Polícia
Dinheiro em espécie, prostíbulos, versões contraditórias e acusação de tortura marcam dia tenso no Júri do caso Raquel Cattani
Depoimentos revelam noite regada a bares e prostíbulos pagos em dinheiro vivo, réu acusa tortura policial e Ministério Público apresenta provas técnicas para sustentar a tese de crime premeditado no assassinato de Raquel Cattani
O Tribunal do Júri que julga a morte brutal de Raquel Cattani entrou na tarde desta quinta-feira em um dos momentos mais tensos desde o início do julgamento. Testemunhas, interrogatórios, revelações inesperadas, contradições apontadas pelo Ministério Público e um relato explosivo de tortura policial transformaram o plenário em um ambiente de absoluto silêncio e atenção máxima dos jurados.
A sequência de depoimentos começou com a oitiva de Marcos Bilibio, morador da região do Pontal do Marape, que relatou ter encontrado Romero no dia do crime, quando ele teria parado o carro rapidamente à beira da estrada apenas para oferecer novilhas à venda. A conversa foi breve, Romero não desceu do veículo e seguiu caminho sem explicar para onde ia ou de onde vinha.
Na sequência, duas testemunhas arroladas pela defesa de Romero trouxeram um elemento que chamou a atenção de todos no plenário: a noite anterior ao crime.
Por videoconferência, Anderson de Barros Sampaio e Samoel Marcos da Conceição afirmaram que passaram a madrugada com Romero, consumindo bebida alcoólica em bares e três prostíbulos da cidade. Ambos disseram que todas as despesas da noite foram pagas por Romero, em dinheiro vivo, destacando que ele portava um “bolo” de dinheiro em espécie.
Segundo os relatos, o grupo teria permanecido junto até aproximadamente 3h ou 4h da madrugada.
Pouco depois, teve início o interrogatório dos réus.
Rodrigo optou por permanecer em silêncio.
Romero, por outro lado, falou por mais de uma hora.
Ele negou a versão da denúncia, afirmou que a separação foi iniciativa dele, disse que não tinha boa relação com o irmão Rodrigo e relatou diversos conflitos antigos entre os dois, incluindo acusações de furto.
Romero detalhou sua rotina no dia do crime, falou sobre deslocamentos para buscar gasolina para uma moto com problema mecânico, descreveu o período da tarde, o cuidado com os filhos, a ida para a casa da mãe e, posteriormente, a noite de bebida com amigos.
Mas o momento mais impactante do interrogatório veio quando Romero fez uma grave acusação contra policiais.
Segundo ele, após ser preso, foi torturado.
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De acordo com Romero, as agressões explicariam mudanças de versão em seus depoimentos posteriores, pois ele passou a temer novas agressões.
A promotoria, por sua vez, confrontou Romero com dados técnicos que apontam que os celulares dele e do irmão perderam conexão com a mesma torre de telefonia com diferença de apenas um segundo, sugerindo que ambos estavam no mesmo local.
O Ministério Público também apontou contradições sobre o contato entre os irmãos, sobre um suposto pedido de carona e sobre pesquisas apagadas do celular de Romero no momento exato em que o crime estava sendo executado — buscas relacionadas à guarda de filhos.
Ao final do interrogatório, Romero afirmou que Raquel era uma “esposa perfeita” e uma “mãe excepcional”.
Com a fase de interrogatórios encerrada, teve início a sustentação do Ministério Público.
Em uma fala firme e emocional, o promotor João Marcos de Paula Alves exibiu aos jurados uma foto de Raquel sorrindo e pediu que aquela fosse a imagem preservada ao final do julgamento.
O promotor detalhou a brutalidade do crime: 40 facadas, escoriações no rosto, golpes pelas costas e na nuca, e a causa da morte apontada como hemorragia associada à broncoaspiração.
Também destacou uma prova considerada decisiva: o exame de urina encontrado no banheiro da casa, cujo perfil genético, segundo a perícia, é compatível exclusivamente com Rodrigo.
O Ministério Público apresentou ainda a cronologia das mensagens entre os irmãos, apontando que o contato foi retomado no dia 4 de julho, poucos dias antes do crime, e sustentou que, no dia 17, Romero teria oferecido a Rodrigo R$ 4 mil para executar o assassinato.
A acusação também afirmou que Romero enviou fotos e vídeos no grupo da família no momento do crime para simular normalidade e afastar suspeitas.
Ao final, o promotor fez um apelo direto aos jurados, lembrando que o filho do casal faz aniversário no mesmo dia em que o corpo da mãe foi encontrado.
O plenário ficou em silêncio absoluto.
O julgamento agora segue para a fase final dos debates entre acusação e defesa, em um dos dias mais intensos e dramáticos do Tribunal do Júri em Mato Grosso nos últimos anos.