Brasil
Acidente com avião da TAM que deixou 199 mortos completa 15 anos; 98 moravam ou nasceram no RS
Familiares se reúnem neste domingo (17) para relembrar o maior acidente da aviação brasileira, em 2007. Processo terminou sem condenações. ANAC diz que tragédia gerou mudanças
Considerado o maior acidente da história da aviação brasileira, a queda do avião da TAM, que deixou 199 mortos, completa 15 anos neste domingo (17). O voo que saiu de Porto Alegre com destino a São Paulo foi interrompido em cerca de uma hora e meia — assim como as vidas de passageiros, tripulantes e pessoas em solo. E, de alguma forma, mudou a história de milhares de amigos e familiares que conviveram com a tragédia.
Às 14h, eles se reunirão embaixo de uma figueira no chamado Largo da Vida, um espaço criado em homenagem aos mortos na tragédia. O número de pessoas presentes deve ser menor do que o esperado, pois alguns perderam a vida para a Covid-19 e outros tantos deixaram de ir a cerimônias frustrados com o resultado do processo judicial.
A LATAM Airlines, que incorporou a companhia, informou, em nota, que "se solidariza com todos aqueles que foram afetados" e que "os familiares de todas as vítimas foram indenizados e que uma família segue com ação em andamento".
Relembre o acidente
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Acidente com avião da TAM que deixou 199 mortos completa 15 anos; 98 moravam ou nasceram no RS — Foto: Reprodução/RBS TV
Às 17h16 de 17 de julho de 2007, o voo JJ 3054, da companhia aérea TAM, decolou do Aeroporto Internacional Salgado Filho com destino a São Paulo. Às 18h48, ao tentar aterrissar na pista do Aeroporto de Congonhas, o avião desgovernado não conseguiu parar e bateu contra o terminal de cargas da companhia.
A explosão causou a morte de 199 pessoas: 187 ocupantes e 12 que estavam em solo. Do total, 98 eram nascidos ou moravam no Rio Grande do Sul.
"Eu olho as fotos de onde ela me levou, em outros países. Isso é uma coisa boa. A gente se sente bem. E assim vão se passando os anos", recorda Lia Schneider, moradora de Teutônia, que perdeu a filha Patrícia, comissária de bordo.
As causas
A tragédia foi investigada pela Polícia Federal. De acordo com o inquérito, o problema foi causado por erro dos pilotos, que teriam deixado um dos controles na posição de aceleração. Um trecho final da gravação na "caixa preta" registrou o momento em que eles citam que apenas um dos controles funcionava corretamente.
O caso foi levado à Justiça pelo Ministério Público Federal (MPF-SP). Três pessoas foram denunciadas: dois diretores da TAM e uma diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo. A principal tese foi de negligência.
Os três foram julgados em duas instâncias e inocentados. O procurador da República que atuou no caso, Rodrigo de Grandis, fala em frustração após uma investigação complexa.
"Foi muito triste, muito triste, e eu tentei dentro do possível desempenhar com a máxima isenção e profissionalismo a minha função. Eu tenho a sensação de dever cumprido, embora a decisão não tenha sido favorável", afirma.
Roberto Gomes, presidente da Associação de Vítimas e irmão de Mário, uma das vítimas, acredita que, dentro do aspecto jurídico ou criminal, não tem mais o que fazer.
A ANAC afirma que muitas mudanças na aviação brasileira foram implementadas depois do acidente, como as condições de aderência das pistas de pouso e decolagem dos aeroportos. Um programa de medição de atrito e macrotextura e que instalou sistemas de desaceleração de aeronaves.
Em relação à capacitação de pilotos, a ANAC estabeleceu critérios mínimos de treinamento em falhas de sistemas de frenagem. Entre outras modificações também está a limitação de operações no Aeroporto de Congonhas, onde ocorreu o acidente, para comandantes com mais de 100 horas de voo, além de melhorias nas regras de operação, manutenção, segurança das aeronaves e vigilância da Agência.
'Ninguém queria acreditar'
Assim que a notícia se espalhou, dezenas de familiares chegaram ao Salgado Filho em busca de informações. Uma delas era Andréa Freitag, moradora de Novo Hamburgo, que tentava descobrir se a irmã Fabíola, de 28 anos, estava a bordo do avião da companhia em que era comissária.
"Ela teve um dia de folga e veio para cá. Escolheu o vestido de noiva, porque ia casar em fevereiro do outro ano. Pegou esse voo justamente para não se atrasar, porque ela tinha que resolver tudo antes de um voo internacional, o primeiro dela, estava megafaceira. Era tudo o que ela queria", diz.
As últimas palavras foram trocadas de forma apressada. Não imaginavam o que estava por vir.
'Tudo parou'
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Acidente com avião da TAM que deixou 199 mortos completa 15 anos; 98 moravam ou nasceram no RS — Foto: Reprodução/RBS TV
Joice Oliveira perdeu o marido, Fernando, mas não esquece dos anos com ele. O engenheiro eletricista rodou o país a trabalho até fixar moradia em São Leopoldo. Com uma nova oportunidade de trabalho em Linhares, no Espírito Santo, voltou a viajar.
Ela lembra que o marido adorava o clima de calor e sempre falava em morar em uma praia para poder ficar em um fim de tarde pescando.
"Foi a noite que não deveria ter existido nunca nas nossas vidas. Foi a noite mais fria, a noite mais escura, uma noite de terror", resume.
Mãe encontrou força na música
Lia ainda guarda o uniforme da filha. Ela recorda que Patrícia era chefe entre as comissárias internacionais e havia ido a Teutônia para o aniversário do irmão. No dia da tragédia, era o da mãe, mas não podia ficar devido a compromissos de trabalho.
"No outro dia ela tinha que ir para a Itália. Meu sobrinho levou elas para Porto Alegre e elas pegaram vaga nesse voo. Nós estávamos sentadas na sala, e amigas dela vieram falar: 'Olha que coisa triste'. Disse: 'Ela tá lá dentro'. Não sei por que, coração de mãe, sei lá", afirma.
A forma de lidar com a perda foi se reencontrar com uma antiga paixão: a música. Ela integra um conjunto que se apresenta na região.
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Acidente com avião da TAM que deixou 199 mortos completa 15 anos; 98 moravam ou nasceram no RS — Foto: Reprodução/RBS TV
NOTA DA LATAM
A LATAM Airlines se solidariza com todos aqueles que foram afetados por este acidente há 15 anos. Embora consciente de que nada poderá compensar as perdas, a companhia se empenhou, desde o primeiro momento, em apoiar os familiares de todas as maneiras e concluir o mais rápido possível o procedimento de indenização.
A companhia informa que os familiares de todas as vítimas foram indenizados e que uma família segue com ação em andamento. A empresa não divulga valores das indenizações por questões de segurança e de privacidade dos próprios familiares.