
Conforme o vaticanista Filipe Domingues, doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, o processo é relativamente recente considerando o percurso da igreja. "No início da história, os santos eram proclamados santos por aclamação popular. As pessoas os veneravam depois da morte, consideram santo, e aí o bispo local dizia santo", explicou, ressaltando a informalidade do processo, sem data para ser concluído.
No entanto, a instituição igreja viu a necessidade de fazer maior controle desse processo — haveria, com isso, a possibilidade de uso político por reis ou famílias nobres, que buscavam "comprar" esse título, apontou o especialista.
Como se dá o processo
Conforme Filipe Domingues, a primeira necessidade é a existência de um reconhecimento local da pessoa a ser beatificada. "A aclamação popular existe, e isso é pra todos os casos", afirmou, dizendo que a população precisa nutrir devoção pela pessoa a ser considerada santa. Isso, no caso do Padre Cícero, já existe.
No entanto, há a necessidade de um fator concreto para a concessão do título. Para tal, o bispo se direciona ao Vaticano, apresenta o pedido para a Santa Sé e indica as propriedades do candidato para isso. Se não houver impedimento, o papa em exercício autoriza o processo via carta.
Após a autorização, a diocese deve preparar um dossiê de pesquisa sobre a vida do candidato a santo. O levantamento deve trazer depoimentos de pessoas que o conheceram ou alguém que pesquisou bem a vida dele, e o percurso não necessariamente deve ser ilibado.
O vaticanista acrescenta que, mesmo com Padre Cícero tendo vivido relações com a política e não sendo reconhecido pelo milagre da hóstia, esse não é um impedimento no processo. A objeção só ocorreria com a não conciliação do religioso com a igreja católica, que concedeu, em 2015, perdão a punições contra o padre.
Com o processo concluído, forma-se um tribunal eclesiástico diocesano, ainda em caráter local. Nele, o bispo nomeia um postulador, eleito para ser o representante da causa em prol da beatificação. A função é incumbida de reconstruir a vida com outra pesquisa para demonstrar as virtudes santas do candidato.
Assim, o postulador seleciona um milagre e se volta à documentação dele, reunindo, por exemplo, laudos médicos e outras provas que atestem a fundamentação do milagre em uma perspectiva sobre-humana, divina. Após conclusão do levantamento, este é levado pelo postulador ao Vaticano.
Ainda segundo o vaticanista, esse procedimento leva "o tempo que precisar". "Pode demorar anos, mas eles tentam fazer rápido", disse Filipe Domingues, acrescentando que o processo para beatificação, porém, deve esperar em torno de cinco anos após a morte do candidato para ser iniciado.
Fase no Vaticano
Com a chegada do dossiê ao Vaticano, os trâmites passam a ocorrer com o Dicastério para as Causas dos Santos. Esse setor da Cúria Romana se volta para análise do documento, em prazo também não definido.
Se o Dicastério considerar que o candidato é mesmo uma pessoa interessante para a beatificação, eles vão reconhecer que essa pessoa tem "virtudes heroicas". Em alguns casos, exemplifica o especialista, o candidato também pode ser considerado um mártir, caso tenha sido morto por motivos de fé.
Uma vez as virtudes tendo sido reconhecidas, estas serão apresentadas ao papa, que dará o seu próprio parecer sobre o assunto. Filipe Domingues indica que, normalmente, o pontífice considera as proposições do Dicastério. Se ele acata as virtudes, o candidato passa a ser considerado "venerável".
Para haver a beatificação, há a necessidade de avaliação de um milagre, que deve ter ocorrido após a morte do candidato. "A ideia por trás disso é de que, se a pessoa está no céu ao lado de Deus, ela consegue interceder com Ele para a ocorrência junto dos que estão na Terra", explica o especialista, citando que supostos milagres feitos em vida podem compor as virtudes no candidato.
O milagre escolhido para o exame deve ter comprovação de intercessão divina para existir, fundamentado por documentos que mostrem não haver explicação científica para a ocorrência. Exemplo disso seria um caso de câncer terminal curado em tempo recorde, apontou Filipe Domingues, pontuando as dificuldades para essa valoração.
Se o milagre for, enfim, reconhecido, o Dicastério volta ao papa, que deve reconhecer o milagre. Caso isso ocorra, Padre Cícero pode ser considerado beato, e a igreja autoriza a devoção local a ele.
O vaticanista ressalta que, apesar de haver ampla reverência da população ao Padre Cícero, ele não é acolhido pela igreja católica — a instituição recebe as manifestações de fé das pessoas, que já chegaram a maiores proporções. Em razão disso, ele não tem autorização de uma igreja em seu nome, por exemplo.
A antecipação dessa devoção popular não é necessariamente um problema, apontou, desde que não tenha sido manipulada para ocorrer. Se a interferência, em algum momento dos trâmites da beatificação, fosse comprovada, a igreja poderia não reconhecer a candidatura, e o processo "ficaria por isso mesmo".
Beatificação
Caso Padre Cícero seja beatificado, haverá uma cerimônia no local em que ele fez sua vida pública. O evento marcaria a permissão da devoção local pela igreja, a qual deveria ser restrita a esse âmbito. No entanto, se houver outro milagre nesse ínterim, o processo pode avançar para a fase de canonização.
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Procedimento de beatificação foi autorizado pelo papa Francisco em carta datada de junho de 2022. — Foto: Claudiana Mourato/TV Verdes Mares
Tal processo deve chegar, mais uma vez, ao papa, que tem o poder de proclamar o candidato ao status de santo. A pessoa alçada a esse reconhecimento pode, por exemplo, ter devoção mais ampla — a criação de imagens, festas, paróquias e até igrejas alusivas ao santo é permitida.
"Ser santo significa dizer que a pessoa está no céu, com Deus, e de lá intercede pelas pessoas aqui na Terra", frisou o vaticanista, relembrando o rigor do processo para a chegada ao título. "Não é uma burocracia que a igreja faz só pra cumprir tabela; é para verificar e chegar o mais próximo da verdade do que a igreja acredita".