Brasil
Espancamento até a morte de cliente negro em um mercado põe sob lupa o racismo no Brasil
Vice-presidente da República chama de “lamentável” a morte de João Alberto Silveira Freitas por dois seguranças brancos em uma unidade do Carrefour, mas diz que “não existe racismo” no país
O dia 20 de novembro, feriado em várias cidades brasileiras, é a data em que o país reflete, com dados e depoimentos, sobre a herança da escravidão, abolida há 132 anos. A data lembra a morte do Zumbi dos Palmares, que liderou uma sublevação de escravos. Este ano, a celebração da data, embora afetada pelo coronavírus, ganha força após os grandes protestos antirracistas nos Estados Unidos e o avanço —tímido— da eleição de prefeitos e vereadores negros no primeiro turno das eleições municipais, no domingo passado.
Pessoas próximas da vítima convocaram um protesto nesta sexta-feira em frente ao supermercado, fechado. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e os dois candidatos à prefeitura de Porto Alegre —Manuela D’Ávila (PCdoB) e Sebastião Melo (MDB)— se apressaram em condenar a agressão.
Foi nessa conjuntura que a brutal morte de Freitas ganhou as manchetes da imprensa. Uma relevância bem diferente da pouca repercussão que costumam ter os casos similares e as milhares de mortes que ocorrem todos os anos em operações policiais, tendo como alvo, principalmente, jovens negros de favelas.
Nesta sexta-feira também são notícia nacional as ameaças de morte contra a primeira vereadora negra eleita em Joinville, Santa Catarina —o Estado mais branco do Brasil, povoado no século XX por imigrantes alemães. Uma das ameaças dizia: “Agora só falta a gente matar ela e entrar o suplente que é branco”. Paradoxalmente, esse mesmo Estado elegeu em 1934 a primeira deputada negra, a educadora Antonieta de Barros. Pouco avançaram seus pares desde então, como ilustra bem o tuíte de um senador nesta semana: “O perfil do eleitor brasileiro é majoritariamente de mulheres, negras, com ensino fundamental e 37 anos. Já o perfil do eleito é: homem, branco, com ensino superior e 49 anos”.
Nestas eleições municipais, que em algumas cidades terão segundo turno no dia 29, os brasileiros elegeram mais vereadores negros do que nunca, mas o aumento é tímido, apesar das cotas: de 42% a 45%. Sua representação ainda está longe de seu peso real, porque constituem mais da metade da população. No Brasil, o termo negro também inclui, geralmente, as pessoas pardas. Como cabe a cada pessoa decidir como se declara, nestas eleições, milhares de candidatos mudaram de raça autodeclarada. Os partidos costumam burlar as cotas com candidaturas fraudulentas.As estatísticas mostram sistematicamente que os negros brasileiros morrem mais cedo, vivem em piores condições, adoecem mais e ganham menos que seus compatriotas brancos ou nipo-brasileiros. Entretanto, estão sobrerrepresentados entre os desempregados e as vítimas da violência.
Aumentam os pedidos de boicote do Carrefour, que já se viu envolvido em um incidente diferente deste, mas que também causou revolta. Um vendedor de uma marca que oferecia produtos nos corredores de um de seus supermercados sofreu um infarto, morreu ali mesmo e os responsáveis pela loja cobriram o corpo com vários guarda-chuvas e o cercaram com caixas de cerveja até a hora do fechamento.