesmo a igreja onde Ivashchuk pregava, uma congregação evangélica chamada Igreja da Graça, foi poupada. O prédio, de arquitetura ornamentada, foi transformado em uma unidade do Ministério da Cultura da Rússia, e sua fachada foi pintada e decorada com grandes murais de soldados russos.
Igreja da GraçaA igreja após ser transformada em uma unidade do Ministério da Cultura da Rússia. Murais de quatro soldados agora cobrem as paredes. A cruz foi removida.A pesquisadora Jaroslava Barbieri, do think tank (centro de pesquisa e debates) Chatham House, afirma que essa estratégia russa de “engenharia demográfica” foi concebida para transformar tanto o tecido social quanto o político das regiões ocupadas, “tornando sua futura reintegração à Ucrânia politicamente indesejável e, na prática, difícil de reverter”.
Barbieri acrescenta: “Internamente, isso ajuda a consolidar a narrativa imperial da Rússia de que a incorporação desses territórios à Federação Russa — frequentemente chamados de ‘novas regiões’ em russo — é uma realidade consolidada e benéfica.”
A Embaixada da Rússia negou essa interpretação e acusou o governo ucraniano de promover a “marginalização sistemática da língua russa, o enfraquecimento dos direitos da população de língua russa e tentativas de apagar sua identidade cultural”. Segundo a embaixada, esses fatores estão na “gênese” da guerra entre os dois países.
A lei promovida por Putin é apresentada como uma forma de oferecer moradia alternativa aos moradores dos territórios ocupados cujas casas foram destruídas pelos combates, mas o benefício só é concedido a quem aceitou se tornar cidadão russo.

Ainda assim, há indícios de que alguns cidadãos russos beneficiados pelo programa se sentem desconfortáveis com a forma como ele vem sendo conduzido. Conversas no Telegram de moradores de Mariupol mostram pessoas tentando descobrir se os apartamentos que lhes foram destinados eram realmente “sem proprietário”.

O governo ucraniano tem seu próprio programa de indenização para pessoas deslocadas pelo conflito, incluindo aquelas cujos imóveis foram confiscados. Mas alguns dos ucranianos que falaram à BBC Verify disseram ter dificuldade para conseguir uma nova moradia em um sistema lento, criado para atender milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas.
Myla, cujo sobrenome não será divulgado por motivos de segurança, é de Mariupol, mas hoje vive em outro país da Europa. Ela apresentou ao governo ucraniano provas dos danos sofridos por seu apartamento, mas afirma que nunca recebeu resposta das autoridades. Ela disse que alguns doadores ucranianos ricos concederam indenizações a um grupo de combatentes feridos, mas que sua família não tem direito a esse benefício.
“Percebi que, provavelmente, ninguém vai me indenizar por nada”, disse Myla. “Não somos pessoas sem teto. Somos pessoas que querem viver na Ucrânia, reconstruir o país e tudo mais, mas não temos para onde voltar.”
Ivanna não sabe qual é a situação atual de sua casa. No entanto, vivendo a milhares de quilômetros da Ucrânia, teme que haja pouca esperança de voltar a vê-la.
“Não acredito que, se eles tomarem a casa... nas condições em que vivemos hoje, será possível recuperá-la”, disse Ivanna, resignada à realidade de que, a menos que a Ucrânia recupere vastas áreas ocupadas pela Rússia, sua casa de infância estará praticamente perdida.
Enquanto isso, Ivashchuk também não sabe quem mora hoje em sua casa. Ele afirma viver um conflito em relação ao que aconteceu. Como cristão, diz que é importante perdoar o homem que tomou sua casa e despejou seu amigo.
Ao mesmo tempo, questiona o desejo de alguém “de melhorar a própria situação às custas de outra pessoa”, algo que descreve como “ilegalidade”. “Para mim, como cristão, isso é um pecado.”
Nota sobre a metodologia
A BBC identificou 34.002 endereços únicos após analisar 516 listas públicas de “imóveis sem proprietário” publicadas em sites oficiais dos territórios ocupados. Desse total, 14.308 ficavam em Mariupol e 19.694 em outras áreas dos territórios ocupados.
A reportagem excluiu imóveis não residenciais da contagem e padronizou o formato dos endereços restantes para garantir que cada imóvel fosse contabilizado apenas uma vez, mesmo que aparecesse em diferentes etapas do processo.
Também foram excluídos os imóveis que, posteriormente, passaram a constar nas listas de exclusão divulgadas pelas autoridades locais, o que, em geral, indica que o proprietário conseguiu comprovar pessoalmente seus direitos sobre o imóvel.